Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
29Alexandre Cesar Cunha Leite; Arthur Mastroiani Máximo de Lucena; Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
Invasão à Crimeia: influência ocidental
na Ucrânia e retaliação Russa
Crimea invasion: western influence in
Ukraine and Russian retaliation
DOI: 10.21530/ci.v15n1.2020.942
Alexandre Cesar Cunha Leite
1
Arthur Mastroiani Máximo de Lucena
2
Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
3
Resumo
Este artigo tem o intuito de analisar as medidas de política externa adotadas pela Rússia nos
anos de 2014-2015 que resultaram na invasão da Federação à Crimeia, sob a ótica do Modelo
de Hermann, com a seguinte questão norteadora: diante da invasão à Crimeia e quebra da
soberania do país, em que medida as ações de política externa da Rússia foram influenciadas
pelas mudanças de governo na Ucrânia? Para isto, levou-se em consideração breve contexto
histórico da crise ucraniana, bem como as três mudanças de governo em curto prazo e se
aplicou o modelo de Hermann, contextualizado com o entendimento conceitual de Guerra
Híbrida, uma vez que as estratégias de guerra do governo russo na Crimeia foram de vias
convencionais e não convencionais. Como síntese da pesquisa aqui apresentada, produziu-se
um quadro demonstrativo da aplicação do Modelo de Hermann nas mudanças dos governos
ucranianos e os tipos de guerra observados.
Palavras-chave: Rússia; Ucrânia; Criméia; Guerra Híbrida.
1 Doutor em Ciências Sociais (linha de Relações Internacionais) pela PUCSP. Docente do Programa de
Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (PPGRI/UEPB), docente do
Programa de Pós-Graduação do Programa de Gestão Pública e Cooperação Internacional da Universidade Federal
da Paraíba (PGPCI/UFPB) e docente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PPGRI/PUCMINAS). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-0209-2717;
email: alexccleite@gmail.com
2 Mestre em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (PPGRI/UEPB). ORCID: http://orcid.org/
0000-0001-9361-9395; email: arthurmastroiani@gmail.com
3 Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (PPGCP/UFPE). Docente do Programa
de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (PPGRI/UEPB). ORCID:
http://orcid.org/0000-0002-2905-0541; email: fabio.f.nobre@gmail.com
Artigo submetido em 21/04/2019 e aprovado em 16/03/2020.
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
30 Invasão à Crimeia: influência ocidental na Ucrânia e retaliação Russa
Abstract
The paper was carried out with the purpose of analyzing the foreign policy measures adopted
by Russia in 2014-2015, which resulted in the invasion of the Federation to Crimea. Our starting
point is taking the perspective of the Hermann Model, with the focus question: facing the
invasion of Crimea and sovereignty of the country, in which extent has Russia’s foreign policy
actions been influenced by changes in government in Ukraine? Considering this purpose, we
start with a brief historical context of the Ukrainian crisis, the three changes of government
in short term and application of the Hermann´s model of Hermann, contextualized with the
understanding of hybrid war, since the strategies of war of the Russian government in the
Crimea were conventional and non-conventional. As synthesis of the realized research, we
produce a table to demonstrate the application of the Hermann Model in the changes of the
Ukrainian governments and the types of war observed.
Keywords: Russia; Ukraine; Crimea; Hybrid War.
Introdução
O objetivo deste artigo é analisar as medidas de política externa (PE) da Rússia
direcionadas à Ucrânia, notadamente aquelas que implicaram quebra da soberania
do país e resultaram em mudanças de direcionamento político russo com a invasão
da Federação Russa (FR) à Crimeia. Opta-se por realizar a análise tomando o
modelo de (Hermann 1990), considerando a seguinte questão norteadora: diante
da invasão à Crimeia e a quebra da soberania do país, como as ações de PE russa
foram influenciadas pelas mudanças de governo na Ucrânia?
4
O objeto se encontra centrado nas ações do presidente Vladimir Putin
direcionadas à Crimeia após as mudanças governamentais na Ucrânia. Sustenta-se
que a FR utilizou a denominada Guerra Híbrida (GH) (Dayspring 2015; Fernandes
2016; Chivvis 2017; e Trenin 2018). A análise encontra-se dividida em três níveis:
a) descrever e analisar o contexto histórico do conflito na Ucrânia envolvendo
o mercado energético entre Ocidente e russos; b) descrever as mudanças de
governo ocorridas na Ucrânia com posições antagônicas entre pró-russos e pró-
ocidentalistas e, por fim; c) analisar o posicionamento da política externa da
Rússia com a invasão da Crimeia, aplicando duas características do Modelo de
4 Este artigo é parte de pesquisa em andamento realizada com financiamento do Conselho Nacional de Desenvol-
vimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Os autores agradecem aos pareceristas pelas sugestões e contribuições que originaram esta versão do texto.
