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Criando a realidade através da narrativa:
análise comparada das notícias sobre migração
veiculadas por UN News e CNN
Creating reality through narrative: a comparative
analysis of migration news from UN News and CNN
DOI: 10.21530/ci.v15n1.2020.935
Natália Diniz Schwether
1
Gabriela Santos Nascimento
2
Resumo
Este artigo compara notícias veiculadas pela UN News, portal da ONU, e pelo jornal
eletrônico CNN
3
. Emprega-se a técnica de análise de conteúdo, com o intuito de identificar
diferentes abordagens sobre a temática das migrações, restritas ao segundo semestre de 2018.
A hipótese de pesquisa é que, em geral, a UN News adota em suas abordagens uma postura
mais humanitária que a CNN, em consonância com os valores expressos desde a fundação da
Organização. A perspectiva teórica construtivista fornece suporte à pesquisa, ao considerar que
a realidade é uma construção social influenciada por diversos atores (entre eles a mídia), assim
como a sociologia da comunicação, a qual retrata a construção da notícia como um processo
influenciado por uma série de práticas, procedimentos e discursos. O estudo se justifica em
virtude da capacidade que as notícias possuem de influenciar a opinião pública e, até mesmo,
alterar processos políticos. Dentre os principais achados destaca-se a preferência da CNN
por abordar o tema com ênfase para os aspectos de segurança e econômicos, enquanto na
UN News observa-se uma maior recorrência de categorias associadas aos direitos humanos.
Palavras-chave: Mídia; Migrações; Análise de Conteúdo.
1 Pós-Doutoranda em Ciência Militares na Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME). Doutora
em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com período de estágio doutoral no
Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC), e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8022-237X; email: natidiniz@gmail.com
2 Graduada em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). ORCID: https://orcid.org/0000-
0002-6442-7383; email: gabiisnascimento@hotmail.com
3 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
— Brasil (CAPES) — Código de Financiamento 001.
Artigo submetido em 08/04/2019 e aprovado em 05/11/2019.
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Abstract
This article foments a comparison between the news published by UN News, UN portal, and
the electronic newspaper CNN. The technique of content analysis is used in order to identify
the different approaches regarding the migration theme, restricted to the second half of
2018. The research hypothesis is that UN News adopts in its approaches, in general, a more
humanitarian stance than CNN, in line with the values expressed since the Organization’s
foundation. The constructivist theoretical perspective provides support for this research,
considering that reality is a social construction influenced by several actors (among them
the media), as well as the sociology of communication, which portrays the construction of
news as a process influenced by a series of practices, procedures and speeches. The study is
justified by the ability of news to influence public opinion and even change political processes.
Among the main findings, the CNN’s preference for addressing the issue emphasizing
security and economic aspects stands out, while in UN NEWS there is a greater recurrence
of categories associated with human rights.
Keywords: Media; Migration; Content Analysis.
Introdução
Desde sua primeira aparição nas relações internacionais no texto de Onuf
(1989), seguida por sua estruturação como perspectiva teórica no trabalho de
Wendt (1992), o construtivismo inovou ao apresentar a concepção de que a
realidade social é construída a partir das ações e interações humanas, em constante
transformação. De acordo com essa corrente, o meio internacional é composto
por diversos atores, entre eles a mídia.
A mídia, ao integrar o mundo social, exerce importante papel na construção
das identidades e interesses, sendo instrumento da ação política e de poder.
Outrossim, ela possui múltiplas atuações, ao passo que responde aos interesses do
mercado e é o principal meio de divulgação das ações estatais e de organizações
internacionais (Garrido 2014). Nesse sentido, o acesso a informação e o domínio
sobre os conteúdos divulgados, são, cada vez mais, valiosos recursos de poder
(Nye 2004).
Cientes de que as notícias são fatos sociais categorizados (Vizeu 2003), ou
seja, não correspondem a relatos puros da realidade, uma vez que nelas incorrem
experiências pessoais, impressões e percepções dos jornalistas, para além das
diretrizes e valores que norteiam o veículo de mídia responsável por sua divulgação
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(Pereira Jr e Rocha 2011) e, que nenhum fato possui significado antes que o mesmo
seja atribuído. Os meios de comunicação são, então, responsáveis pela construção
da imagem internacional dos Estados, bem como participam ativamente dos
processos de tomada de decisão internos (Nogueira 2012, Jesus 2015).
