Izadora Xavier do Monte
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 2, e1627, 2026
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Ação, armas, autoridade:
masculinidade e militaridade nas
Forças Armadas brasileiras1
Action, Weapons, Authority:
Masculinity and Militarity in the
Brazilian Armed Forces
Acción, armas, autoridad:
masculinidad y militaridad en las
Fuerzas Armadas brasileñas
DOI: 10.21530/ci.v21n2.2026.1627
Izadora Xavier do Monte
2
Resumo
Os estudos feministas de segurança têm explorado como as
profissões que atuam no exercício da violência legítima do
Estado, como a polícia e as Forças Armadas, são construídas
tradicionalmente como associadas ao masculino. Frente a essa
literatura que foca sobretudo em exércitos do Norte Global, o artigo
explora como “militaridade” e masculinidade estão conectados no
discurso dos militares brasileiros, com base em entrevistas feitas
com 40 capacetes azuis que participaram na missão das Nações
Unidas no Haiti. Como os militares explicam por que escolheram
a profissão militar? Pela análise temática de quarenta entrevistas
1 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior — Brasil (CAPES) — Código de Financiamento
DOC-PLENO 99999.001732/2013-07.
2 Doutora em GTM-CRESPPA pela Université Paris 8Vincennes-Saint-Denis.
Professora da Universidade Estadual da Paraíba, ParaíbaPB, Brasil. (izadora.
xavier@servidor.uepb.edu.br). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8704-6647.
Artigo submetido em 24/09/2025 e aprovado em 03/07/2026.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
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Este é um artigo
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ISSN 2526-9038
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e de observação na base militar brasileira em Porto Príncipe, o artigo aborda o exército
como espaço de aprendizado da masculinidade.
Palavras-chave: Estudos feministas de Segurança, Entrevistas, Masculinidade, Forças
Armadas, Brasil.
Abstract
Feminist security studies have explored how professions involved in the exercise of the
state’s legitimate use of violence, such as the police and the armed forces, are associated
with characteristics traditionally coded as masculine. Building on this literature, which has
focused primarily on militaries in the Global North, this article examines how militariness
and masculinity are intertwined in the discourse of Brazilian military personnel, drawing
on interviews with 40 blue helmets who served in the United Nations mission in Haiti.
How do military personnel explain their decision to pursue a military career? Through a
thematic analysis of forty interviews and participant observation at the Brazilian military
base in Port-au-Prince, the article approaches the army as a site for the learning and
construction of masculinity.
Keywords: Feminist Security Studies, Interviews, Masculinity, Armed Forces, Brazil.
Resumen
Los estudios feministas sobre seguridad han explorado cómo las profesiones encargadas
del ejercicio de la violencia legítima del Estado, como la policía y las Fuerzas Armadas,
se asocian con características tradicionalmente consideradas masculinas. Partiendo de
esta literatura, centrada principalmente en los ejércitos del Norte Global, este artículo
examina cómo la militaridad y la masculinidad se entrelazan en el discurso de los militares
brasileños, a partir de entrevistas realizadas con 40 cascos azules que participaron en la
misión de las Naciones Unidas en Haití. ¿Cómo explican los militares su decisión de elegir
la carrera militar? Mediante un análisis temático de cuarenta entrevistas y la observación
participante en la base militar brasileña en Puerto Príncipe, el artículo aborda el ejército
como un espacio de aprendizaje y construcción de la masculinidad.
Palabras-clave: Estudios feministas de Seguridad, Entrevistas, Masculinidad, Fuerzas
Armadas, Brasil.
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1. Introdução
Pela análise de quarenta entrevistas e de observação durante uma semana
na base militar brasileira e três meses na zona de responsabilidade brasileira em
Porto Príncipe, quero focar nas formas pelas quais militaridade3 e masculinidade
se conectam no discurso de militares brasileiros que serviram na operação de
paz no Haiti. Na conclusão desse artigo, vou propor que essa compreensão é
uma pista em direção a entender como masculinidade, dominação masculina e
socialização militar estão conectados.
A primeira parte do artigo responde à pergunta: o que é masculinidade? Já a
segunda trabalha o exército como espaço de construção social de significados para
masculinidade e militaridade. Tão logo é pedido aos militares para explicar por
que escolheram o ofício de militar, a naturalidade do vínculo entre masculinidade
e militaridade dá lugar a descrições que permitem compreender a dimensão
social da construção de ambos.
2. O campo de estudos da masculinidade e as masculinidades
militares
2.1. O campo de estudos das masculinidades
Na consolidação do gênero como categoria de análise, os estudos das
masculinidades passaram a investigar como o masculino se institui como princípio
organizador e norma invisibilizada. Tal movimento desnaturaliza o masculino
como referência neutra, evidenciando os processos históricos que o tornaram
padrão de humanidade (Beauvoir 1949; Cixous 2010). Como argumenta Preciado
(2016), a ausência de problematização da masculinidade no debate feminista
contribuiu para sua reificação como gênero “natural”, enquanto o feminino era
reiteradamente examinado como construção social. Ao trazer o masculino para
o campo da análise, os homens passam a ser compreendidos como sujeitos que
negociam, incorporam ou resistem a expectativas sociais sobre “ser homem”.
3 Como “militarismo” é um termo amplamente usado para designar práticas que se assimilam com as práticas
militares sem serem praticadas por militares, preferi usar “militaridade” para expressar a ideia da construção
da característica de algo como próprio aos militares.
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Parte importante dessa literatura dedica-se a compreender os mecanismos
de reprodução da dominação masculina. Estudos como os de Segato (2010) e
Machado (1998) analisam as justificativas mobilizadas por autores de violência
sexual, evidenciando como tais discursos produzem sentido e legitimidade para
seus atos. Pesquisas sobre estupro em contextos de guerra mostram ainda que
a violência sexual pode funcionar como dispositivo de coesão e solidariedade
masculina em grupos armados, mais do que expressão de ódio individual às
mulheres (Freedman 2015; Drumond 2023). A chamada camaradagem masculina
aparece, assim, como tecnologia de poder que assegura posições e exclui mulheres
e dissidências sexuais de espaços masculinos (Gourarier 2017; Rivoal 2021). Nesse
percurso, um primeiro movimento consistiu em desconstruir o feminino como
marcado e o masculino como neutro; um segundo buscou marcar a masculinidade,
identificando para essa traços recorrentes como atividade, agressividade sexual,
honra e “ser provedor” ou “chefe de família” (Grossi 2004), ainda que essa
abordagem incorra no risco de fixar a masculinidade como bloco homogêneo
e estático.