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
31Alexandre Cesar Cunha Leite; Arthur Mastroiani Máximo de Lucena; Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
Hermann que envolvem os estágios da tomada de decisão de Putin e o que se
entende por GH como medida da FR.
O intuito não é a aplicação completa do modelo, mas usar duas das sete
características que Hermann apresenta em seu estudo dos estágios da tomada de
decisão em PE. Segundo (Hermann 1990 14), estes estágios são classificados da
seguinte maneira: 1) Expectativas políticas iniciais; 2) Ator Externo/Estímulos
Ambientais; 3) Reconhecimento de Informações Discrepantes; 4) Postulação de
uma Conexão entre Problema e Política; 5) Desenvolvimento de Alternativas;
6) Construir Consenso Autoritário para Escolha e; 7) Implementação de Nova
Política. Dentre as sete características de (Hermann 1990) propõe-se a utilização de
duas: a postulação de uma conexão entre problema e política e a implementação
de uma nova política.
Ainda que não sejam utilizados todos os estágios propostos pelo modelo de
(Hermann 1990), para os excluídos existem associações objetivas entre as medidas
de PE de Putin para a Ucrânia e os estágios não selecionados. Desta forma, cabe
elucidá-los como justificativa e contextualização do problema.
Como o governo russo, em sua política externa, tem adotado medidas objetivas
de causa e efeito com a Ucrânia, dada a invasão ao território da Crimeia e quebra
de soberania do país, foram utilizados dois estágios. Seguem os motivos: a)
postulação de uma conexão entre problema e política: intuito de analisar o efeito
e a consequência do que ocorreu com as mudanças de governo ucraniano, para
aceitação ou não de acordos econômicos ocidentais e b) implementação de uma
nova política: diante das mudanças governamentais ucranianas, a Rússia adotou
novo direcionamento político com a Ucrânia, resultando na anexação da Crimeia.
Ademais, segundo o modelo, como toda implementação de nova política advém de
processo decisório do tomador de decisão, as mudanças de governo ucraniano e,
consequentemente, de direcionamento político contrário aos interesses políticos e
econômicos russos, resultam em invasão militar e quebra da soberania ucraniana.
Não surtiriam efeitos analíticos visíveis as seguintes características, pelos
seguintes motivos: a) para o estágio Expectativas Políticas Iniciaisdesde o
início do conflito ucraniano entre pró ocidentalistas e pró russos, Putin já havia
demonstrado sua posição preliminar com relação à Ucrânia, de não aceitação
de influência Ocidental nos assuntos domésticos ucranianos; b) Ator Externo/
Estímulos Ambientaisos atores envolvidos estão explícitos na análise realizada,
o que descarta o uso deste; c) Reconhecimento de Informações Discrepantes
este reconhecimento de quebra de informação ou de informações discrepantes
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
32 Invasão à Crimeia: influência ocidental na Ucrânia e retaliação Russa
é transparente em comparativo dos governos russo e ucraniano analisados,
visto que Putin tinha acesso livre à informação do que ocorria na Ucrânia, e;
d) Desenvolvimento de Alternativas — Putin, na avaliação de política externa
realizada, não usou meios alternativos de ação; seus objetivos eram claros e
específicos para não perder espaço de influência política e econômica no país.
Todavia, mesmo existindo clara vinculação de causa e efeito, estes estágios serão
citados na aplicabilidade do modelo como forma de contextualização.
Antes de adentrar na análise de PE na tomada de decisão do governo Putin,
conforme o modelo proposto por (Hermann 1990), apresenta-se a explicação da
situação-problema abrangendo a hipótese do envolvimento do interesse político/
econômico russo na Ucrânia, especialmente os acordos energéticos ocidentais
ucranianos que conduziram a mudança da política externa russa para intervenção
no país. Os estágios “a postulação de uma conexão entre problema e política” e a
“implementação de uma nova política” serão utilizados para analisar a associação
entre o direcionamento ucraniano em alterar seus parceiros comerciais para a
vertente pró-ocidental e a atuação da mudança de política externa russa em
responder a este novo direcionamento do governo ucraniano, apresentando como
resultado a invasão à Crimeia.