Tendo em vista os achados da literatura, o presente estudo avança com o
intuito de observar empiricamente a atuação da mídia como criadora da realidade
e influenciadora na tomada de decisões. Para tanto, elege-se, de um lado, a
Organização das Nações Unidas (ONU), a qual desde sua criação, em 1945, pela
Carta das Nações Unidas, possui grande notoriedade internacional, ao tratar tanto
de temas ligados à paz mundial, direitos humanos, como questões econômicas,
sociais e culturais. E, de outro, nomeia-se a rede de notícias CNN, pioneira na
transmissão por satélite e uma das principais importadoras de notícias para diversos
jornais ao redor do globo. Embora, a rede já tenha recebido críticas por sua atuação
propagandista dos interesses dos Estados Unidos, ainda assim permanece sendo
um gigante conglomerado de mídia com alcance mundial (Souza 2005).
Em razão da variedade de funções atribuídas à ONU, a análise aqui proposta
se restringe ao setor de Informação Pública, que corresponde à central de notícias
da UN News. Igualmente, o estudo está integralmente lastreado nos princípios e
valores expressos desde a fundação da Organização, a exemplo da preservação
das gerações futuras das mazelas da guerra, a fé nos direitos fundamentais do
homem, na igualdade de direitos de homens e mulheres e no direito internacional.
De tal forma questiona-se: a UN News possui um viés mais humanitário em seu
discurso, quando comparada a outros meios de informação?
Portanto, supõe-se que, ao comparar os termos utilizados na redação das
notícias veiculadas pela UN News aos empregados pelos veículos de mídia
tradicional, encontrar-se-á, em geral, uma abordagem mais atenta à condição e ao
bem-estar do ser humano. A fim de testar a hipótese planteada, o estudo empregou
a técnica de análise de conteúdo, conforme as etapas definidas por Bardin (2016).
Primeiramente, procedeu-se uma pré análise, com a leitura dos textos e a
seleção do corpus. Com o intuito de tornar o estudo contemporâneo e as matérias
passíveis de comparação, elegeu-se a temática das migrações e delimitou-se o
período de 13 de junho (UN News) e 4 de julho (CNN) até 21 (CNN) e 30 de
novembro (UN News) de 2018. Em seguida, passou-se ao tratamento dos dados e
criação de códigos, o que permitiu a categorização e análise comparativa. Nuvens
de palavras e a exposição de tabelas de frequência permitiram melhor visualização
dos achados, dentre os quais destacam-se a preferência da CNN por abordar o
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tema com ênfase nos aspectos de segurança e econômicos, enquanto na UN News
houve maior recorrência de categorias associadas aos direitos humanos, o que
corrobora a expectativa inicial.
Contudo, salienta-se de antemão que esse achado não permite afirmar que as
notícias veiculadas pela CNN não se preocupam com os aspectos humanitários,
mas sim que os termos relacionados aos direitos humanos aparecem com menor
frequência. Outrossim, frisa-se que no conjunto de matérias avaliadas estão
entrevistas, as quais não necessariamente correspondem às opiniões oficiais do
meio de comunicação.
Destarte, após essa introdução, o artigo segue com uma seção dedicada à
revisão de literatura pertinente à área, a qual expõe os principais argumentos
da corrente construtivista e a agência da mídia nas relações internacionais.
Logo após, a segunda seção apresenta o objeto de estudo, a princípio com uma
contextualização e evolução histórica dos meios de comunicação, para, no
subtópico seguinte, definir os dois veículos selecionados para teste da hipótese.
Em seguida, é apresentada a estratégia empírica, para, então, expor visualmente
e criticamente os resultados e encerrar com uma breve conclusão.
Revisão de Literatura
Na concepção de Adler (1999), expoente da corrente construtivista, a ação e
a interação humanas formam o mundo material enquanto simultaneamente são
formadas por ele. O conhecimento normativo coletivo é o responsável por ditar
o significado e a interpretação que os indivíduos têm sobre a realidade, além de
servir como guia para as ações, individuais e coletivas. Tudo que hoje significa
alguma coisa passou pela criação normativa do significado.
De acordo com Jackson e Sorensen (2018), tendo em vista que a realidade
não é objetiva e nem externa ao observador, o sistema internacional não se
forma sozinho, ele é uma construção do intelecto social. O sistema internacional,
tampouco é materialmente identificável, ele é idealizado e normatizado por
indivíduos específicos. Dessa forma, o mundo social não pode ser considerado
separadamente da consciência humana.
Wendt (1992) foi um dos primeiros autores a propor que o sistema internacional
é formado por ideias. Para esse autor, a identidade e o interesse dos agentes é
mutável e não exógeno, como sugeriam as escolas tradicionais. Já a anarquia
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não é previamente estabelecida, mas faz parte de um processo que privilegia
interesses específicos. Afirma, ainda, que mudança na identidade gera mudança
de comportamento nos agentes e, consequentemente, na própria estrutura do
sistema.
