O Brasil na Guerra Fria: autonomia heterodoxa e a Política Externa Independente

Resumo

Este artigo oferece um instrumental epistemológico para o debate em torno do conceito de autonomia no contexto da política externa independente (PEI) brasileira, desenvolvida no começo dos anos de 1960. No ínterim da Guerra Fria, o conceito de autonomia possibilita avaliar a participação dos países da América Latina no conflito a partir de uma concepção endógena da historiografia latino-americana, especialmente a argentina (Juan Carlos Puig) e brasileira (Hélio Jaguaribe). O objetivo deste artigo é articular e aplicar o conceito de autonomia a dois casos singulares na PEI: participação parcial na I Conferência de Belgrado (1961) e mediação na crise dos mísseis de Cuba (1962). Conclui-se que o conceito de autonomia heterodoxa de Puig, sob bases das perspectivas de viabilidade nacional e permissividade internacional de Jaguaribe, enquadra-se como lente explicativa para os dois casos.

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Biografia do Autor

Tiago Gabriel Tasca, Centro de Estudos sobre as Relações Internacionais do Brasil Contemporâneo (IREL/UnB)
Mestre em Política Internacional e Comparada (IREL - UnB). Possui graduação em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Assistente Editorial da Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI), estagiário do International Policy Center for Inclusive Growth e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Bioética e Diplomacia em Saúde (NETHIS/Fiocruz), associado à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Pesquisador associado do Centro de Estudos sobre as Relações Internacionais do Brasil Contemporâneo (IREL/UnB). Membro associado da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) e da Associação Latino-americana de Ciência Política (ALACIP). 

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Publicado
30-12-2018
Como Citar
Tasca, T. G. (2018). O Brasil na Guerra Fria: autonomia heterodoxa e a Política Externa Independente. Carta Internacional, 13(3). https://doi.org/10.21530/ci.v13n3.2018.828
Seção
Artigos