Para isto, serão debatidas as mudanças de governo da Ucrânia envolvendo
(os) três (últimos) presidentes: Víktor Yanukovytch (2010-2014); Oleksandr
Turtchynov (2014-2014) e Petro Poroshenko (2014-2019). Da mesma forma, atribui-
se relevância à posição militar da Rússia durante os processos de debate dentro
da Ucrânia entre pró-russos e pró-ocidentais, e, por fim, a invasão à Crimeia pela
Federação Russa em 2014.
O conflito ucraniano e o interesse da Federação Russa no país
A Rússia, desde suas ações durante a Guerra Fria até sua formação democrática,
tem na ascensão ao poder de Vladimir Putin na virada do século XXI uma
ruptura pragmática em sua estrutura, modificando a ideologia política vigente
no país. Estas modificações, observáveis com a presença de Vladimir Putin, não
foram repentinas, quando se observa o governo de Boris Yeltsin e as tentativas
de mudanças do quadro doméstico russo (Obydenkova 2011). Em meio a este
momento de transformação doméstica russa gozando de certa estabilidade do
governo Putin, o mundo ocidental começou a investir e influenciar países que
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
33Alexandre Cesar Cunha Leite; Arthur Mastroiani Máximo de Lucena; Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
antes estavam em domínio da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS) (Segrillo 2012).
Diante dos interesses econômicos de expansão da economia de mercado pela
União Europeia (UE) e Estados Unidos (EUA), já se observava que países do Leste
Europeu como Ucrânia, Polônia, República Tcheca, Lituânia, Letônia e Sérvia,
entraram na zona de comércio e influência Ocidental, o que aumentou a preocupação
dos russos no que diz respeito aos seus interesses econômicos, políticos e no que
concerne à sua área de influência regional. Na prática, para a FR, este evento é
visto como perda de mercado na região. Frente à necessidade de modernização
da Rússia e de sua inserção na economia mundial, a perda de espaço competitivo
gera incerteza e pressão para uma ação reativa na política externa (Csaba 1996).
Entende-se a preocupação do governo russo com relação à expansão Ocidental
em sua antiga área de influência; dentre os países citados, a Ucrânia é aquele que,
para os russos, foi e continua sendo um espaço político e econômico essencial,
compondo parte de uma agenda de ação de PE russa no âmbito regional. Em sua
história, a Ucrânia pertencia à zona de influência da antiga URSS como República
membro. Após o fim da URSS, em 1991, a Ucrânia se tornou livre. Conforme
se notou nos países do Leste Europeu (p.e. Hungria, Eslováquia e Polônia), os
Estados desta região se voltaram para o eixo de influência ocidental. Muitos destes
como membros da UE. Na Ucrânia, o processo não aconteceu pacificamente, visto
que existem no país dois grupos (pró-ocidentalistas e pró-russos) que seccionam
a sociedade ideologicamente e influenciam na mentalidade social-política
(Csaba 1996).
Perante esta segmentação social entre pró-ocidentalistas e pró-russos, em
2010, no governo de Viktor Yanukovytch, ocorreu quebra de contratos com a
UE, associada às relações econômicas em que prevaleceram o interesse da FR.
Yanukovytch argumentava não ser vantajosa a influência econômica da UE, pois
os principais favorecidos, sobretudo vinculados ao mercado energético (petróleo
e gás natural), seriam os Ocidentais e não os ucranianos. Yanukovytch, mesmo
com as pressões internas para rebater a aproximação com a Rússia, tendia ao lado
pró-russo e, via meios legais ucranianos, levou o país para a zona de influência
da Rússia (Lewis 2014).
O retorno à zona de influência russa ocorreu por pressão da conjuntura
ucraniana. A Rússia ameaçou cortar o abastecimento de gás natural para a Ucrânia
caso o país não seguisse sua estratégia. Como a Ucrânia é dependente do produto
energético, entende-se que a decisão decorre da atuação de uma política coercitiva
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
34 Invasão à Crimeia: influência ocidental na Ucrânia e retaliação Russa
que influenciou a decisão ucraniana. Os gráficos 1 e 2 indicam grau de dependência
do governo ucraniano ao se observar sua balança comercial, determinada pelo
fluxo de petróleo e gás natural com os russos, entre outros fatores.
Gráfico 1: Importação de produtos energéticos na Ucrânia — por país (2015)
$0,00
$500.000,00
$1.000.000,00
$1.500.000,00
$2.000.000,00
$2.500.000,00
$3.000.000,00
$3.500.000,00
$4.000.000,00
Import (US$ Thousand)
Fonte: (World Bank 2018). Elaboração própria.
Ao analisar os principais produtos importados pela Ucrânia da FR, segundo
o World Bank (2015), observa-se que, além de produtos com alto valor agregado,
a Ucrânia é dependente em outros setores, como alimentação, tecidos, plástico e
borracha. Na prática, percebe-se que a predominância russa no mercado ucraniano
tende a aumentar sua dependência.