Sendo assim, a realidade não é estática e imutável, mas, sim, construída por
agentes. Todos são protagonistas e as ações geram resultados, as quais movimentam
o mundo. Kratochwil e Risse (1997) afirmam que o mundo é uma construção social.
E, para além da ausência de precedência ontológica entre agente e estrutura, eles
são simultaneamente criaturas e criadores. Embora exista um mundo material,
ele só faz sentido quando lhe é atribuído valor, através de ideias e interpretações
(Nogueira e Messari 2005).
Para Kratochwil e Risse (1997) uma das maiores problemáticas a ser enfrentada
pelo construtivismo é a metodológica, no que concerne à correspondência entre
o mundo físico e o conhecimento construído sobre ele. Os autores defendem que
é comum entre os construtivistas a ideia da intersubjetividade da linguagem, o
compartilhamento de discursos, significados e valores.
Nesse ponto, originam-se algumas divergências em virtude da distinta
importância atribuída à virada linguística
4
. Construtivistas como Onuf (1989),
Fierke e Jorgensen (2001) acreditam, por exemplo, que a linguagem é fundamental
para a compreensão dos significados; em especial, as regras organizadoras do
discurso são cruciais para a interpretação dos eventos sociais.
O construtivismo dos modernistas-linguistas, também conhecidos como
ruleoriented constructivism”, resulta da combinação entre uma hermenêutica
subjetiva e um interesse cognitivo por explicar e entender a realidade internacional.
Esses construtivistas defendem que a compreensão das relações internacionais
só pode ser feita ao se considerarem as normas e linguagens que constituem os
fatos sociais (Camargo 2009, 24).
O discurso não é apenas um instrumento, mas a própria ação política. Em
1989, Kratochwil identifica no discurso as regras que nos permitem assimilar a
realidade. De acordo com o autor, quando se compreendem as regras que guiam
o discurso, compreendem-se também as regras que guiam a realidade, pois o
4 O movimento está centrado na relação entre linguagem e realidade. Rompe com a ideia de que a linguagem é
apenas uma representação da realidade, material ou ideacional. A linguagem seria um instrumento de ação e
compreensão (Gomes 2011). Nas relações internacionais Onuf é o grande precursor desse pensamento (Nogueira
e Messari 2005).
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mundo é o resultado dos discursos. Assim, a linguagem é utilizada para descrever
o mundo que guiará o entendimento da realidade (Nogueira e Messari 2005).
Em outras palavras, o construtivismo é um conjunto de lentes paradigmáticas
através das quais observamos todas as realidades socialmente construídas — as
“boas” e as “más” (Adler 1999, 224). Nesse contexto, o poder retratado seria
o institucional, aquele responsável por incluir ou excluir, legitimar e autorizar
(Williams 1996). Para esse tipo de poder é crucial garantir a legitimidade do ator
como definidor de significados compartilhados, pois eles formam não só suas
identidades, mas também seus interesses e práticas.
Sendo a realidade social construída pela imposição de significados e pela
atribuição de funções para acontecimentos e materiais, a competência de definir
as regras do jogo é essencial, no sentido de fazer com que os outros atores não
apenas aceitem, mas concordem e se comprometam com as regras. Torná-las
parte de sua auto compreensão pode ser considerada a forma mais sutil e efetiva
de exercer poder (Adler e Barnett 1996, Williams 1996).
No que tange ao conceito de poder, a diversidade de definições faz com que
este estudo adote a abordagem realizada por Nye (2014). Para o autor, o poder
consiste na habilidade de afetar seus pares e conseguir o que se almeja. O resultado
de interesse pode ser alcançado via: coerção, pagamentos ou a capacidade de
atração.
Nye (1990) relata, ainda, que o poder tradicionalmente voltado para a força
militar, hard power, ao longo do tempo, tem perdido seu protagonismo no cenário
internacional. Mesmo sendo o recurso de autodefesa mais importante, sua utilização
é cada vez mais custosa. A opinião pública melhor informada e os incrementos
nas áreas de tecnologia, educação e economia, fazem com que a utilização de
instrumentos como a comunicação sejam preferíveis (Nye 1990, 154-157).
Atualmente, é evidente a eficácia da mídia na disseminação de discursos.
O uso dessa ferramenta permite que os Estados propaguem seus modelos culturais,
que auxiliam na manutenção do status quo político, social e econômico. Afinal, “o
setor de comunicação tem uma singularidade que condiciona seu funcionamento.
Por um lado, serve o seu próprio mercado das comunicações e, por outro fornece o
canal através do qual outros agentes podem se comunicar com o público” (Garrido
2014, 109, tradução nossa). Essa transmissão pode alcançar a arena internacional
e, quando universalizados, esses modelos culturais conferem poder e importância
ao Estado que os encorajar (Garrido 2014).
