
Izadora Xavier do Monte
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 2, e1627, 2026
7-23
Castro (2021) analisou a divisão entre paisanos e militares e Leirner (1997),
a hierarquia, como princípios estruturantes de uma visão de mundo militar.
Ainda que possamos ler em Castro passagens como “a Academia é lugar para
homem, não é lugar para criança nem viadinho... pô, o cara quando vem para
cá [...] tem que virar homem de qualquer maneira” (Castro 2021, 28), o gênero
e a masculinidade não são considerados categorias explicativas por nenhum dos
dois autores. Dessa forma, esse trabalho, ainda que exploratório, busca abrir
novas frentes de reflexão sobre as Forças Armadas brasileiras: a primeira, que
incorpora o gênero e a masculinidade às categorias pertinentes para pensar a
instituição; e a segunda, que incorpora a pesquisa empírica não apenas com
oficiais, mas também com conscritos, à reflexão. Finalmente, essas duas novas
frentes vêm reforçar esse campo tão bem estabelecido dentro das RI.
2.3. Nota metodológica
Émile Durkheim (2007) descreveu os fatos sociais como fatos empíricos —
na medida em que se impõem e exercem um poder coercitivo sobre as pessoas.
A observação e a sistematização das ideias de senso comum, bem como dos
comportamentos e da linguagem tal como se apresentam espontaneamente aos
indivíduos, permitem reunir evidências empíricas que podem ser objetivadas
e sistematizadas para explicar como a sociedade funciona. Ainda que minha
compreensão esteja mais próxima da objetividade forte de Sandra Harding (2019)
do que da ideia durkheimiana do cientista neutro, proponho que o gênero é um
fato social empírico que explica comportamentos e delimita a realidade. Uma
vasta literatura em sociologia política internacional utiliza métodos de pesquisa
qualitativa e propõe que o gênero, assim como as Forças Armadas, é um fato
social que pode ser estudado por meio de observação e entrevistas.
6
Essa posição
6 Meu trabalho, em particular, reproduz métodos utilizados por: Daho G., La Transformation des armées : enquête
sur les relations civilo-militaires en France, Paris, Éditions de la Maison des sciences de l’homme, 2016; Prévot
E., « Mission et professionnalisation : de nouveaux rôles pour de nouveaux professionnels ? », Inflexions, vol.
3, n° 4, 2006, pp. 209-214; Delori M., “Humanitarian Violence: How Western Airmen Kill and Let Die in Order
to Make Live”, Critical Military Studies, vol. 5, n° 4, 2019, pp. 322-340; Segal David R., Segal Mady Wechsler,
Eyre Dana P., “The Social Construction of Peacekeeping in America”, Sociological Forum, vol. 7, n. 1, 1992,
pp. 121-136; Carreiras, Helena, “The sociological dimension of external military interventions: The Portuguese
military abroad”, Portuguese Journal of Social Science, vol. 13, n. 2, p. 129-149; Coton, Christel, “Briller sous
l’épaulette”, Actes de la recherche en sciences sociales, n° 191-192, n. 1, 15 abr. 2012, p. 14–27; Van Roekel,
Eva, “Argentinian Peacekeepers and Moral Becoming in Cyprus”, Critical Military Studies, 2 nov. 2022, p. 1–17;
Higate, Paul (org.), Military masculinities: identity and the state, Westport, Conn: Praeger, 2003.