Gráfico 2: Principais produtos importados da Rússia pela Ucrânia (2015)
$0,00
$500.000,00
$1.000.000,00
$1.500.000,00
$2.000.000,00
$2.500.000,00
$3.000.000,00
$3.500.000,00
$4.000.000,00
Import (US$ Thousand)
Fonte: (World Bank 2018). Elaboração própria.
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
35Alexandre Cesar Cunha Leite; Arthur Mastroiani Máximo de Lucena; Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
Segundo os dados expostos, entende-se que, estrategicamente, a Ucrânia é
um parceiro relevante para a Rússia, particularmente, no setor energético. Logo,
assume-se que perder o mercado ucraniano para a UE tenha consequências
negativas na sua balança comercial, indo contra a diretriz de política comercial
desenhada nas ações de PE russa. As medidas de PE por vias militares, adotadas
por Putin na Crimeia, evidenciam o interesse russo na Ucrânia em assuntos
considerados estratégicos.
Caso ocorresse o corte do fornecimento de gás natural, o impacto negativo
na economia ucraniana poderia criar cenário doméstico conflituoso, que traria
consequências para toda a população da região. Considerando que o repasse de gás
à UE é realizado por dutos, a recusa de Yanukovytch em diversificar a economia
ou em aceitar acordos com multinacionais de origem ocidental, inserindo maior
competitividade no mercado ucraniano e não ratificar os acordos energéticos com
a UE, intensificou, na Ucrânia, sentimento de indignação, fomentando um conflito
civil entre pró-russos e pró-ocidentais (Lewis, 2014).
Frente a guerra civil ucraniana, por causa da insatisfação da sociedade e a
necessidade de segurança do Estado ucraniano, a Federação Russa se insere no
conflito com o intuito de defender os ideais ucranianos tradicionais e, mais que
isso, os interesses russos no país. Putin despachou tropas para a Ucrânia a fim de
defender o ideal eslavófilo, apropriando-se desta posição de parte da sociedade
de forma pragmática, defendendo interesses políticos e econômicos russos. Os
EUA, em movimento reativo e amparados pela UE, enviaram tropas da OTAN
para o país, aumentando o risco de uma guerra internacional (Mielniczuk 2014;
Bandeira 2019).
Diante das pressões da sociedade em forma de manifestação intensificando-
se na Ucrânia, Yanukovytch deixou o governo em 2014, assumindo o opositor
Oleksander Turtchynov que, além de ser oposição, buscava promover maior
relação com a UE, resguardado pelo apoio dos pró-ocidentalistas. Esta posição
política gerou insatisfação. A Rússia compreendeu estas modificações do governo
como agravante político e classificou a variação governamental como golpe no
Estado ucraniano. Tal entendimento apoiava-se na tramitação parlamentar de um
norteador pró-UE e anti-Rússia (Mulder 2019) que caminhava para aprovação pelo
Parlamento da Ucrânia. Como resultado, novos confrontos aconteceram motivados
por interesses dos pró-russos (Mielniczuk 2014; Mulder 2019).
Enquanto isso, na península da Criméia, região sul da Ucrânia, ocorreu uma
movimentação social antiocidentalista. A região, composta majoritariamente
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
36 Invasão à Crimeia: influência ocidental na Ucrânia e retaliação Russa
por pró- russos e russos (em torno de 90% da população desta região), sofreu
intervenção russa que resultou na anexação da Criméia ao território russo. A
anexação não foi reconhecida pelo eixo Ocidental, mas positivamente avaliada
por Putin, que procedeu à assinatura formal de contrato de anexão da Crimeia.
Além da Criméia, a parte leste da Ucrânia, que também tem maioria pró-russa,
assentiu ao movimento separatista ucraniano, elevando a legitimidade de Putin
nesta investida (Mielniczuk 2014).
Em sua história, esta aproximação da população da Crimeia, assim como
do leste ucraniano, ocorre por questões sociais, culturais e do próprio vínculo
político secular que une os dois países. Apenas em 1950 os russos cederam o
território para a Ucrânia no contexto da Guerra Fria. Porém, a Crimeia pertencia
ao território russo desde o tempo do Império e era geopoliticamente estratégico
aos russos, dado o acesso direto para o mar negro (Mulder 2019; Segrillo 2012).
