
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 11, n. 1, 2016, p. 144-162
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Muryatan Santana Barbosa
condicionando a posterior divisão dos pan-africanistas africanos nos grupos de
“Monróvia” (1962) e “Casablanca (1961)”
12
. Essa história já é conhecida em suas
linhas gerais. O que se discutirá aqui é como a divisão tipológica estabelecida
ajuda a reestabelecer algumas premissas comuns da ideologia pan-africanista desse
período, para além de suas diversidades. Uma unidade baseada em quatro pilares
inter-relacionados: a) libertação; b) integração; c) solidariedade; d) personalidade
africana.
O termo libertação, por exemplo, é unânime em todos os pan-africanismos
na época tratada. Era uma premissa pós-Manchester (1945). Mesmo entre os
liberais que fundaram o grupo de Monróvia. Afinal, para eles, não havia dúvida
de que sua soberania implicasse a libertação da África do julgo colonial. O que
os distinguia do grupo de Casablanca era que eles não admitiam uma ideia
fundamental desse segundo grupo: de que tal libertação só se consagraria com
uma rápida unificação continental.
O mesmo pode-se dizer da discussão de época sobre a “integração”
africana. Enquanto sinônimo de integração continental e federalismo, o termo
foi pioneiramente trazido por M. Garvey na década de 1920. Mas, após 1945, a
ideia tornou-se uma utopia concreta. E vários intelectuais e ativistas começaram a
defendê-la publicamente. Em particular, nas páginas da revista Présence Africaine,
que se tornou porta-voz desse ideal entre 1955 e 1963. Em suma, existia a crença
geral de que era preciso trabalhar concretamente em prol dessa integração, antes
que as independências nacionais legitimassem e consagrassem as fronteiras
“nacionais” criadas pela Conferência de Berlim (ASANTE; CHANAIWA, 2010).
Só assim poder-se-ia lutar contra aquilo que era visto como o principal problema
do continente: a balcanização da África. Essa era uma ideia que, publicamente,
12 O Grupo de Casablanca tinha por membros Gana, Guiné, Egito, Mali, Sudão, Marrocos, Líbia, Tunísia e o governo
argelino no exílio. Ele reunia aqueles dirigentes africanos militantes do pan-africanismo, do socialismo e do
não alinhamento, preconizando uma planificação e um centralizado desenvolvimento econômico, um sistema
de defesa e de segurança em esfera continental e a defesa e restabelecimento dos valores culturais africanos.
Eram favoráveis a uma integração rápida, com forte unificação política, tal qual idealizada por K. N´Krumah.
Era o chamado pan-africanismo maximalista. O grupo de Monróvia era formado pelo Congo, Senegal, Costa do
Marfim, República Centro-Africana, Etiópia, Mauritânia, Benim, Gabão, Níger, Alto Volta, Chade, Madagascar,
Camarões, Libéria e Serra Leoa. Esse grupo era favorável a uma confederação “maleável” de Estados africanos,
soberanos e independentes, que favorecesse uma participação e uma cooperação voluntárias no âmbito dos
intercâmbios culturais e da interação econômica. Os seus membros eram particularmente inflexíveis no tocante
ao respeito pela soberania e integridade territorial de cada Estado, desconfiando das ambições de certos Estados
do grupo de Casablanca e antevendo uma possível ingerência em seus assuntos internos. Era o chamado
pan-africanismo minimalista, de viés liberal, cujos principais defensores eram L. Senghor, do Senegal, e Félix
Houphouet Boigny, da Costa do Marfim (ASANTE; CHANAIWA, 2010, p. 877).