Terra Friedrich Budini; Jefferson de Oliveira Silva; Natália Maria Félix de Souza; Mariana Jansen Ferreira
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 2, e1619, 2026
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Rankings internacionais de
sustentabilidade: reflexões sobre os
limites da Agenda 2030 como métrica
de impacto social da produção
acadêmica das universidades
1
International sustainability rankings:
reflections on the limits of the 2030
Agenda as a metric of the social impact
of universities’ academic output
Rankings internacionales de
sostenibilidad: reflexiones sobre los
límites de la Agenda 2030 como métrica
de impacto social de la producción
académica de las universidades
DOI: 10.21530/ci.v21n2.2026.1619
Terra Friedrich Budini
2
Jefferson de Oliveira Silva
3
Natália Maria Félix de Souza
4
Mariana Jansen Ferreira
5
1 Esta pesquisa recebeu apoio financeiro do Plano de Incentivo à Pesquisa da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Pipeq/PUC–SP).
2 Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Professora do curso
de Relações Internacionais e do PPG em Governança Global e Formulação de
Políticas Internacionais da PUC–SP, São Paulo – SP, Brasil. (tfbudini@pucsp.br).
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3181-9663.
3 Doutor em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo. Professor e
pesquisador do Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), da PUC-SP e da Fundação
Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), São Paulo – SP, Brasil. (jefferson.
oliveira@prof.inteli.edu.br). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0268-670X.
4 Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Professora do curso de
Relações Internacionais e dos PPGs em Governança Global e Formulação de
Políticas Internacionais (GGFPI) e Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem
(LAEL) da PUC-SP, São Paulo – SP, Brasil. (nmfsouza@pucsp.br). ORCID:
https://orcid.org/0000-0001-9914-8985.
5 Doutora em Saúde Pública na Universidade de São Paulo. Professora no Instituto
de Economia – Unicamp, Campinas – SP, Brasil. (mjansen@unicamp.br). ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-3209-8511.
Artigo submetido em 01/09/2025 e aprovado em 08/06/2026.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
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Este é um artigo
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ISSN 2526-9038
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Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 2, e1619, 2026
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Resumo
Os rankings internacionais de sustentabilidade têm se consolidado como instrumentos
de avaliação do impacto social das universidades, tendo como referência estruturante os
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Partindo da pergunta sobre como a
adoção dessa métrica pelos rankings afeta a produção acadêmica universitária, este artigo
argumenta que tais rankings tendem a gerar invisibilidades sistemáticas nesse campo. Para
demonstrar esse argumento empiricamente, realizamos um mapeamento bibliométrico
das dissertações e teses da PUC-SP entre 2017 e 2021, aplicando e testando a metodologia
de classificação da plataforma SciVal/Elsevier e construindo strings complementares para
o ODS 17 e para o tema da desigualdade racial. Os resultados mostram que 78% dos
4.956 trabalhos analisados não foram classificados por nenhum ODS, e que as strings
complementares identificaram 182 trabalhos adicionais inteiramente invisíveis para os
critérios dos rankings. Esses achados evidenciam que as invisibilidades produzidas não
são limitações técnicas inevitáveis, mas reflexo de escolhas metodológicas e políticas que
transferem para o campo acadêmico as disputas que marcaram a própria construção da
Agenda 2030.
Palavras-chave: Sustentabilidade; Universidades; Rankings; Agenda 2030; ODS; Desigualdade
Racial.
Abstract
International sustainability rankings have consolidated themselves as instruments for
assessing the social impact of universities, using the Sustainable Development Goals
(SDGs) as a structuring reference. Drawing on the question of how the adoption of this
metric by rankings affects university academic output, this article argues that such rankings
tend to produce systematic invisibilities in this field. To demonstrate this empirically, we
conducted a bibliometric mapping of master’s dissertations and doctoral theses defended at
the Pontifical Catholic University of São Paulo (PUC-SP) between 2017 and 2021, applying
and testing the thematic classification methodology of the SciVal/Elsevier platform and
constructing complementary search strings for SDG 17 and the theme of racial inequality.
The results show that 78% of the 4,956 works analyzed were not classified under any SDG,
and that the complementary strings identified 182 additional works entirely invisible to the
rankings’ classification criteria. These findings demonstrate that the invisibilities produced
are not inevitable technical limitations, but the reflection of methodological and political
choices that transfer to the academic field the disputes that marked the very construction
of the 2030 Agenda.