Os Estados Ocidentais declararam infração ao direito internacional e impuseram
sanções contra a FR, com o objetivo de forçar Putin a afastar suas tropas militares
da região, o que não ocorreu. Tanto Vladimir Putin como seu staff governamental
tinham ciência da situação de dependência tanto da Ucrânia quanto da UE dos
seus recursos energéticos (petróleo, gás natural e seus derivados), acreditando
que as sanções ao país não iriam perdurar (Dias 2015).
Para a Rússia, a intervenção na Criméia foi legítima pois, além das justificativas
acima, houve o apoio da população sobre a anexação. Desta forma, justificou-
se que a Criméia e a Rússia tivessem alicerce histórico e cultural semelhante e
unido, justificando a anexação da Criméia como parte do território da Rússia
(Mielniczuk 2014).
(Freire 2015) apresenta pontos explicativos no que concerne à ação da
Rússia na anexação da Crimeia: a) diplomacia utilizada de forma manipulada;
b) intervenção militar, sanções e embargos associados aos interesses russos; c)
utilização de política expansiva defensiva; d) procura de reconhecimento externo
como grande potência (porém, em formato diferente do que ocorreu com a
URSS, pois a Rússia compreende que o Sistema Internacional não é mais bipolar,
mas multipolar); e) poder global visto de forma dispersa no século XXI e mais
tendenciosa ao eixo Ásia-Pacífico (defesa do neoeurasianismo); e, f) utilização
do soft power russo para sustentação da opinião pública a seu favor.
Disto isto, entre julho de 2014 até o início de 2015, o novo presidente da Ucrânia
foi Petro Poroshenko, que tomou o poder após o curto momento de Turtchynov na
liderança da Ucrânia. Em comparativo com seu antecessor, Poroshenko apresentou-
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
37Alexandre Cesar Cunha Leite; Arthur Mastroiani Máximo de Lucena; Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
se mais centrado no trato com ambas as partes (pró-russos e pró-ocidentalistas),
apesar de defender um posicionamento contrário aos rebeldes que inflamaram o
conflito no país (Dias 2015). Autores como (Silva 2018; Haran e Burkovsky 2014,
Ferreira 2014, Kossovsky e Carley 2019) afirmam que Poroshenko é pró ocidentalista,
mas a depender da pauta em debate, apresenta-se como pró-russo. Contudo, não
se observou desligamento das relações ucranianas no governo de Poroshenko com
Putin, visto que, além da dependência comercial que o país possui, há grande
aderência dos rebeldes pró-russos à FR, o que acirrou a crise civil (Silva 2018;
Haran e Burkovsky 2014; Ferreira 2014; Kossovsky e Carley 2019).
No que concerne ao nacionalismo e à identidade nacional ucraniana, Poroshenko
afirmou ser nacionalista não reacionário (sendo contra os pró-russos neste sentido)
e que a língua oficial do país é o ucraniano. Porém, em seus discursos, proferidos
em ucraniano e em russo, Poroshenko defende o desenvolvimento das empresas
nacionais, indo contra a lógica capitalista liberal proposta pela UE (Silva 2018;
Haran e Burkovsky 2014; Ferreira 2014; Kossovsky e Carley 2019). Entende-se que
Poroshenko é um governante pragmático. Ferreira (2014 29) aponta que Petro
Poroshenko tem apenas um lado certo e imutável a defender, o seu.
No que concerne ao conflito na Ucrânia, podem-se averiguar saldos negativos
quando são considerados os dados de refugiados, feridos, mortandades e fragilidade
econômica em crescimento, assim como os problemas em questões energéticas. De
acordo com relatórios da (ONU 2014), os saldos negativos do conflito ultrapassaram
a casa dos milhares. De acordo com o relatório da (ONU 2014), verificou-se que
são mais de 2.600 pessoas mortas em conflito, tanto civis como soldados. Passados
dois meses, o número de mortos aumentou para 4.317 pessoas, ao mesmo tempo
em que o total de feridos alcançou 9.921 pessoas (ONU 2014).
Sobre os migrantes forçados, 466.829 pessoas estão desabrigadas na Ucrânia,
e outras 454.339 pessoas se encontram refugiada no exterior. Destes, 387.355
residentes na Rússia (Gráfico 3). Nestes dados constam os resultados sociais
do conflito ucraniano que podem ser vinculados a dois estágios do modelo de
Hermann explorados neste artigo: a postulação de uma conexão entre problema
e política e a implementação de nova política.
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
38 Invasão à Crimeia: influência ocidental na Ucrânia e retaliação Russa
Gráfico 3 — Conflito Ucraniano em 2014
1%
1%
41%
50%
7%
Mortos
Feridos
Desabrigados na Ucrânia
Refugiados no Exterior (diversos)
Refugiados na Rússia
Fonte: (ONU 2014). Elaboração própria.