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Os Estados e as Organizações utilizam a mídia para disseminar modelos.
Tendo como alicerce expressões culturais já existentes, como, por exemplo, a
defesa dos direitos humanos, a reinvindicação de igualdade ou a defesa do meio
ambiente, influenciam a opinião pública, influem e cerceiam comportamentos
(Garrido 2014).
O conceito de poder, ao longo do tempo, desloca o seu foco do capital para a
informação. Com o crescente número de informações disponíveis, a capacidade
de obtê-las de forma exclusiva e em “primeira mão” é de suma importância.
A economia baseada em informações empodera as habilidades organizacionais e
flexibiliza as capacidades, indo além das matérias-primas (Nye 1990, 166).
No cenário internacional as fontes desse poder seriam a cultura, os valores
e as políticas internacionais. Nesse contexto, um Estado está mais habilitado a
conquistar seus interesses quando os demais países desejam seguir seu exemplo
e o admiram. Nye (2014) cunhou essa via de poder como soft power. De acordo
com o autor, o aumento do soft power na era da informação faz com que tenham
mais poder países com múltiplos canais de comunicação, valores culturais em
sintonia com os universais e credibilidade quanto às suas políticas domésticas
e externas (Nye 2004). Contudo, esse poder não é monopólio estatal, tampouco
sua exclusividade.
Nesse sentido, a diversificação das formas de atuação do Estado demonstra
ser a estratégia mais eficaz em um cenário internacional complexo. A utilização
de um único tipo de poder, seja ele hard ou soft, é ineficiente e incompleta (Pinto
e Freitas 2012). Dessa maneira, agir com inteligência significa saber dosar os
elementos de poder conforme as necessidades. Uma política baseada apenas na
coerção pode funcionar, mas o custo normalmente é alto demais. Já, uma política
que se concentra apenas em estabelecer vínculos e empatias não se sustenta
diante de elementos práticos. Uma combinação das duas é, efetivamente, mais
proveitosa (Bertonha 2009).
O diálogo entre o Construtivismo e a Comunicação
Em face da relevância que a comunicação possui para os Estados e organizações
internacionais, esse subtópico explora com maior profundidade o processo de
construção da notícia. Conforme o paradigma construtivista, presente também
na comunicação, a notícia é uma narrativa construída por diversos fatores.
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Contrariando pressupostos de que a realidade é relatada por meio de um transmissor
desinteressado, esse paradigma aponta para a interferência do jornalista, sendo
a notícia uma construção social e o jornalista o ente responsável por criar
acontecimentos sociais (Traquina 2004, Gadini 2007).
Os meios de comunicação são, antes de tudo, formados por pessoas, logo, o
jornalista, ao transmitir uma notícia, possui valores e visões de mundo carregadas
de vieses (Nogueira 2014) advindos de experiências e conhecimentos prévios, os
quais direcionam seu olhar para fatos específicos e proporcionam determinada
interpretação dos mesmos. Para Bourdieu (1995, 25), os jornalistas selecionam e
enquadram as realidades do cotidiano em função de categorias que são reflexo de
sua educação, história, cultura, entre outros. “Os jornalistas têm óculos especiais, a
partir dos quais, veem certas coisas e não outras. [...] Há uma seleção e construção
do que é selecionado” (Pereira Jr e Rocha 2011, 750).
Nessa mesma esteira de pensamento, Vizeu (2003) afirma que os jornalistas
categorizam cada acontecimento de acordo com uma escala de importância. Nesse
processo de classificação consciente dos fatos, o jornalista escolhe dentre uma
abundância de acontecimentos apenas alguns para destacar, por acreditar que
sejam mais noticiáveis. Dessa forma, o jornalismo utiliza, para além da experiência
pessoal do jornalista, o grau de noticiabilidade para definir quais acontecimentos
são importantes (Pereira Jr e Rocha 2011)
5
.
Logo, a construção da notícia não é apenas o relato de um fato. Isto porque o
jornalista está sujeito a várias normas profissionais, sociais, linguísticas, as quais
acarretam práticas, procedimentos e discursos presentes no trabalho diário, tais
como: a cultura profissional, a organização do trabalho, os processos produtivos,
os códigos particulares, as regras de redação, o idioma e as regras de linguagem
(Vizeu 2003).
Todas essas etapas fazem com que o jornalista confira ênfase particular
aos acontecimentos, o que não significa dizer que as notícias se tornem ficções
ao passo que se mantém um compromisso ético com o público, que orienta a
constante busca pela veracidade e a verificação das fontes e dos fatos (Pereira
Jr e Rocha 2011). Entretanto, a notícia está inserida na realidade social moldada
pelas ações e interesses dos atores, e os fatos escolhidos para serem noticiados,
embora verídicos, carregam vieses.