Keywords: Sustainability; Universities; Rankings; 2030 Agenda; SDGs; Racial Inequality.
Terra Friedrich Budini; Jefferson de Oliveira Silva; Natália Maria Félix de Souza; Mariana Jansen Ferreira
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 2, e1619, 2026
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Resumen
Los rankings internacionales de sostenibilidad se han consolidado como instrumentos de
evaluación del impacto social de las universidades, utilizando los Objetivos de Desarrollo
Sostenible (ODS) como referencia estructurante. Partiendo de la pregunta sobre cómo la
adopción de esta métrica por los rankings afecta la producción académica universitaria,
este artículo argumenta que dichos rankings tienden a producir invisibilidades sistemáticas
en este campo. Para demostrar este argumento empíricamente, realizamos un mapeo
bibliométrico de las disertaciones de maestría y tesis doctorales defendidas en la Pontificia
Universidad Católica de São Paulo (PUC-SP) entre 2017 y 2021, aplicando y poniendo a prueba
la metodología de clasificación temática de la plataforma SciVal/Elsevier y construyendo
cadenas de búsqueda complementarias para el ODS 17 y el tema de la desigualdad racial.
Los resultados muestran que el 78% de los 4.956 trabajos analizados no fueron clasificados
en ningún ODS, y que las cadenas complementarias identificaron 182 trabajos adicionales
completamente invisibles para los criterios de clasificación de los rankings. Estos hallazgos
evidencian que las invisibilidades producidas no son limitaciones técnicas inevitables, sino
el reflejo de decisiones metodológicas y políticas que transfieren al campo académico las
disputas que marcaron la propia construcción de la Agenda 2030.
Palabras clave: Sostenibilidad; Universidades; Rankings; Agenda 2030; ODS; Desigualdad
Racial.
Introdução
A criação de indicadores internacionais no tema da sustentabilidade tem
crescido de forma acelerada nas últimas décadas e influenciado de maneira
crescente a formulação de políticas nacionais e locais. Tal processo reflete o
desenvolvimento de dois fenômenos paralelos: por um lado, a proliferação de
indicadores e rankings nas mais variadas áreas (como o Worldwide Governance
e o Doing Business do Banco Mundial, ou o Programa Internacional de Avaliação
de Estudantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico,
por exemplo
6
) e, por outro, o crescimento dos debates sobre o desenvolvimento
sustentável. A Agenda 2030 das Nações Unidas revela justamente a convergência
dos dois fenômenos, na medida em que construiu um conjunto de 169 metas
e centenas de indicadores para medir o desempenho em 17 Objetivos de
6 Para acesso aos rankings, ver: Worldwide Governance Indicators (https://info.worldbank.org/governance/wgi/),
Doing Business (http://www.doingbusiness.org) e o PISA/Avaliação Internacional dos Estudantes (https://www.
oecd.org/pisa/).
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Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os ODS significaram uma mudança normativa
e metodológica, tendo em vista o estabelecimento de metas globais como parte
de normas internacionais, em um movimento de “governança por números”
(Fukuda-Parr e McNeill 2019) ou “governança por indicadores” (Davis et al. 2012).
Essa lógica normativa não se restringe aos Estados e às políticas públicas
nacionais. A Agenda 2030 tem sido crescentemente apropriada por diferentes
atores, articulando-se em múltiplas escalas e institucionalidades — entre elas, os
sistemas de avaliação universitária. Dois dos principais rankings internacionais
de universidades introduziram a sustentabilidade como dimensão de avaliação,
apoiando-se conceitual e metodologicamente nos ODS: o QS Sustainability
Ranking e, particularmente, o Times Higher Education Impact Rankings, que
utiliza os 17 ODS como referência principal para definir critérios de impacto,
com base, entre outros critérios, na classificação bibliométrica de publicações
acadêmicas pela plataforma SciVal/Elsevier (Bédard-Vallée, James e Roberge 2023).
A adesão a esse tipo de avaliação tem crescido significativamente, sinalizando uma
reconfiguração dos modos pelos quais as universidades constroem legitimidade,
visibilidade internacional e prestígio acadêmico diante de agendas globais de
desenvolvimento (Smolennikov et al. 2024; Bautista-Puig, Orduña-Malea e Perez-
Esparrells 2021; De la Poza et al. 2021).