No âmbito econômico, comparando os anos de 2010 a 2015, dentre os parceiros
comerciais da Ucrânia, sobressaem-se a UE e Rússia. A FR durante muitos anos foi o
principal parceiro comercial ucraniano, com destaque nas importações dos produtos
energéticos. Todavia, devido às sanções da UE/Ocidente e influência na Ucrânia,
especialmente a partir de 2013, a UE foi tomando lugar como o principal parceiro
comercial da Ucrânia em outros setores. Somado ao conflito civil que aconteceu
no país, envolvendo pró-russos e pró-ocidentais, bem como as sanções aplicadas
à Rússia desde então, verificou-se queda gradativa da participação da Rússia nos
proventos comercias no eixo Moscou-Kiev (Barata 2014; Mielniczuk 2014).
Expressando em números, a UE somou um terço das relações comerciais
ucranianas entre 2010 a 2012 e ultrapassou os russos entre 2013-2015, tornando-se o
principal parceiro em termos comerciais. Este fluxo comercial positivo envolvendo
Ucrânia e UE deu-se graças a isenções tarifárias estipuladas entre os dois atores.
A Rússia, devido ao conflito civil e sanções comerciais aplicadas pelo Ocidente,
perdeu espaço nas trocas comerciais com o passar dos anos, como se observa nos
gráficos 4 e 5, respectivamente (Barata 2014; WTO 2018).
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
39Alexandre Cesar Cunha Leite; Arthur Mastroiani Máximo de Lucena; Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
Gráfico 4 — Ucrânia: Comércio de Produtos Exportados
2010 2011 2012 2013 2014 2015
Federação Russa
$13.431.900$19.819.700 $17.631.700$15.077.300 $9.799.100 $4.827.700
União Europeia
$13.095.000$18.020.600 $17.121.700$16.761.600 $17.006.600$13.015.700
$0
$5.000.000
$10.000.000
$15.000.000
$20.000.000
$25.000.000
Em milhões US$
Fonte: (WTO 2018). Elaboração própria.
Gráfico 5 — Ucrânia: Comércio de Produtos Importados
2010 2011 2012 2013 2014 2015
Federação Russa
$13.431.900$19.819.700 $17.631.700$15.077.300 $9.799.100 $4.827.700
União Europeia
$13.095.000$18.020.600 $17.121.700$16.761.600 $17.006.600$13.015.700
$0
$5.000.000
$10.000.000
$15.000.000
$20.000.000
$25.000.000
Em milhões US$
Fonte: (WTO 2018). Elaboração própria.
Países do Leste Europeu tais como Polônia, República Tcheca, Lituânia e
Letônia, declararam apoio aos pró-ocidentais ucranianos. Todavia, Putin não
se encontrava isolado com relação ao seu posicionamento na Ucrânia/Crimeia.
Bielorrússia, Cazaquistão, Cuba, Venezuela, Nicarágua, Bolívia, Síria, Zimbábue,
Armênia, Coreia do Norte e Sudão apresentaram apoio à causa russa em diversos
momentos, como na própria guerra da Crimeia, em que houve um debate envolvendo
estes países na ONU. No caso da Ucrânia não foi diferente (Tronenko 2016).
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 29-55
40 Invasão à Crimeia: influência ocidental na Ucrânia e retaliação Russa
Quanto à dependência da Ucrânia pelos produtos advindos da Rússia, com
dados publicados pelo (World Bank 2015), observa-se expressiva dependência da
Ucrânia em produtos energéticos oriundos da Rússia
Associado ao modelo de Hermann, pelos estágios postulação de uma conexão
entre problema e política e a implementação de nova política, a queda dos
fluxos de comércio da Ucrânia com o ocidente e, consequentemente, a perda de
influência e de mercado para os russos está atrelada à relação de causa e efeito
que influenciou diretamente a adoção de uma política militar intervencionista na
Crimeia visando conter a expansão comercial do Ocidente no país.
Aplicando o Modelo de Hermann
Após a descrição do novo posicionamento da PE da Rússia sob o governo de
Vladimir Putin e, mais especificamente, a contextualização do conflito ucraniano,
assume-se o modelo de (Hermann 1990) para análise dos estágios da tomada
de decisão de PE que acarretaram a anexação da Crimeia. Como informado
na introdução, enfatizam-se duas características principais dentro da proposta
de (Hermann 1990): postulação de uma conexão entre problema e política e a
implementação de uma nova política.