É justamente esse impasse que é tensionado por Connell (2005), que define
a masculinidade não como uma lista de atributos, mas como uma “configuração
de práticas”. O conceito de masculinidade hegemônica permite compreender
a existência de múltiplas masculinidades organizadas de forma desigual. A
masculinidade hegemônica é um construto ideológico ao qual nenhum homem de
fato corresponde, embora grupos deles possam beneficiar-se ou sustentar a estrutura
ideológica que os privilegia materialmente. Nessa perspectiva, masculinidade não
é identidade fixa e natural, mas produto de relações de poder “entre homens e
mulheres, e também entre homens
4
(Rivoal 2017, 145), historicamente variável
e reconhecível por comportamentos e linguagens associados ao masculino em
contextos específicos (Connell 2005).
2.2. Masculinidades militares
Nos anos 1990, a ampliação das missões de paz da ONU veio acompanhada
de denúncias de abusos sexuais cometidos por capacetes azuis, muitas vezes
minimizadas pela própria organização — como no célebre comentário “meninos
serão meninos”, feito por um representante no Camboja diante de acusações
4 No original: “entre hommes et femmes, mais aussi entre hommes”. A tradução é minha.
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contra soldados búlgaros. A partir desses episódios, pesquisadoras passaram a
questionar a adequação do uso de militares em operações de paz, argumentando
que a socialização militar, marcada por lógicas de agressividade e construção de
masculinidades violentas, pode reforçar a insegurança de mulheres em contextos
de conflito. Em Men, Militarism and UN Peacekeeping (2007), Sandra Whitworth
analisa o caso de abusos cometidos por paraquedistas canadenses na Somália e
sugere que outras categorias profissionais talvez fossem mais apropriadas para
promover a paz do que agentes treinados para a guerra.
Os estudos feministas em Segurança Internacional desafiaram pressupostos
centrais da disciplina, como a ideia de que proteger fronteiras significa proteger
todas as pessoas dentro do Estado, evidenciando como decisões de política
internacional produzem inseguranças concretas — especialmente para mulheres
(Cohn 1987; Moon 1997). Cynthia Enloe (1983; 2007) mostrou que dinâmicas
antes vistas como neutras em relação ao gênero, como a militarização, são na
verdade marcadas por ele. Ao mesmo tempo, a perspectiva de gênero questiona
como masculinidades associadas à força, ao risco e ao monopólio estatal da
violência — fundamento clássico da soberania — se reconfiguram nas operações
de paz (Duncanson 2009; Xavier do Monte 2020).
Profissionais que atuam no exercício da violência legítima do Estado, como
a polícia e as Forças Armadas, são associados a compreensões tradicionais do
masculino. Elas são, em particular, o uso da força física, a coragem, a ação e a
valorização do risco (Cockburn 1981; Ouellet 2013; Hopton 2003). Os militares
não são só representantes simbólicos da masculinidade tradicional. Eles também
são, concretamente, os detentores masculinos do monopólio legítimo do porte
de armas (Tabet 1979).
Entretanto, os militares não são as únicas pessoas armadas na sociedade.
Além disso, a capacidade de usar a violência não é o principal elemento da
socialização militar contemporânea. Sohn (2009), Devreux (1997) e Marly (2018)
mostraram que a disciplina, a submissão a um ideal e a hierarquia5 desempenham
papéis no ethos militar contemporâneo. O que define a “militaridade” não é a
violência, mas a legitimidade. É a posição deles como representantes da nação,
protetores da integridade nacional, que dá aos militares seu caráter especial — e
faz a diferença entre a violência “limpa” e “soberana” dos militares e a violência
“suja” e “bárbara” dos homens que não usam a violência em nome das Forças
5 E nisso elas ecoam Leirner (1997), cujo trabalho será citado no final dessa seção.
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Armadas (Belkin e Carver 2012). Em relação a essa literatura que faz em grande
parte referência ao Norte Global, o que nos interessa é refletir sobre as formas
pelas quais a relação entre masculinidade e Forças Armadas, ou masculinidade
e militaridade, constrói-se no caso dos capacetes azuis brasileiros.
É interessante notar que a masculinidade militar não é necessariamente
a masculinidade hegemônica (Connell e Messerschmidt 2013). Além disso, é
importante ressaltar que nem nas próprias Forças Armadas, a masculinidade
é homogênea. Não obstante, a importância das Forças Armadas em processos
políticos recentes no Brasil demonstra a contínua influência dessa instituição
e, podemos pressupor, por consequência, dos tipos de masculinidade que ela
avança.
De acordo com Hooper (2001), a formação da identidade de gênero se
organiza em, especificamente, três dimensões: a da incorporação física das
identidades; a das instituições e processos sociais relacionados ao gênero; e a
dimensão discursiva da construção dos gêneros e da ordem — hierárquica —
definida entre eles pela linguagem. Identidades são negociações entre nosso
corpo físico, nossa participação em práticas sociais e nosso posicionamento em
situações discursivas próprias a particularidades espaciais e temporais.
Hooper analisa a existência de múltiplas possibilidades de masculinidade
presente em discursos que alimentam identidades individuais de corpos que
se constroem assim como homens. Hooper estuda as conexões entre pessoal
e internacional na relação entre mídia — especificamente, a revista Economist
—, disciplina acadêmica, instituições e identidades individuais. Tipos ideais de
masculinidade permeiam as páginas da revista e competem entre si para informar
identidades individuais de leitores.