5 De acordo com Charaudeau (2006, 102-103 apud Nogueira 2014, 12) a informação é selecionada em decorrência
do seu potencial de atualidade, socialidade e imprevisibilidade.
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112 Criando a realidade através da narrativa: análise comparada das notícias sobre migração [...]
Tendo em vista que a notícia é um produto, interessa a quem a produz
chamar a atenção do seu consumidor, razão pela qual uma mesma notícia pode
receber distintos enfoques. O jornalista, ao escolher utilizar palavras e significados
específicos, incita a sociedade de diferentes formas e causa reações as mais
variadas, previstas e imprevistas.
Destarte, em uma realidade social em constante construção, nenhum fato
possui total significado até que a ele seja atribuído. As notícias são, assim,
importantes ferramentas para interpretação do mundo. Os fenômenos cotidianos
são processos incompletos que deixam em aberto seus significados. A construção
desses significados se dá na apropriação de suas relações com o mundo, de acordo
com o que experienciamos dele e de como se apresentam as situações da vida
cotidiana (Gadini 2007).
Mesmo que a adoção de um significado aconteça por meio de relação subjetiva
entre o jornalista e os fatos, essa criação, assim como a realidade, permanece em
construção. Em outras palavras, não se trata de um círculo fechado — notícia e
jornalista — o leitor é, também, parte ativa desse constructo, podendo ressignificar
episódios, bem como complementar aqueles atribuídos (Gadini 2007).
Contextualização
Em 1450 a veiculação de informações à população de forma sistêmica e
organizada foi originalmente estabelecida com a criação da prensa, possibilitando
a venda diária de jornais. Prontamente, os jornais impressos se tornaram um
negócio lucrativo, dado o interesse de comerciantes em anúncios publicitários que
eram, na maioria das vezes, mais rentáveis que a própria venda dos exemplares
(Defleur e Bale-Rokeach 1989).
A partir da década de 1920, os meios de comunicação de massa se difundiram
com as telecomunicações e a era do rádio. As transmissões eram extremamente
populares devido à grande variedade de programas e, assim como o jornal, o rádio
se tornou lucrativo devido a indústria publicitária (Defleur e Bale-Rokeach 1989).
O avanço da tecnologia fez com que, em 1960, a televisão se convertesse na
principal fonte de informação. Já na década de 1990, foi desenvolvido o world
wide web (WWW) como meio de comunicação interpessoal, sendo a sua maior
revolução a possibilidade de comunicação bilateral (Monteiro 2001).
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2020, p. 104-136
113Natália Diniz Schwether; Gabriela Santos Nascimento
Todos esses meios compõem, hoje, a mídia de massas
6
, e foram os responsáveis
por universalizar o acesso a informação, atingindo a maioria da população.
Por essa razão, exercem grande influência na formação de opiniões, ao passo
que constroem aquilo que se acredita por realidade, além de propagarem uma
identidade social.
Na atual era digital, difunde-se grande quantidade de informações instantâneas,
interativas e criadas por diversos autores. O monopólio da informação foi rompido
por uma rede mais integrada. Nela o expectador deixa de ser passivo para ser um
agente da notícia. “Por permitir a difusão democrática da informação, a Internet
cria uma nova categoria de usuário, consumidor e emissor da informação, livre
para escolher o tipo de mensagem a qual quer ter acesso e que deseja ele mesmo
veicular” (Rodella 2005, 43).
No entanto, desde sua idealização, a mídia sofre contradição inerente: é
simultaneamente uma instituição pública e privada. O papel de guardiã do interesse
público, livre propagadora de informações e promotora do debate público é
paralelo aos interesses empresariais (Gomes 2007, 12 apud Fraga 2013, 33). Dado
o fato de ser composta por empresas que dependem de lucro ou são concessões
estatais, resta claro que a mídia não é totalmente imparcial e livre de influência
(Fraga 2013).
Conquanto o surgimento da mídia privada, os Estados não perderam sua
capacidade de influenciar o público. Ao contrário, eles aproveitaram o poder de
indução que os meios de comunicação possuem para atuar em mais uma arena
de poder, desenvolvendo relações que os favorecem. Por meio de parcerias os
Estados divulgam informações que os beneficiam, interna e externamente, fazendo
com que seus assuntos de interesse sejam relevantes, também, para a sociedade
(Burity 2013).