Esses instrumentos trazem contribuições relevantes: promovem maior
transparência e comparabilidade entre instituições, incentivam a produção científica
vinculada a agendas sociais e oferecem subsídios para a gestão universitária
(Leal Filho et al. 2024; Smolennikov et al. 2024). No entanto, ao adotar os ODS
como referência estruturante de impacto social, os rankings de sustentabilidade
tendem a produzir invisibilidades sistemáticas na produção acadêmica. Áreas do
conhecimento com forte ancoragem local, produções em línguas não hegemônicas,
pesquisas de natureza teórica ou crítica e agendas que não se encaixam nas
taxonomias internacionais tendem a ser sub-representadas ou simplesmente
apagadas (Ndofirepi 2017; Lee e Naidoo 2021; Bautista-Puig, Orduña-Malea e Perez-
Esparrells 2021; De la Poza et al. 2021). O problema, portanto, não é apenas técnico,
é também político e epistemológico, pois a escolha dos ODS como parâmetro
de avaliação reflete disputas sobre o que conta como conhecimento relevante
e sobre quem define os critérios de impacto social na produção universitária
(Ndofirepi 2017; Leal Filho et al. 2024; Lee e Naidoo 2021).
A incorporação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como
referência estruturante dos rankings internacionais de sustentabilidade — e, mais
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recentemente, dos critérios de avaliação da CAPES no Brasil — pressupõe que
essa taxonomia seja capaz de captar adequadamente a diversidade da produção
acadêmica universitária. Ao transferir para o campo acadêmico as disputas
políticas e epistemológicas que marcaram a construção da própria Agenda 2030,
contudo, essa adoção pode produzir invisibilidades sistemáticas, sobretudo para
agendas de pesquisa vinculadas a contextos locais e ao Sul Global.
Diante disso, este artigo parte da seguinte questão de pesquisa: como os
rankings internacionais de sustentabilidade aplicados às universidades, ao
adotarem os ODS como referência estruturante de impacto social, tendem a
produzir invisibilidades sistemáticas na produção acadêmica universitária? Este
artigo busca demonstrar esse problema empiricamente, a partir da análise da
produção acadêmica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
entre 2017 e 2021. Para isso, aplicamos a metodologia de classificação temática
desenvolvida pela plataforma SciVal/Elsevier, a mesma empregada pelo THE
Impact Rankings, ao conjunto de dissertações e teses defendidas na universidade
no período. O objetivo geral, contudo, não é apenas replicá-la, mas testá-la, para
revelar o que ela captura, o que deixa de fora e por quê. Para tanto, construímos
strings de busca complementares para o ODS 17 — relativos a parcerias e meios
de implementação, explicitamente excluído da classificação bibliométrica da
Elsevier sob a justificativa de que remete à ação institucional e não à produção
acadêmica — e para o tema da desigualdade racial, que não teve indicadores
designados no ODS relativo às desigualdades (ODS 10). Frente à centralidade
do tema na realidade brasileira, o país anunciou formalmente a inclusão de um
novo Objetivo focado na igualdade étnico-racial (ODS 18) em 2023, conforme será
discutido adiante. Esses dois casos ilustram, de forma concreta, como escolhas
metodológicas aparentemente técnicas produzem exclusões com consequências
políticas e institucionais.
Além disso, a diversidade regional é um aspecto crucial a ser considerado
nesse debate. Universidades do Sul Global enfrentam contextos e desafios distintos
que podem não ser adequadamente capturados por indicadores padronizados
a partir da realidade de países do Norte Global. Nesse sentido, o caso da PUC-
SP oferece uma perspectiva situada para discutir os limites dos rankings de
sustentabilidade, contribuindo para uma reflexão mais ampla sobre como as
universidades podem engajar-se criticamente com esses instrumentos sem se
tornarem reféns de suas métricas.
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O artigo está organizado da seguinte forma: a próxima seção insere a Agenda
2030 no debate mais amplo sobre governança por indicadores, ressaltando
as disputas políticas e epistemológicas embutidas na definição de métricas
globais. Em seguida, discutimos a incorporação da sustentabilidade nos rankings
universitários internacionais, explorando seus alcances e limitações estruturais.
Finalmente, apresentamos a análise empírica da produção da PUC-SP, detalhando
os procedimentos metodológicos adotados — incluindo os testes com o ODS 17
e o ODS 18 — e destacando os principais achados, de modo a oferecer subsídios
tanto para a reflexão crítica quanto para o aprimoramento das práticas de avaliação
do impacto social e científico das universidades.