A seguir, mostrarei como esse trabalho de negociar entre corpo físico, práticas
sociais e posição no discurso é visível na análise temática das entrevistas com
militares brasileiros. Ainda que o estudo das Forças Armadas brasileiras seja uma
parte central das Relações Internacionais no Brasil, esses trabalhos costumam
se focar em questões de estratégia e defesa (Teixeira Júnior 2020; Silva, Pinto e
Rocha 2004; Saint-Pierre 2009; Fuccille et al. 2018); de identidade institucional das
Forças Armadas, doutrinas e sua constituição histórica (Coelho 1976; D’Araújo
e Castro 2000; Santos 2004; Oliveira 2024); ou em debates em torno do controle
civil das Forças Armadas (Cortinhas e Vitelli 2020; Fuccille 2020). Raros são os
estudos sociológicos das Forças Armadas brasileiras, com dois trabalhos sendo
considerados fundamentais: o de Celso Castro (2021) e Piero Leirner (1997).
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Castro (2021) analisou a divisão entre paisanos e militares e Leirner (1997),
a hierarquia, como princípios estruturantes de uma visão de mundo militar.
Ainda que possamos ler em Castro passagens como “a Academia é lugar para
homem, não é lugar para criança nem viadinho... pô, o cara quando vem para
cá [...] tem que virar homem de qualquer maneira” (Castro 2021, 28), o gênero
e a masculinidade não são considerados categorias explicativas por nenhum dos
dois autores. Dessa forma, esse trabalho, ainda que exploratório, busca abrir
novas frentes de reflexão sobre as Forças Armadas brasileiras: a primeira, que
incorpora o gênero e a masculinidade às categorias pertinentes para pensar a
instituição; e a segunda, que incorpora a pesquisa empírica não apenas com
oficiais, mas também com conscritos, à reflexão. Finalmente, essas duas novas
frentes vêm reforçar esse campo tão bem estabelecido dentro das RI.
2.3. Nota metodológica
Émile Durkheim (2007) descreveu os fatos sociais como fatos empíricos —
na medida em que se impõem e exercem um poder coercitivo sobre as pessoas.
A observação e a sistematização das ideias de senso comum, bem como dos
comportamentos e da linguagem tal como se apresentam espontaneamente aos
indivíduos, permitem reunir evidências empíricas que podem ser objetivadas
e sistematizadas para explicar como a sociedade funciona. Ainda que minha
compreensão esteja mais próxima da objetividade forte de Sandra Harding (2019)
do que da ideia durkheimiana do cientista neutro, proponho que o gênero é um
fato social empírico que explica comportamentos e delimita a realidade. Uma
vasta literatura em sociologia política internacional utiliza métodos de pesquisa
qualitativa e propõe que o gênero, assim como as Forças Armadas, é um fato
social que pode ser estudado por meio de observação e entrevistas.
6
Essa posição
6 Meu trabalho, em particular, reproduz métodos utilizados por: Daho G., La Transformation des armées : enquête
sur les relations civilo-militaires en France, Paris, Éditions de la Maison des sciences de l’homme, 2016; Prévot
E., « Mission et professionnalisation : de nouveaux rôles pour de nouveaux professionnels ? », Inflexions, vol.
3, n° 4, 2006, pp. 209-214; Delori M., “Humanitarian Violence: How Western Airmen Kill and Let Die in Order
to Make Live”, Critical Military Studies, vol. 5, n° 4, 2019, pp. 322-340; Segal David R., Segal Mady Wechsler,
Eyre Dana P., “The Social Construction of Peacekeeping in America”, Sociological Forum, vol. 7, n. 1, 1992,
pp. 121-136; Carreiras, Helena, “The sociological dimension of external military interventions: The Portuguese
military abroad”, Portuguese Journal of Social Science, vol. 13, n. 2, p. 129-149; Coton, Christel, “Briller sous
l’épaulette”, Actes de la recherche en sciences sociales, n° 191-192, n. 1, 15 abr. 2012, p. 14–27; Van Roekel,
Eva, “Argentinian Peacekeepers and Moral Becoming in Cyprus”, Critical Military Studies, 2 nov. 2022, p. 1–17;
Higate, Paul (org.), Military masculinities: identity and the state, Westport, Conn: Praeger, 2003.
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representa, em muitos aspectos, um afastamento do que é considerado positivista
no campo das RI (Lapid 1989). Aproxima-se mais de compreensões oriundas
da sociologia, nas quais se postula a construção social e o pós-positivismo
significa uma crítica à ideia de progresso e de neutralidade do pesquisador. Minha
pesquisa busca se aproximar dessas compreensões reflexivas e interpretativistas
do feminismo do ponto de vista (standpoint feminism) e da sociologia política
internacional que não excluem a ideia dos fatos sociais como dados empíricos.
Ao todo, entrevistei 22 oficiais e 18 praças, entre eles três recrutas. As
idades variavam de 21 a 51 anos. A maioria desses militares era do exército,
especialmente da infantaria (18), da artilharia (4) e da cavalaria (5), enquanto
outros eram do quadro especial (7), da polícia do exército (3) e da infantaria
da aeronáutica (3).7 Foram conduzidas duas etapas de pesquisa: a primeira,
entre setembro e outubro de 2014, em Brasília, no Quartel-General do Exército;
a segunda, em fevereiro de 2015, na base General Bacellar, no bairro de Tabarre,
em Porto Príncipe, onde permaneci hospedada por sete dias. Além disso, trabalhei
durante três meses, entre fevereiro e maio de 2015, junto a uma organização não
governamental brasileira situada no bairro de Bel-Air, na área sob responsabilidade
do contingente brasileiro.
Por eu ser externa a essa instituição total, no sentido goffmaniano, os militares
não falavam comigo da mesma forma que falam entre si. Com o avanço da pesquisa,
tornou-se evidente que essa barreira estruturante da relação de entrevista tanto
oculta quanto revela aspectos do discurso. Que eles não falam comigo como
falariam com um pesquisador homem ou entre si não deve ser entendido como
estratégia consciente de manipulação; embora o discurso seja moldado pela
situação da entrevista, o interesse analítico reside justamente nos mecanismos
mobilizados para falar de si e suas representações. Essa reflexão dialoga com
o estudo clássico de Carol Cohn (1987) sobre a linguagem tecnoestratégica de
especialistas nucleares norte-americanos, que demonstra como descrições de
armas e estratégias são permeadas por códigos de gênero, utilizados para persuadir
decisores políticos — majoritariamente homens — a sustentar investimentos
militares.