Em sociedades democráticas, os meios de comunicação constituem um espaço
público que permite aos cidadãos discutir e formar opinião sobre a realidade
social. Uma arena de debate, na qual se permite ao leitor concordar ou discordar,
e utilizar as informações disponíveis para construir seus argumentos. O jornal é
um fórum no qual se escutam todas as vozes públicas, e se expressa a sua própria
voz (Gadini 2007).
6 O termo ‘mídia de massas’ faz referência aos meios de comunicação que operam em grande escala, atingindo
quase todos os membros de uma sociedade em maior ou menor grau (Mcquail 2003, 18).
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114 Criando a realidade através da narrativa: análise comparada das notícias sobre migração [...]
Igualmente, a mídia atua na definição das agendas governamentais como
apoiadora, gerando consensos, e como entrave, diminuindo ou extinguindo opções
válidas e produzindo custos. Frequentemente, ela acelera a tomada de decisão
sobre temas recorrentes em suas manchetes (Jesus 2015).
A mídia é capaz de influenciar, também, as ações externas dos países, sendo
importante recurso da diplomacia na disseminação de ideais e imagens sobre
países ou sociedades. Nesse sentido, seu uso é oportuno quando se deseja:
influenciar a opinião pública em sociedades estrangeiras; ser um meio de
comunicação entre atores externos e promover a resolução de conflitos; mediar
negociações internacionais, estimulando a reflexão crítica das partes em disputa
(Jesus 2015).
Outrossim, uma cobertura midiática está apta a atribuir status a temas,
instituições e movimentos sociais, fazendo com que suas pautas se tornem
relevantes aos olhos do público. Sua cobertura pode servir como reforço positivo
da autoridade e do prestígio desses grupos, como também pode deslegitimar sua
causa (Jesus 2015). Isto é a mídia produz verdades e molda a opinião pública
(Nogueira 2014).
O discurso midiático é, portanto, hegemônico em sua credibilidade e no poder
e intensidade com que atinge os indivíduos (Araujo 2012). É inquestionável o
potencial da mídia como uma ferramenta para os atores estatais e não estatais
na conquista do apoio da opinião pública. Na esfera internacional a cobertura da
mídia relata o cenário internacional, ao mesmo tempo em que atribui importância
para os fatos, organizações e contextos.
UN News
A comunicação da ONU sofreu diversas mudanças ao longo de sua trajetória,
acompanhando os avanços da tecnologia — das notas de imprensa para os jornais,
a uma estação de rádio até as redes sociais e seu portal de notícias. A UN News
conta, hoje, com vários jornalistas trabalhando para noticiar os acontecimentos
em diversos países, línguas e tópicos de interesse (UN News 2018).
Em virtude da grande abrangência de temas abordados, que tratam, além
de questões relativas à paz e direitos humanos, também questões econômicas,
sociais e culturais, a instituição precisou se setorizar e criou o Departamento de
Informação Pública, responsável por comunicar, informar e difundir conhecimento.
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115Natália Diniz Schwether; Gabriela Santos Nascimento
O Departamento possui três divisões: Divisão de Comunicação Estratégica,
responsável por formular a estratégia de comunicação para questões prioritárias
e o lançamento de campanhas globais; Divisão de Notícias e Mídia, com a função
de produção e publicação de notícias sobre o trabalho da ONU e estabelecimento
de parcerias com outros meios de comunicação; Divisão de Divulgação voltada
para divulgação de conhecimento, ideais e atividades exercidas pela ONU.
A Divisão de Notícias e Mídia cumpre sua tarefa por meio de uma seção
de notícias e a produção de vídeos. No que tange às notícias, o principal portal
utilizado é o UN News, que publica, além de manchetes atualizadas sobre
acontecimentos recentes, seções temáticas como: direitos humanos, gênero, clima,
entre outros. Inclui, também, discursos do Secretário Geral, serviços de alerta, RSS
feeds, entrevistas e fotojornalismo. Diária e semanalmente são produzidos boletins
informativos em áudio em oito idiomas, bem como realizadas transmissões ao
vivo de eventos (UN News 2018).
O propósito do portal UN News é ser porta de entrada para o mundo das
Nações Unidas e acesso rápido às notícias e conteúdos especiais sobre os temas
em foco na Organização. A partir de uma plataforma multimídia são feitas
denúncias de situações de conflito, monitoramento de missões de paz e emitidos
posicionamentos a respeito da conduta dos países membros em diversas situações.
Cable News Network (CNN)
Revolucionária na comunicação, a empresa CNN foi pioneira no ramo das
telecomunicações via satélite e em transmissões ao vivo. O canal alcançou
reconhecimento e audiência mundial, unindo-se a várias emissoras de diferentes
países. Inaugurada em 1980, em Atlanta, foi o primeiro canal de televisão a veicular
exclusivamente notícias por 24 horas. É uma rede midiática global e serve como
modelo para diversos canais semelhantes (Souza 2005).