Segundo este modelo, para que se compreendam as modificações no contexto
de política externa de um Estado é necessário verificar as alterações em quatro
características principais, com relação aos líderes, burocratas, reestruturação
doméstica e choques externos. (Hermann 1990) explica as quatro características,
que podem estar vinculadas ou não.
Na primeira característica, a alteração na política externa motivada pelos
líderes, argumenta que as mudanças feitas derivam do líder político, sendo este
o agente da tomada de decisão final (Hermann 1990).
A segunda característica enfatiza a alteração direcionada pela burocracia.
(Hermann 1990) concorda que, geralmente, ao se observar este vetor de mudança
não é a burocracia unificada de um Estado que adere às alterações da política
externa. Até porque, em sua gênese, as burocracias são resistentes às modificações.
Porém, pequena parcela desta pode trazer à tona a demanda de um novo norteador
político e, para isto, persegue parcerias e ajuda para pressionar o governo.
A terceira característica, a reestruturação doméstica, (Hermann 1990)
argumenta que um segmento importante da sociedade, normalmente segmentos
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41Alexandre Cesar Cunha Leite; Arthur Mastroiani Máximo de Lucena; Fábio Rodrigo Ferreira Nobre
da sociedade com alta influência nas camadas sociais, como as elites, por causa
do conhecimento da necessidade de governabilidade da nação, pressionam por
alterações na política externa com o intuito de conseguir interesses particulares.
A última característica, os choques externos, encerram um novo norteamento
de política externa de um país. Como essas variações externas exercem modificações
no cenário, no âmbito externo e na ordem estabelecida, elas podem afetar
diretamente o país, pela movimentação da sociedade, da agenda do governo e do
poder de decisão de um ou mais Estados, alterando consequentemente a estrutura
e como a política externa será aplicada (Hermann 1990).
As mudanças de governo ocorridas na Ucrânia desde o início da Crise em
2014 deriva em alterações significativas no que concerne ao posicionamento da
PE da Rússia com relação ao país, tendo seu ápice na anexação da Crimeia ao
seu território. Na visão do direito internacional, formalmente houve uma infração
à soberania estatal ucraniana e, mesmo a pressão ocidental para barrar esta PE
russa na Crimeia não foi suficiente para que Putin mudasse seu posicionamento.
Este evento acarretou mudança na tomada de decisão de Putin quanto à Ucrânia
(Mielniczuk 2014). Segundo (Hermann 1990), para que uma alteração importante
aconteça na política externa de um Estado é necessário que exista uma reformulação
dos posicionamentos entre os tomadores de decisão.
No caso da Rússia, estas características são maleáveis, uma vez que o executivo
é quem comanda todos os segmentos burocráticos do Estado. É onde se observa
a ação doméstica pragmática de Putin, que comanda as diretrizes de política
externa do país. Existindo a necessidade de mudança desta política, mesmo que
de maneira radicalizada, ele pode realizá-la sem que a burocracia doméstica russa
o impeça. Esta característica, que (Segrillo 2012) ressalta como Estado forte e
centralizador, permite que a FR, via Putin, manuseie livremente suas decisões
sem intervenções domésticas. Todavia, é importante destacar que este controle
doméstico, ainda que alto, advém do pragmatismo do governo Putin em conter as
resistências internas frente às mudanças políticas, visto que na Rússia formalmente
existe um sistema democrático eleitoral e Putin precisa de apoio dos que detêm
poder no país para continuar governando. Simultaneamente, os países Ocidentais
classificam a Rússia como um dos países menos democráticos, de acordo com os
dados da Freedom House (Hermann 1990; Segrillo 2012).
Historicamente, o processo político russo passou pelo absolutismo, pela
monarquia constitucional, em 1917 pela democracia experimental, pelo autoritarismo
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(quando vigia a URSS) e atualmente tenta inserir a democracia de fato (governos
de Yeltsin e Putin, anos 1990 e início do século XXI). A democracia na Rússia
sofreu muita resistência da sociedade, já que a gosudartstvennost (Estado forte
e centralizador) era mais aceita pela maioria da população russa, segundo
(Segrillo 2012).
Tabela 1 — Classificação da Federação Russa como democracia segundo a Freedom House
Ano 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993
Classificação 7;7;NL 7;7;NL 7:6;NL 6;5;NL 6;5;NL 5;4;PL 3;3;PL 3;4;PL 3;4;Pl
Ano 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002
Classificação 3;4;PL 3;4;PL 3;4;PL 3;4;PL 4;4:PL 4;5;PL 5;5;PL 5;5;PL 5;5;PL
Ano 2001 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
Classificação 5;5;PL 6;5;NL 6;5;NL 6;5;NL 6;5;NL 6;5;NL 6;5;NL 6;5;NL
Legenda: Mensuração de 1 a 7 com grau de liberdade política, 1 com o melhor escore e 7 o pior. “L”, “PL” e “NL”
são, respectivamente, “Livres”, “Parcialmente Livres” e Não Livres”.