7 Havia apenas uma mulher na amostra, cuja entrevista foi útil na reflexão sobre outros elementos da experiência
dos capacetes azuis, mas que não será mencionada nesse artigo devido ao recorte analítico desta restituição.
O fato de que apenas uma mulher integrou o grupo de entrevistados reflete a baixa presença feminina nas
Forças Armadas brasileiras — a menor taxa de feminização entre os países do Cone Sul. Consequentemente,
as mulheres representam menos de 1% dos capacetes azuis brasileiros: em Porto Príncipe, havia apenas sete
mulheres em um contingente de 1.200 militares.
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As entrevistas duraram entre uma hora e meia e duas horas. As perguntas
foram preparadas com base na literatura existente sobre a percepção militar das
operações de paz e seguiram a estrutura usual de entrevistas abertas: primeiro,
foram feitas perguntas descritivas (nome, idade, posição nas Forças Armadas,
há quanto tempo estavam na instituição, que tipo de treinamento e experiências
anteriores possuíam). Em seguida, perguntas biográficas: perfil sociodemográfico
dos pais, por que escolheram as Forças Armadas e por que se voluntariaram para
missões de paz. Por fim, perguntas sobre como o treinamento foi conduzido,
quais eram as atividades cotidianas nas operações de paz, como e se essas
experiências afetaram sua compreensão da profissão. Tratava-se de perguntas
abertas, que permitiam desdobramentos e pedidos de esclarecimento conforme
as respostas de cada entrevistado.
Todas as entrevistas foram gravadas com o conhecimento dos participantes e
posteriormente transcritas para análise temática. Elas foram primeiro analisadas
individualmente, ou seja, cada uma foi ouvida, transcrita e sistematizada.
Inicialmente, buscou-se compreender as singularidades do indivíduo entrevistado,
bem como os processos e condições de produção de uma narrativa sobre si mesmo.
Em uma segunda etapa, as entrevistas foram analisadas transversalmente: temas
recorrentes, vocabulário e descrições foram identificados e reorganizados para
reconhecer regularidades nas formas de descrever ou identificar atores, ações
e processos.
Após essas duas etapas, os dados foram organizados em dois conjuntos:
uma análise temática vertical, que permitiu sintetizar temas recorrentes tratados
de maneira semelhante, e uma análise temática horizontal, que possibilitou
compreender como um mesmo tema era tratado individualmente pelos
entrevistados. Os dados foram então organizados segundo cada tema e de acordo
com os seguintes critérios: a) coerência vertical (isto é, o tema é recorrente e
tratado de forma semelhante por todos os indivíduos da amostra); b) raciocínio
(como os entrevistados interpretam o mundo e o explicam segundo seus próprios
conceitos e categorias); c) conceituação (os dados são organizados e restituídos em
categorias que permitem crítica e revisão); d) agregação (todas as especificidades
de um mesmo tipo de raciocínio estão presentes na restituição) (Blanchet e
Gotman 2007).
Pelos princípios da grounded theory, a amostra utilizada não é estatisticamente
representativa; trata-se de uma amostra teórica. Isso significa que a pesquisadora
constrói sua amostra de modo a reunir situações contrastantes que permitam
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elaborar categorias de análise, e a pesquisa evolui à medida que novas situações
e dados são apresentados pelos entrevistados, sendo encerrada quando se atinge
o chamado “ponto de saturação”; isto é, quando novas entrevistas deixam
de acrescentar informações relevantes às categorias elaboradas. Explico esse
procedimento para situar o dispositivo de citação de trechos de entrevistas: a
entrevista citada em uma seção é um exemplo de entrevista na qual pode se ver
de que forma singular se apresenta um padrão que foi observado em um número
suficiente de falas organizadas em uma categoria. As categorias que se seguem
— a saber, (1) a militaridade como vocação natural que se exprime na infância;
(2) a identidade entre ser militar e ser autoridade; e (3) a identidade entre ser
militar e ser pai de família — são elementos que reverberam suficientemente na
amostra a ponto de criar uma regularidade possível de ser analisada. No caso,
o que é apresentado são ilustrações do que corresponde a essas regularidades
sociológicas e que foi escolhido para análise no contexto do argumento. Essas
não são todas as categorias que emergiram das entrevistas, e trechos aqui citados
podem ter sido usados em outros artigos para analisar outras dimensões de
significado da atividade militar (Xavier do Monte 2022; 2023a; 2023b; 2025). As
categorias são formas minhas de traduzir analiticamente os dados empíricos. As
explicações dos entrevistados são agregadas em uma abstração que nem vem da
literatura existente, nem da empiria, mas são tributárias de ambas. As categorias
são minha contribuição teórica para o debate.
A amostra não representa os pontos de vista de todo o universo de militares
brasileiros envolvidos em operações de paz. Trata-se de um trabalho exploratório
de sistematização e categorização da maneira como militares brasileiros
compreendem seu papel. Todas as entrevistas foram realizadas em instalações
do Exército Brasileiro, onde estive acompanhada por oficiais superiores do
serviço de comunicações.
3. Masculinidade e militaridade: entre “sonhos de menino”,
ser autoridade e tornar-se “chefe de família”
3.1. Tornar-se soldado é o sonho de todo menino
Nas entrevistas, as motivações para entrar para o exército estão sempre
conectadas ao fato de que “tornar-se soldado” é “o sonho de todo menino”.
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Tenente Tom S
8
.: Eu acho que isso vem desde novo, porque meu pai, ele
era militar, então eu o acompanhava, era daqueles que gostava de colocar
farda menor que criança usa e acompanhar nos campos e…
Q: Eu não sabia que tem isso, tem uma farda menor?