A CNN fez cobertura de fatos históricos e foi a primeira emissora a noticiar
os ataques às Torres Gêmeas, em de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.
Sua cobertura da Guerra do Golfo foi considerada eficiente e pouco parcial.
Porém, na Guerra do Iraque o viés nacionalista, até então pouco evidente, gerou
críticas e acusações. O caráter propagandista da cobertura, que se dedicava quase
exclusivamente a veicular imagens patriotas, foi revelado com o surgimento de
canais árabes, que exibiram outra face do conflito (Souza 2005).
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A despeito das controvérsias, o canal é um dos maiores fornecedores de
conteúdo da mídia mundial. A empresa, que iniciou como um canal de televisão,
hoje faz parte de um dos maiores grupos de mídia, incluindo as empresas América
Online, Time, Inc., New Line Cinema, Warner Bros., entre outras. Sua influência
chega a diversas áreas, uma vez que, para além de produzir suas próprias notícias,
fornece imagens e matérias para outros meios em todo o globo.
Estratégia Empírica
A análise de dados, sejam esses textos e/ou imagens, busca, através de
uma série de procedimentos específicos, extrair um sentido àquele conjunto de
informações (Creswell 2007, apud Mozzato e Grzybovski 2011). A análise de
conteúdo, inicialmente criada com intuito de realizar descrições por meio do cálculo
de frequências, contou com a posterior incorporação da análise qualitativa, que
possibilitou compreender as características, estruturas e modelos (Câmara 2013).
Bardin (2016) define a análise de conteúdo como uma série de técnicas
complementares, que buscam sistematizar e explicar o conteúdo de mensagens.
A finalidade dessa abordagem é uma dedução lógica sobre a mensagem, sempre
considerando o emissor, o contexto e os efeitos dela. De forma complementar,
Minayo (2001) entende a análise de conteúdo como investigação do comportamento
humano, com funções de verificação de hipóteses e descoberta de motivações e
elementos anteriores à mensagem.
Como pontos positivos dessa técnica se destacam a clareza e a baixa
ambiguidade. A aplicação do passo a passo simplifica o material e reduz a descrição
de características específicas (Bauer e Gaskell 2003, apud Mozzato e Grzybovski
2011). Sua organização é cronológica e segue três etapas: pré-análise, exploração
e tratamento. Detalhados na figura abaixo (Figura 1).
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117Natália Diniz Schwether; Gabriela Santos Nascimento
Figura 1 — Etapas da Análise de Bardin
PRÉ-ANÁLISE
EXPLORAÇÃO DO MATERIAL
TRATAMENTO DOS RESULTADOS
E INTERPRETAÇÕES
Leitura «flutuante»
Escolha de documentos
Constituição do corpus
Preparação do material
Formulação das hipóteses
e dos objectivos
Referenciação dos índices
Dimensão e direcções
de análise
Regras de recorte, cate-
gorização, codificação
Testar as técnicas
Elaboração dos indicadores
Administração das técnicas
no corpus
Operações estatísticas
Provas de validação
Inferências
Interpretação
Síntese e seleção dos
resultados
Outras orientações para
uma nova análise
Utilização dos resultados
de análise com fins
teóricos ou pragmáticos
Fonte: Bardin 2016, 132.
A pré-análise é composta pela escolha dos documentos, formulação da hipótese
e elaboração de indicadores. Embora não exista obrigatoriedade de sucessão entre
essas etapas, elas estão interligadas e possuem o objetivo de organizar os dados.
Bardin (2016) chamou de leitura flutuante o primeiro contato com os textos, o
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118 Criando a realidade através da narrativa: análise comparada das notícias sobre migração [...]
ganho de complexidade ocorre conforme o pesquisador avança em sua pesquisa.
Uma das possibilidades para a escolha dos documentos é buscar por aqueles que
contêm maior quantidade de informação sobre o objeto. Após a escolha, é neces-
sária a constituição do corpus — conjunto de documentos a serem analisados
7
.
No presente estudo, a leitura flutuante realizada nos portais eletrônicos dos
jornais, CNN e UN News, revelou que o tema migração
8
era constante, sendo uma
grande fonte de material para análise. Em 2019, 271,6 milhões de pessoas foram
caracterizadas como migrantes, residindo em países distintos do de seu nascimento,
o que representa cerca de 3,5% da população mundial (UN DESA 2019).
Embora existam diversos fatores que levam um indivíduo a migrar como,
por exemplo, melhores condições de vida, busca por emprego, melhor educação
para os filhos, reencontro de familiares, entre outros (ACNUR, 2016), eles
são, recorrentemente, noticiados como mais uma fonte de concorrência por
oportunidades e benefícios estatais, o que resulta em preconceitos, e motivo de
ansiedade e insegurança para os atores internacionais (Bale 2008).