Sustentabilidade, governança por indicadores e a Agenda 2030
A consolidação da Agenda 2030 das Nações Unidas sinaliza a convergência
de duas tendências centrais da governança global contemporânea: a ascensão da
governança por números e a institucionalização da sustentabilidade como eixo
normativo. Conforme argumentam Broome e Quirk (2015), a governança por
números constitui um conjunto de práticas que traduzem valores normativos em
métricas comparativas — índices, benchmarks, rankings — capazes de induzir
comportamentos e estruturar prioridades políticas. Ao quantificar performances e
permitir comparações padronizadas, esses instrumentos operam como tecnologias
de poder indireto, produzindo regimes de visibilidade que orientam a ação política
sem necessidade de coerção direta. Para Davis et al. (2012), os indicadores atuam
na interseção entre conhecimento técnico e autoridade normativa, reconfigurando
processos decisórios, formas de contestação e hierarquias no sistema internacional.
No campo do desenvolvimento, esse modelo de governança à distância
adquiriu especial relevância, sustentado por uma retórica de objetividade e
neutralidade técnica. Um marco importante nesse processo foi a formulação dos
Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), em vigor entre 2000 e 2015.
Estruturados com base em metas quantificáveis e prazos definidos, os ODM
consolidaram a lógica da mensuração como instrumento central de coordenação
global, com escassa participação por parte dos países do Sul e predomínio dos
interesses dos países doadores (Garcia 2005). A Agenda 2030 retomou e ampliou
essa racionalidade ao estabelecer um aparato mais abrangente de 169 metas e
mais de 230 indicadores para os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
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(ODS). Embora seu processo de formulação tenha sido mais aberto — com
maior participação de países do Sul Global e consulta a atores da sociedade civil
—, a definição dos indicadores revelou uma tensão persistente entre técnica e
política (Fukuda-Parr e McNeill 2019). A escolha dos indicadores se mostrou um
campo decisivo de disputa, condicionando a interpretação e a operacionalização
das metas. Ao analisar o processo de inclusão de um objetivo específico para
a redução das desigualdades, Fukuda-Parr (2019), por exemplo, demonstra
que as tensões entre países do Norte e do Sul Global não se encerraram na
definição formal do ODS 10 e de suas metas, tendo se prolongado na seleção dos
indicadores utilizados para mensurá-las, com implicações diretas sobre o alcance
e o sentido normativo do objetivo (por exemplo, como será discutido adiante,
com a exclusão de indicadores específicos para avaliação e monitoramento de
desigualdades étnico-raciais).
O fenômeno da “governança por números”, impulsionado por uma explosão
de auditorias e pela multiplicação de benchmarks produzidos por organizações
internacionais e ONGs desde os anos 1980, ampliou a influência desses dispositivos
sobre o comportamento de Estados e atores transnacionais (Broome e Quirk 2015).
Conceitos sociais complexos, como desenvolvimento e democracia, tendem a
ser transformados em categorias fixas e descontextualizadas, gerando aparente
autoridade técnica e neutralidade objetiva. No entanto, como alertam Fukuda-Parr
e McNeill (2019), a escolha dos indicadores, frequentemente apresentada como
uma decisão técnica, é, em sua essência, profundamente política. Essa tensão
entre a aparente objetividade dos números e a dimensão política subjacente não
desaparece quando os indicadores migram do plano estatal para outros setores:
ao contrário, tende a se aprofundar, na medida em que os critérios de avaliação
são transferidos para contextos institucionais com lógicas, missões e realidades
muito distintas daquelas que os originaram.
A difusão dos ODS tem extrapolado o âmbito estatal e se manifestado
em múltiplas escalas e setores. No setor privado, sua adoção tem ocorrido
frequentemente sob uma lógica reputacional, muitas vezes instrumentalizando
os indicadores para estratégias de sustentabilidade que não desafiam estruturas
produtivas ou lógicas extrativistas (Silva 2021). No plano municipal, cidades
têm incorporado os ODS em seus planejamentos estratégicos e em Revisões
Locais Voluntárias (RLVs), mas enfrentam entraves metodológicos, financeiros
e de coordenação entre escalas (Suri, Miraglia e Ferrannini 2021 ; Ortiz-Moya e
Reggiani 2023; Ojeda-Medina 2020). No campo universitário, rankings como o
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THE Impact Rankings e o QS Sustainability introduzem uma nova gramática de
avaliação institucional baseada em indicadores de impacto social (De la Poza et
al. 2021). Esses instrumentos propõem mensurar o alinhamento das instituições
de ensino superior com os ODS, considerando aspectos como pesquisa, extensão
universitária, políticas institucionais e práticas de governança.