Tenente Tom S.: Ah, normalmente tem. O filho de militar gosta de usar,
pessoal compra, pra ficar usando e eu fui acompanhando-o desde pequeno.
Chegou no final do ensino médio, tinha que escolher alguma direção, eu
escolhi ser militar. (Xavier do Monte 2019, 367-407).
9
A maior parte dos meus entrevistados que são oficiais vem de família militar.
A imagem do pai, não da mãe, ou de qualquer figura generificada como mulher,
como modelo a ser seguido, é muito presente. De acordo com eles, entretanto, a
influência que o pai militar tem sobre sua escolha de carreira não é socialmente
orientada pelo gênero, ela é “natural”.
Quando pergunto ao tenente Pedro o porquê da escolha da artilharia, sua
resposta fala sobre notas de concurso. Porém, além disso, seu pai serviu na
artilharia. Ao escolhê-la, ele escolhe algo mais acessível, mas também algo mais
próximo ao pai.
Q: E por que você escolheu artilharia?
Tenente Pedro: Então, daí também vai um pouco do meu pai, meu pai
foi soldado e ele foi soldado num quartel de artilharia. Conhecia aquilo
e também gostava um pouco de infantaria, mas como a escolha da arma
depende de classificação, eu optei por artilharia, local de servir, atividade-
fim, já era uma coisa que eu conhecia, já tinha uma predisposição além
de que eu gosto muito de matemática. (Xavier do Monte 2019, 367-407)
A escolha do tenente o aproxima do pai, o que não é anódino para ele. Ele
se tornou oficial para realizar um desejo do seu pai sargento. Passar de praça a
oficial descreve uma curva ascendente no histórico familiar. A partir da explicação
sobre a escolha da artilharia, nós compreendemos que sua escolha de carreira
profissional tem “um pouco a ver com predisposição [por matemática]” e um
pouco a ver com seguir os passos do pai.
Nos casos analisados, o chamado da atividade militar é sempre um chamado
da natureza. O interesse pelo militar é anterior ao conhecimento efetivo do ofício,
ele é inerente ao garoto que admira e adora atividades masculinas. Quando os
8 Os nomes foram alterados para proteger o anonimato dos entrevistados. As patentes foram mantidas.
9 As respostas foram editadas tirando algumas repetições e coloquialismos, para aumentar a clareza.
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entrevistados postulam a espontaneidade na vontade dos meninos em imitar
o pai e igualmente os valores que ele representaria, eles não estão apenas
descrevendo sua experiência, mas construindo uma naturalidade na qual uma
opção parece óbvia e diferentes opções, como, por exemplo, identificar-se com a
mãe, com a vó, com a tia ou com a irmã, como sendo impossíveis, nem mesmo
consideráveis. Os vínculos entre identidade de gênero e Exército são mediados
pela “evidência”, construída no discurso, entre identidade do menino do pai.
Capitão Antônio: Olha, eu só confirmei aquilo que eu via quando era
menino, quando era criança, muita atividade operacional, né, que é o
quea gentegosta de fazer, que é a atividade-fim. Eu tive a oportunidade
de fazer um curso operacional, então tudo aquilo ligado à parte inerente
aomilitar, vamos dizer assim, que é a preparação para a defesa do Brasil,
a defesa da soberania, veio confirmar aquilo que eu tinha começado a
aprender quando criança, muita atividade física, muita atividade técnica,
pra você aprender como mexer, como você faz um rolamento, e aí, é só
fazer um link com a criançada, que eles gostam de fazer essas coisas,
descer de rapel: eu adorava descer de rapel quando eu era criança, e isso
a gente faz se adestrando pruma situação real, então só confirmou aquilo
que eu sentia quando criança. (Xavier do Monte 2019, 367-407)
O capitão Antônio reinterpreta suas brincadeiras de menino a ponto de
entendê-las como um início da preparação para a defesa da soberania. As atividades
dos garotos desde a infância, a partir da sua fala, tendem naturalmente à defesa
da soberania. O relato do oficial tem a particularidade de reinterpretar a lógica
de Estado (“a preparação para a defesa do Brasil”), isto é, lógicas complexas e
abstratas e inegavelmente politizadas, na continuidade de suas predisposições
de menino. Defender o Brasil, no seu discurso, fixa-se como algo natural para
as crianças — como as citações anteriores mostram, no entanto, essas crianças
não são neutras em relação ao gênero. São crianças identificadas com figuras
paternas e com atividades tipicamente masculinas.
O gosto pela aventura, pelo risco, pelo ar livre e pelo manejo de equipamentos
e armas é construído no discurso como interesses naturais dos meninos, enquanto
as Forças Armadas surgem como continuidade dessa vocação de “ser homem”,
tecendo vínculos profundos entre o que significa ser “homem” e ser “militar”.
A ideia de um percurso vocacional que se manifesta muito cedo reforça a noção
de uma inclinação natural — aproximando biologia e características significadas
como paternas, masculinas.
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É possível também entender como o materno e o feminino são calados e
não ditos que, no entanto, dão sentido a essa lógica. Se a ideia parece abstrata,
basta imaginarmos o que aconteceria ao quadro da entrevista se eu relançasse
perguntando se podemos considerar que, no caso de meninos que se identificam
com a mãe, é natural que eles sigam a profissão de donas de casa.
3.2. Meninos que querem ser autoridade
A carreira militar, segundo os entrevistados, permite aos meninos realizar
sonhos marcados pelas características tradicionais do gênero. Além de identificar
a masculinidade com a militaridade por meio dos valores da ação e da técnica,
outros elementos vêm se juntar à equação que faz, no discurso dos entrevistados,
das Forças Armadas um lugar onde homens se constituem como tais.