Fonte: (Segrillo 2012). Elaboração própria.
A Freedom House classifica de 1 a 7 (quanto mais próximo de 1 seria um
quadro positivo, mais próximo de 7 o oposto) o grau de liberdade política, de
acordo com os direitos políticos e a liberdade da sociedade proporcionados pelo
governo. A partir deste resultado, a Freedom House mensura o nível de liberdade
considerando três grupos: a) Livres (L), com média entre 1,0 e 2,5; b) Parcialmente
Livres (PL), com média entre 3,0 e 5,5; e c) Não Livres (NL), com médias 5,5
a 7,0. Entre os anos de 1985 e 1990, segundo a Freedom House, a Rússia teve
um grau elevado de restrição de liberdade por conta do Regime adotado durante
a URSS, enquanto que no início dos anos 1990 em diante, o indicador variou
devido ao regime democrático instaurado no país (Segrillo 2012). Esses dados
são mostrados na tabela 1.
Em comparativo com a Freedom House, o banco de dados da ONG
Levada Center traz informações relevantes a serem consideradas: a) o nível
de satisfação da sociedade com as medidas que Putin toma em suas políticas;
b) a satisfação do governo; e c) a aprovação da atitude do governo ante a UE
(gráficos 6, 7 e 8).
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Gráfico 6: Classificação de aprovação de Putin no poder
Fonte: Levada Center, tradução livre (2019).
Gráfico 7: Aprovação do Governo
Fonte: Levada Center, tradução livre (2019)
Gráfico 8: Aprovação da atitude do governo ante União Europeia
Fonte: Levada Center, tradução livre (2019)
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Os três gráficos da página anteior, tomados em conjunto, apresentam visões
diferenciadas de aprovação, dependendo do tema abordado. No gráfico de “Classi-
ficação de aprovação de Putin no poder”, percebe-se o quanto o governante possui
legitimidade no governo com aceitação popular alta, mesmo com o passar dos anos.
No período pós 2013/2014, mesmo com a crise ucraniana, há positiva aceitação de
Putin no poder, que ele se eleva quando comparada ao período 2010-2012.
No gráfico 7, “Aprovação do Governo”, percebe-se uma queda de aceitação
sobre as medidas de governo adotadas. Mesmo que exista alta aderência da socie-
dade russa com relação à figura de Putin, as ações adotadas pelo governo, como
militarização de fronteiras ucranianas e até a anexação da Crimeia posteriormente
dividiu a sociedade neste quesito. No gráfico XX, “Aprovação da atitude do governo
ante a União Europeia”, observa-se desaprovação após 2013. Entende-se que as
sanções internacionais, ao impactar a economia, afetando a inflação, aumentaram
o descontentamento quanto ao governo.
Os gráficos 6, 7 e 8, associados ao modelo de (Hermann 1990) considerando aos
estágios postulação de uma conexão entre problema e política e a implementação
de uma nova política, apresentam o vínculo de aceitação ou não do posicionamento
político russo perante à Ucrânia, alterando quando a variável observada seja Putin
como atuação executiva. Observa-se que há reprovação da atuação do governo na
UE, simultaneamente a opinião social, contudo, Putin tem apoio popular como
líder político no que concerne a política externa e a ação na Crimeia.
Segundo (Hermann 1990), o processo de tomada de decisão para mudança
da política externa não tem caráter linear. Em situações que envolvem grandes
questões, a tomada de decisão de um país está atrelada a ciclos e rompimentos e
não em um ordenamento sistematizado em que um estágio acontece somente após
a finalização do anterior. Os resultados não serão obtidos de forma regular. Diante
disto, o autor ressalta sete características principais que compõem os estágios da
tomada de decisão: 1) expectativas políticas iniciais; 2) ator externo/estímulos
ambientais; 3) reconhecimento de informações discrepantes; 4) postulação de
uma conexão entre problema e política; 5) desenvolvimento de alternativas;
6) construir consenso autoritário para escolha; 7) implementação de Nova Política.
Para o estágio expectativas políticas iniciais, o autor enfatiza que estas
expectativas sobre as quais as decisões políticas são constituídas formam padrões
que podem ser analisados pelo seu sucesso ou fracasso. Aplicado ao caso russo,
as expectativas russas não se alteraram ao longo do processo de mudança de
governantes ucranianos, assim como ao aumento de contratos comerciais ocidentais