É precisamente nesse ponto que a tensão entre objetividade dos números
e a arbitrariedade de algumas escolhas se torna mais consequente para as
universidades. Ao adotar os ODS como referência estruturante, esses rankings
definem o que conta como impacto social, transferindo para o campo acadêmico
as disputas políticas e controvérsias que marcaram a própria construção da
Agenda 2030. O próprio processo de construção da Agenda 2030 foi inerentemente
político, marcado por disputas e conflitos sobre o que seria incluído ou excluído,
conforme demonstrado na literatura (Fukuda-Parr e McNeill 2019; Winkler
e Satterthwaite 2017; Lezama 2019). Ao ser transposto para a avaliação do
impacto social da produção acadêmica das universidades, áreas do conhecimento,
tradições epistemológicas e agendas de pesquisa que não se encaixam nos
marcos normativos da Agenda 2030 tornam-se, por essa lógica, academicamente
invisíveis. Essa dinâmica é particularmente problemática para universidades
do Sul Global, cujas produções frequentemente dialogam com contextos locais,
línguas não hegemônicas e questões que escapam às taxonomias construídas a
partir de realidades dos países desenvolvidos, conforme discutiremos adiante.
A inclusão da sustentabilidade nos rankings universitários
internacionais: impacto e limitações
A expansão dos ODS para o campo universitário se insere em um processo
mais amplo de proliferação de rankings internacionais de universidades que,
nas últimas duas décadas, transformaram os modos pelos quais as instituições
de ensino superior constroem legitimidade, competem por recursos e definem
suas estratégias institucionais. Os rankings universitários modernos têm raízes
nos Estados Unidos, onde exercícios nacionais de classificação existem desde
1895, mas a era dos rankings globais é geralmente associada ao lançamento do
Academic Ranking of World Universities (ARWU) em 2003, desenvolvido pela
Universidade Jiao Tong de Xangai a partir de uma missão do governo chinês
para criar “universidades de classe mundial” (Gadd 2021; Leal Filho et al. 2024).
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Em seguida, a britânica Times Higher Education (THE) lançou seu ranking em
2004 e a Quacquarelli Symonds (QS) em 2010 (Wolhuter 2022; Ndofirepi 2017).
A rápida expansão desses instrumentos está associada, por um lado, à adoção
da lógica de mercado no ensino superior a partir dos anos 1990, com ênfase em
competição e performatividade (Wolhuter 2022); por outro, à demanda crescente
por transparência e prestação de contas no uso de recursos públicos, que levou
gestores universitários a adotarem um “modelo de gestão por métricas” baseado
em pontuações quantitativas (Leal Filho et al. 2024; De la Poza et al. 2021).
De acordo com Mukhlisakhon (2025), rankings internacionais como o THE
Impact Rankings e o QS Sustainability têm se consolidado como forças que
moldam identidades institucionais, influenciam políticas nacionais e intensificam
a competição global no ensino superior. Seu impacto vai além da visibilidade, ao
afetar a alocação de recursos, o planejamento estratégico e a percepção pública
das universidades. Para instituições bem posicionadas, os efeitos positivos incluem
crescimento associado ao aumento de matrículas, maior volume de publicações
científicas, expansão da cooperação internacional e captação ampliada de recursos
para pesquisa (Mukhlisakhon 2025). Os rankings fomentaram ainda maior
transparência dos dados e viabilizaram a comparação entre instituições de ensino
superior, o que antes não poderia ser feito de forma tão sistematizada. Cabe
também destacar que a existência dos rankings tornou-se um mecanismo relevante
para a tomada de decisão de jovens na escolha de onde estudar e proporcionou a
sistematização de indicadores que contribuem para a autorreflexão institucional,
embasando a gestão universitária (Marcovitch 2018; Righetti e Gamba 2019).