Segundo sargento Oliveira: Você nunca vai ter as mesmas experiências
no meio civil. Eu ouvi isso do meu filho recentemente. Meu garoto tá
com 19 anos. Ele adora o exército, ele é extremamente vibrador. Pegar
uma arma, dar um tiro, acho que todo jovem sonha em pegar um fuzil,
uma pistola, uma metralhadora e dar um tiro, eu tive essa oportunidade,
pegar uma arma, sair na rua, se sentir importante, uma autoridade. Para
um jovem de 18, 19 anos isso é muito bom. Então, pra um jovem isso é
muito interessante. (Xavier do Monte 2019, 367-407)
Para o segundo sargento, a especialidade de sua atividade reside no fato
de que ela foge à normalidade civil. Ele não tem pais que o precederam no
exército, o que lhe teria permitido estabelecer o vínculo entre suas atividades e
predisposições da infância. Todavia, ele compensa isso mencionando seu filho,
“garoto de 19 anos”, que representa, assim, a continuidade desse vínculo entre
masculinidade e militaridade. Além de realizar os sonhos dos jovens garotos,
o fato de pegar uma arma e sair na rua, uma tarefa militar, diz o sargento, é a
ocasião para se sentir “importante” e “autoridade”.
O subtenente Casares ecoa a ideia do comando como verdadeira atividade
militar:
minha parte preferida é, sem dúvida, ter meu pelotão na mão, então eu
faço plenamente a atividade de comandante de pelotão, então eu tenho
a estrutura do pelotão bem formada, eu tenho total autonomia de poder
comandar o meu pelotão da maneira como eu quero. Então isso aí é uma
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coisa que nem sempre no quartel você tem, aqui não, aqui a gente está
fazendo atividade-fim, que é ser militar, atividades militares, o tempo
todo, e eu estou com a experiência de ter meu pelotão completo, com
equipamento de primeira linha, com o melhor que o exército pode me
proporcionar e… é... botar em prática aquilo que eu aprendi na AMAN.
(Xavier do Monte 2019, 367-407)
Há uma tensão entre o fato de “dar ordens”, a verdadeira função militar ou
a função dos que têm carreira militar (os oficiais), e o de agir e usar a violência
diretamente. O uso das armas é idealizado como função militar por excelência.
Na prática e cotidianamente, ela também é realizada por oficiais em início de
carreira ou pelos militares menos valorizados na hierarquia, soldados e cabos.
O estatuto do soldado é marcado por tensões. Ele faz parte do imaginário
militar como aquele que encarna as funções ideais da profissão — o combate, ou
seja, usar a violência de forma direta para dominar o inimigo. Por um lado, ele
está “em campo”, participa dos combates. Por outro, o soldado também está no
ponto mais baixo da hierarquia militar, posição que reverbera a origem social da
maior parte dos alistados no serviço militar obrigatório e que é diametralmente
oposta à dos oficiais da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN , escola
responsável pela formação dos oficiais do exército brasileiro). Estes farão referência
a si mesmos como “soldados”, mas quem passa no concurso da academia
ingressa como aspirante: soldado é uma imagem para os oficiais que representa
a fantasia de uma posição masculina de aventura, tomada de risco, superação de
dificuldades; essa fantasia do soldado é muito distinta da realidade dos soldados
socialmente situados que são incorporados à instituição por meio do alistamento.
Sob as representações homogeneizantes do homem militar como “soldado”,
a “família” militar engloba inúmeras linhas de separação entre masculinidades. O
tenente-coronel Corte, que encontrei nos escritórios da Secretaria de Comunicação
do Exército em Brasília, serviu no Estado-Maior do batalhão brasileiro em 2010.
Ele me falou das suas funções como chefe de operações, ou seja, como oficial
responsável por recolher junto ao comando da Missão das Nações Unidas para
a Estabilização do Haiti (MINUSTAH, do acrônimo em francês) o que tinha
sido definido como atividades a serem realizadas pelos diferentes grupos de
combate (GC) para, em seguida, informar e repartir as atividades entre os GC.10
10 Um grupo de combate é o nome da unidade, formada por oito militares ou dois esquadrões, que é responsável
por atividades tais como as patrulhas móveis, no caso da MINUSTAH. Ela é comandada em geral por um
oficial jovem, recém-saído da AMAN.
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O tenente-coronel Corte, ao responder sobre como se faz uma patrulha, parece
quase se desculpar cada vez que peço mais detalhes sobre o trabalho do soldado
e dos GCs. Ele me diz que não pode descrever o que acontece porque participa
raramente das patrulhas e, quando participa, é mais para “entender o que vivem”
cabos e sargentos e poder melhor organizar as atividades dos seus subordinados.
Higate e Hearn (2003) insistem na importância da criação de uma identidade
masculina homogênea, idealizada pelas Forças Armadas, exatamente para encobrir
as enormes diferenças sociais entre os indivíduos que compõem suas fileiras.
Outros oficiais, quando eu peço detalhes sobre o cotidiano da base, parecem
igualmente se desculpar ao explicar a diferença entre eles e os que “metem a
mão na massa”.
Voltando para trabalhar a partir das fissuras entre diferentes tipos de
experiência encarnada masculina, na próxima seção, retomo o relato de praças
para ver a última forma de abordar o nosso tema: como passar pelo Exército é,
para os cabos, um rito de passagem que os fará sair do outro lado masculinizados
e militarizados: chefes e pais de família.
3.3. Tornar-se militar: tornar-se homem e tornar-se chefe de família
É de conhecimento geral que, apesar da lei que determina o alistamento
para homens de 18 anos de idade, as estruturas do Exército Brasileiro não podem
acolher todos os jovens que alcançam a maioridade em suas fileiras. Aqueles que
não querem servir, caso sejam admitidos no vestibular ou tenham um emprego
ativo, conseguem ser dispensados.
Para os conscritos e contratuais, a dimensão da socialização primária é
muito menos presente. A dimensão de classe separa oficiais e praças. No caso
destes, a socialização primária aparece mais raramente como uma época em
que as predisposições para a atividade militar se manifestam. Trata-se, com
maior frequência, de uma questão de possibilidades econômicas ou da opção
por financiar estudos universitários. Por vezes, acompanhando descrições de
famílias “desestruturadas”, as Forças surgem como um contexto no qual esses
jovens encontrarão a ordem e a disciplina que não tinham em casa. Mais do
que o aprendizado de uma masculinidade guerreira, trata-se do aprendizado do
lugar de autoridade na família. Passar de civil a militar é análogo a passar de
filho a pai e marido. Os dois são representativos da autoridade, assim como o
oficial ou o superior o é face aos seus subordinados.