Dado a magnitude e expressividade do tema, passou-se a uma pesquisa em
ambos os sites pelo termo “migrant”. O recorte temporal foi estabelecido com o
intuito de conferir contemporaneidade à pesquisa e considera a atualidade do tema.
Ele corresponde ao período entre 13 de junho a 30 de novembro (UN News) e
4 de julho a 21 de novembro (CNN), ambos de 2018. O corpus gerado foi composto
por 70 matérias — 35 de cada jornal.
Conforme Bardin (2016), o passo seguinte à leitura é a formulação de
hipóteses e objetivos. As hipóteses podem ser formuladas por meio de técnicas
sistemáticas e métodos exploratórios, processo que é auxiliado pelos textos. Ou, a
partir de hipóteses pré-estabelecidas, que podem ser experimentadas por métodos
de observação. No que diz respeito à elaboração de indicadores, esses podem
corresponder à medida da frequência que um tema é abordado em uma mensagem.
Assumindo que índices estão presentes nas mensagens, a pré análise é responsável
7 São regras: 1. Exaustividade — presença de todos os elementos, sem exceção; 2. Representatividade — a análise
pode ser realizada em uma amostra se ela for representativa do universo; 3. Homogeneidade — os documentos
devem ser homogêneos entre si e obedecer a critérios de escolha; 4. Pertinência — os documentos devem
corresponder ao objetivo da análise (Bardin 2016).
8 Nesse estudo entendemos migração como um conceito absoluto, o qual pode ser expresso como: “o movimento
de pessoas de um lugar no mundo para outro a fim de ter residência permanente ou semipermanente, geralmente
atravessando uma fronteira política” (Human Migration Guide 2005 apud Costa e Reusch 2016, 277). Os distintos
tipos de migração não são explorados, pois presamos pelo enfoque aos aspectos da construção da linguagem
nas comunicações. Estimula-se, no entanto, que estudos futuros realizam uma reflexão mais pontual sobre cada
um dos tipos e seus efeitos.
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119Natália Diniz Schwether; Gabriela Santos Nascimento
por escolhe-los, levando em consideração as hipóteses levantadas. No presente
estudo optou-se por partir de uma hipótese pré-estabelecida e experimentá-la,
sendo ela: a UN NEWS possui uma postura mais humanitária em suas notícias,
quando comparada a CNN.
O passo seguinte apresentado por Bardin (2016) é a exploração do material, que
pode ser realizada tanto manual quanto digitalmente. É, em geral, operacionalizada
através de codificações ou enumerações, e, nos casos em que a pré análise foi bem
construída, essa etapa se restringe à aplicação das decisões tomadas anteriormente.
Passa-se, então, para o tratamento e a interpretação dos dados, momento no qual
se realizam operações que permitem a apresentação condensada da informação.
Para tanto, importante etapa é a delimitação das categorias
9
a serem utilizadas,
a fim de comparar a frequência com que cada uma delas aparece nas notícias.
Bardin (2016) afirma que, através da categorização, o pesquisador classifica
os elementos do conjunto, os diferencia e reagrupa seguindo critérios previamente
definidos. O processo pode se dar através de um inventário, quando os elementos
são isolados, ou de uma classificação, quando eles são reorganizados. Na
classificação podem ser aplicadas duas técnicas antagônicas: na primeira, as
categorias formadas e os elementos são alocados para aquela onde se encaixam
melhor; a segunda classifica progressivamente os elementos e, ao final, define
suas categorias.
A categorização, nesse estudo, foi desenvolvida baseada nos diversos aspectos
que podem ser relatados acerca da migração, como a ligação entre economia
e migração, questões de segurança e direitos humanos (United Nations 1970).
Ponderou-se, ainda, a discriminação que os migrantes sofrem por parte do governo
e de sua população, os quais precisam “lidar com o repúdio e com a hostilidade
dos locais, além de ter menos direitos” (Human Migration Guide 2005, apud Costa
e Reusch 2016, 277). Dessa maneira, foram construídas as seguintes categorias:
(1) Economia — situação dos migrantes em busca de melhores condições
socioeconômicas e a economia doméstica dos países receptores. Essa
categoria é formada pelos códigos: desemprego, dinheiro, emprego,
oportunidade e gasto.
(2) Segurança — do país e do migrante. Formada pelos códigos: defesa,
proteção, segurança, tropas e violência.
9 Categorias reúnem grupos de elementos com características partilhadas, seus critérios podem ser diversos
(semânticos, sintático, léxico e expressivo).