Contudo, a literatura aponta que os rankings tendem a apresentar uma lógica
predominantemente unidimensional (Gadd 2021), com foco excessivo na quantidade
de publicações (Bautista-Puig, Orduña-Malea e Perez-Esparrells 2021; De la Poza et
al. 2021) e pouca capacidade de captar a relevância das instituições em atividades
de ensino, extensão e em pesquisas não mainstream (Lee e Naidoo 2021; Wolhuter
2022; Ndofirepi 2017; Gadd 2021; Daraio, Bonaccorsi e Simar 2015). Além disso,
são frequentemente criticados por limitações de robustez estatística em seus
métodos de classificação e por indicadores fortemente dependentes do tamanho
e da área de atuação das universidades, favorecendo instituições de grande porte
e com produção concentrada em determinados campos (Axel-Berg 2018).
Nos primeiros anos, entre 2004 e 2010, os rankings tenderam a concentrar
sua avaliação em indicadores bibliométricos, priorizando a quantidade de
publicações, sua presença em revistas de prestígio e o número de citações de
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artigos científicos. A partir da década de 2010, passou a ocorrer uma maior
diferenciação entre os rankings, com a incorporação de métodos híbridos de
avaliação, como pesquisas de opinião, além da disseminação de rankings por
área de conhecimento e com foco em especificidades regionais, como no caso
do QS América Latina (Righetti 2018).
Entre 2012 e 2015, a criação dos princípios do Manifesto de Leiden, da
Declaração de São Francisco sobre Avaliação de Pesquisa (DORA) e do relatório
The Metric Tide representou avanços importantes na reflexão sobre o uso de
métricas na avaliação do desempenho das universidades. O Manifesto de Leiden
(Hicks et al. 2015) reúne dez princípios para o uso responsável de indicadores,
defendendo que métricas quantitativas apenas complementem a revisão por
pares, sejam ajustadas à missão institucional e baseadas em dados transparentes,
de modo a evitar distorções na ciência. A DORA, lançada em 2012 e divulgada
em 2013, conclama agências, universidades e periódicos a abandonar o uso do
Journal Impact Factor como atalho de qualidade e a julgar cada trabalho por seus
próprios méritos, incorporando critérios amplos e qualitativos em decisões de
financiamento, contratação e promoção (DORA s.d.). Já The Metric Tide (Wilsdon
et al. 2015), relatório independente para o governo britânico, cunhou a expressão
responsible metrics ao examinar as correlações entre métricas e avaliação por
pares, recomendando a criação de mecanismos de governança institucional e o
monitoramento de efeitos indesejados da quantificação na pesquisa. Em síntese,
apesar das diferentes premissas, é possível identificar pontos comuns nesses
referenciais: a recomendação de que dados quantitativos e bibliométricos sejam
elementos complementares, e não únicos, da avaliação; a importância de métricas
qualitativas; transparência dos indicadores; foco na pesquisa de acesso aberto;
alinhamento com a missão institucional; e prioridade aos efeitos econômicos e
sociais das pesquisas, incluindo sua capacidade de contribuir para a inclusão,
diversidade e sustentabilidade.
A partir de 2018, os rankings começaram a incorporar métricas de impacto
social diretamente conectadas ao debate sobre sustentabilidade. No caso do
THE, isso ocorreu mediante a criação do THE Impact Rankings, que parte dos
17 ODS para mapear o desempenho das universidades em relação às metas de
sustentabilidade. O ranking foi testado em 2019 e teve seus primeiros resultados
apresentados em 2020. Os dados de 2021 mostram a participação de 38 instituições
brasileiras, dentre 1.117 no mundo. Para serem avaliadas, as universidades não
precisam responder aos indicadores de todos os 17 ODS: a participação pode
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ser feita com a seleção de três ODS de escolha da instituição, sendo a resposta
ao ODS 17 obrigatória (THE 2021). Já o QS lançou em 2021 o ranking QS ESG
Metrics e, após críticas ao viés empresarial do conceito de ESG, o reconfigurou
em 2022 como QS Sustainability Rankings, com metade da avaliação vinculada
ao impacto social e metade ao impacto ambiental. Embora ambos os rankings
tenham convergido nos critérios voltados à sustentabilidade, suas metodologias
gerais diferem substancialmente (Mukhlisakhon 2025): o THE atribui pesos
elevados ao ambiente de ensino, à pesquisa e ao impacto científico, enquanto
o QS mantém peso relevante para a reputação acadêmica e empregatícia7.