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As modalidades de entrada para os praças e oficiais são distintas, ainda que
se reúnam na afirmação dos vínculos entre masculinidade e militaridade. Ao passo
que os oficiais identificam o militar à masculinidade pelo viés das referências
à infância, além do desejo de representar a autoridade, praças relacionam a
passagem pelo exército à passagem generificada à vida adulta, “tornar-se homem”.
Entre aqueles que passaram pela conscrição e pelo alistamento voluntário, a
possibilidade de um futuro e de uma estabilidade econômica mistura a admiração
pela instituição ao sentimento de encontrar uma “família”.
O sentimento de encontrar uma família estruturada através do alistamento
militar é particularmente pronunciado no caso do segundo sargento Felipe M.
Originário do sul do país, seu pai era ausente e sua mãe não tinha condições
financeiras para educá-lo sozinha. Assim, ele cresceu junto de membros de sua
família expandida, como “agregado”. Ainda que seja considerado como parte
da família, o agregado geralmente se encontra em condição de subordinação
em relação aos parentes que o acolhem. Em seu relato, é somente dentro do
Exército que ele encontrou estrutura, ordem e, sobretudo, possibilidades em
termos econômicos que o permitiram “fundar sua família”, ter sua própria casa
no sentido material, mas também simbólico. A passagem é marcada pelo fim de
sua formação de sargento, pela partida para a selva e pelo casamento.
Segundo sargento Felipe M.: Então eu falo assim desde criança eu sempre
gostei muito das forças armadas, o meu brinquedo preferido era esses
bonequinhos, eu sempre gostava, aí pra mim, pela situação que eu me
encontrava, que eu tinhasituação de parente dizer assim, você estácolocando
muita comida no prato, vocênão pode ligartelevisão, porquenão tem
ninguém daqui da casa assistindo,então pra mim ali foi aprimeira vez
pra mim ali que eu tive uma casa, que eu tive umafamília, que eu podia
colocar as minhas coisas onde eu queria,então pra mim eu ‘tava começando
a viver o meu mundo. (Xavier do Monte 2019, 367-407)
O segundo sargento Rivaldo, por sua vez, dirá ter se sentido “adotado” pelo
Exército. Outros entrevistados comunicam um sentimento semelhante. Muitas
vezes, a figura de um superior, um oficial, desempenha um papel importante
ao final de períodos de conscrição ou alistamento para convencer os jovens a
se inscreverem de forma perene na instituição.
Segundo sargento Rivaldo: Vim do Nordeste com 17 anos, vim por influência
do meu irmão, devido um pouco de decadência de trabalho, do interior, do
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sertão, eu vim pra aqui, comecei a trabalhar numa lanchonete, chegou o
período de se alistar, me alistei, queria ser dispensado, como meu irmão ele
trabalhava no hospital, ele conhecia um coronel médico, coronel Evaldo. Ele
me levou pra conversar com ele, eu trabalhava na lanchonete do hospital
ele, educado, ô rapaz por que você quer ser dispensado, o exército é uma
instituição que hoje você tem um aparato médico, você tem um plano
de saúde, você pode seguir carreira, entendeu, só depende de você é um
garoto jovem tem saúde tem tudo, por que isso? Eu só sei que de alguma
forma ele me convenceu. Aí eu falei pro meu irmão, agora eu não quero
ser mais dispensado não, agora eu quero servir (...) Porque eu gostei pelas
histórias que eu fiquei sabendo (…) Eu costumo dizer que o exército me
adotou. (Xavier do Monte 2019, 367-407)
Nessa circunstância, o Exército representa, para os conscritos que decidem
prolongar seu contrato, um local de passagem para a idade adulta, em termos
simbólicos e materiais. Essas figuras que representam a autoridade do exército
à qual eles aspiram estão ligadas a melhores condições socioeconômicas para
os alistados voluntários e os praças.
Subtenente Washington: Um carachegou, capitão na época, olha queria
muito que você ficasse, gostei do teu trabalho durante um ano você fez,
até eu me surpreendi, foi até ele que me abriu os olhos, elefalou assim,
você tem algumaprofissão aí fora, eu disse, pô,não tenho nada, eu tinha
parado de fazer meu curso de eletricista na época, quando eu entrei
no quartel, tenho que terminar o curso pra depois poder trabalhar, ele
falou olha,aqui vocênão precisa se habilitar, você já concluiu ocurso
deformação de soldado, você pode ficar o ano que vem fazer o curso de
cabo e ganhar muito mais que aí fora. E, falou assim, fora que você pode
fazer outras coisas aqui dentro, e aí isso na hora me balançou bastante,
olha te dou umasemana pra você pensar. Eu ia dar baixa, na sexta-feira
ele me perguntou vai querer ir embora ou vai querer ficar? Não, vou
querer ficar, efoi ficando, depois gostando cada vez mais, depois que
eupassei no concurso,então, nem sonhei mais em [sair]... (Xavier do
Monte 2019, 367-407)
Esses relatos estabelecem vínculos com uma ideia mais geral de saída da
infância e de passagem à idade adulta. Para os oficiais, oriundos de classes mais
abastadas e que já participam de uma masculinidade dominante na sociedade
em diversos aspectos, a construção de um vínculo que une masculinidade e
“militaridade” é feita falando primeiro em ação, aventura, armas para, em
seguida, falar de autoridade. Em todos os casos, a partir da resposta a uma
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pergunta simples — o que fez você querer se juntar ao Exército? — vemos como
os significados tradicionais de masculinidade -- ação, aventura, autoridade,
provedor — são acionados pelos entrevistados para preencher o conteúdo das
ideias do que é ser militar. Não é possível explicar e entender um sem o outro.
Para os oficiais, quando eles dizem que as funções do Exército correspondem
ao sonho de todo menino, eles naturalizam não apenas a ligação entre “ser
menino” e “aventura, ação, armas” — mas também entre “ser menino” e “querer
ser autoridade”. Para os praças, quando eles dizem que o Exército lhes permite
tornar-se homens, querem dizer que lhes permite tornar-se pai de família. Ser
pai de família, como mostra a literatura em estudos de masculinidade (Grossi
2004), está ligado à posição de provedor que não é nem anódina em relação
ao gênero nem em relação à hierarquia. Assumir uma posição de homem, de
provedor, na estrutura familiar é ser, literalmente, “chefe de família” .11
Ancoradas na literatura sociológica de gênero e RI, essas falas e a regularidade
da sua repetição são indícios de gênero: não como uma expressão natural, mas
como algo que é construído e justificado no discurso. O discurso dos entrevistados
sobre a naturalidade da conexão afirma socialmente a naturalidade da conexão. É
um discurso (indício de uma realidade social empírica) sobre como a conexão entre
o masculino e o militar é natural. Descrever-se como um garoto que corresponde
ao militar, ou como o Exército permitiu a realização do seu potencial de pai de
família, não é expressar sua naturalidade de gênero. Pelo contrário, é a busca por
afirmar-se, através do discurso, como um garoto conforme, um homem conforme,
um bom exemplar da militaridade e da masculinidade, simultaneamente.
4. Conclusão
Estamos considerando que as entrevistas com militares permitem entender
as formas pelas quais significados são construídos socialmente pelo discurso —
propondo que isso teria uma importância na forma pela qual instituições como as
Forças Armadas se organizam e o poder que elas têm na sociedade, assim como
um impacto na forma como os homens encarnam e performam o gênero. Quando
11 As dimensões de gênero indissociáveis da categoria “chefe de família” fizeram com que, no ano 2000, o censo
brasileiro substituísse a categoria “chefe de família” por “pessoa responsável”. Mesmo havendo uma crescente
participação das mulheres como responsáveis do domicílio ou sendo igualmente responsáveis economicamente
pelo domicílio, o censo teve que se adaptar porque, nesses casos, as mulheres não se autodenominavam
chefes de família” e respondiam, antes, que seu domicílio não tinha chefe (Vieira e Garcia 2025).
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militares conectam masculinidade e militaridade, eles não estão descrevendo
fatos: eles estão construindo significados para a masculinidade e para as Forças
Armadas. Esses significados são elementos empíricos de análise da construção
social do gênero e do internacional. A partir dessas considerações, gostaria
de concluir com um comentário sobre a autoridade. A autoridade nas Forças
Armadas, segundo Castro (2021), obedece à lógica da “hierarquia quantitativa”.
A hierarquia quantitativa como tipo de solidariedade nas Forças serve como
operador que permite aceitar melhor o momento de receber ordens, porque
estabelece também a promessa de outro momento em que, tendo atingido certa
maturidade, o militar em questão poderá dar ordens aos jovens — razão pela
qual aspirantes não detestam seus superiores, segundo Castro.
Ao falar da formação que tiveram, os praças, menos numerosos na amostragem,
relatam instruções penosas, e a dimensão de violência presente nelas é algo que
eles me confiam apenas timidamente. Contrariamente aos aspirantes de Castro
(2021), os praças que entrevistei pareceram ter bastante dificuldade para lidar
com o ressentimento.
Dois deles relatam que uma das motivações para passar da conscrição à
contratação era a ideia de modificar a “falta de humanidade” dos mais antigos
junto aos mais novos. A contratação é acessível a todos os soldados ao fim do
ano de serviço militar; eles podem ser contratados por um segundo ano, ao final
do qual, para continuar no Exército, será preciso passar pelo Curso de Formação
de Cabos. Ao final do curso, o contratado passa ao nível de cabo e pode renovar
seu estatuto até um limite de seis anos. Para os praças, essa evolução marca
o aprendizado do comando. Apesar do desconforto do processo e da falta de
humanidade — estes praças aguentam para poder enfim reunir as capacidades
necessárias para subir na escala até que, por sua vez, eles próprios possam
dominar. No processo, entendem melhor por que “faltaram com humanidade”
com eles.
A escolha por permanecer também tem a ver com a solidariedade masculina.
A palavra “coletivo” é mencionada várias vezes e, para um segundo sargento
entrevistado, entrar no Exército significa “não estar mais sozinho”. O espaço
restrito das FFAA é caracterizado pela hierarquia, mas também pela ajuda mútua
generificada. A circulação da autoridade alivia a hierarquia baseada numa
dominação descrita como violenta.
Como eu mencionei na primeira seção desse artigo, a literatura (Segato 2010;
Machado 1998; Freedman 2015; Drumond 2023; Gourarier 2017; Rivoal 2021)
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insiste sobre a ideia de que solidariedade masculina e a dominação masculina se
reproduzem nos espaços que essas autoras estudam. O que esse artigo buscou
mostrar é que masculinidade e militaridade estão intimamente conectadas, e
intimamente conectadas à construção dos homens como autoridades em contexto
militar. Parece-me fundamental refletir sobre como a construção do Exército,
e das Forças em geral, como espaço masculino impacta as concepções sociais
sobre autoridade, hierarquia e dominação de gênero.
Essa reflexão é também um desafio para toda a sociedade que queira se
basear na igualdade (o contrário da hierarquia). Como instituição fundamental
na construção da autoridade estatal, Forças Armadas e sua lógica parecem ter
um papel na construção de solidariedade masculina. O que dizer sobre os efeitos
sociais dessa lógica num país onde uma grande parte da população acha que
militares são melhores do que civis para organizar a política?
Usar as lentes da masculinidade nos ajuda a compreender de que forma as
relações desiguais de gênero são sustentadas pelos processos nos quais homens
viram homens e reservam certos espaços de poder para si. Estudar masculinidades
ajuda a evidenciar a centralidade política das estruturas sociais banais que
alimentam o poder dos militares como homens e alimentam a militarização das
masculinidades.
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