Esses desenvolvimentos revelam uma tensão que percorre toda a trajetória
dos rankings universitários e que se intensifica com a incorporação dos ODS:
a coexistência entre a suposta objetividade das métricas e o caráter situado e
interessado das escolhas que definem o que será mensurado. Nesse sentido, a
objetividade dos indicadores tende a eclipsar o fato de que os próprios objetos
das métricas são resultado de seleções orientadas por prioridades e interesses
específicos. Quando os ODS são adotados como parâmetro estruturante de impacto
social, essa tensão adquire novas camadas. A definição do que conta como
pesquisa relevante passa a ser determinada por uma taxonomia construída no
âmbito de negociações interestatais, com lógicas, prioridades e conflitos próprios,
e frequentemente transposta para o contexto universitário com limitada mediação
crítica. A próxima seção examina empiricamente essa transposição e explora as
consequências para a visibilidade da produção acadêmica das universidades.
Metodologia: mapeamento bibliométrico da produção acadêmica
da PUC-SP
Este estudo realizou um mapeamento bibliométrico da produção acadêmica
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no período de 2017
7 O THE utiliza 18 indicadores distribuídos em cinco pilares, atribuindo pesos elevados e equilibrados ao
ambiente de ensino, ambiente de pesquisa e qualidade/impacto da pesquisa (30% cada), enquanto a perspectiva
internacional e o engajamento com a indústria recebem menor peso. Já o QS baseia-se em seis indicadores
principais, com forte ênfase na reputação acadêmica (30%) e de empregadores (15%), somando 45% da
pontuação. Outros critérios incluem relação professor/aluno (20%), citações por professor (20%) e, mais
recentemente, indicadores de rede de pesquisa internacional, empregabilidade e sustentabilidade (5% cada). As
diferenças metodológicas criam vantagens distintas para tipos variados de instituições: universidades intensivas
em pesquisa tendem a se beneficiar mais do peso da pesquisa no THE, enquanto instituições menores ou em
desenvolvimento podem explorar métricas de internacionalização e proporção docente/discente no QS para
ganhos iniciais. (Mukhlisakhon 2025)
Rankings internacionais de sustentabilidade: reflexões sobre os limites da Agenda 2030 [...]
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a 2021, com base nos critérios de classificação temática desenvolvidos pela
plataforma Elsevier (SciVal) para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
(ODS). A escolha desse recorte institucional não é arbitrária. O debate sobre o
impacto social da produção acadêmica tem ganhado centralidade no contexto
brasileiro, como evidenciam as discussões recentes no âmbito da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) sobre a definição
de critérios para esse quesito no sistema de avaliação dos Programas de Pós-
Graduação. O documento Diretrizes comuns da avaliação de permanência dos
programas de pós-graduação stricto sensu, para o próximo ciclo avaliativo (2025-
2028) introduz uma abordagem multidimensional que inclui, explicitamente, os
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como dimensão avaliativa — inclusive
o ODS 18 relativo à igualdade étnico-racial, adotado voluntariamente pelo Brasil
em 2023 (CAPES 2025). Essa convergência entre a avaliação nacional e os critérios
de sustentabilidade dos rankings internacionais torna ainda mais urgente o
debate sobre as invisibilidades produzidas pela taxonomia dos ODS. Analisar a
produção de uma universidade a partir dos mesmos parâmetros utilizados por
rankings internacionais de sustentabilidade permite confrontar esses critérios
com a realidade institucional brasileira.
Construímos uma base de dados com todas as dissertações de mestrado e teses
de doutorado defendidas na PUC-SP entre 2017 e 2021, a partir do Repositório de
Teses e Dissertações da universidade
8
. A opção por dissertações e teses, em vez
de artigos indexados em bases internacionais, é deliberada, pois permite capturar
uma parcela significativa da produção acadêmica que permanece invisível em
plataformas como o SciVal, cuja cobertura se restringe a periódicos indexados.
Trata-se, portanto, de uma escolha metodológica que já incorpora uma dimensão
crítica em relação aos critérios dos rankings.
A classificação dos trabalhos foi realizada com base nas strings de busca
disponibilizadas pela Elsevier em 2022, associadas a 16 dos 17 ODS — as mesmas
utilizadas como referência pelo THE Impact Rankings9. Vale mencionar que a
metodologia do SciVal deliberadamente não incluiu strings de busca para o ODS
17, sob a justificativa de estar associado sobretudo a dinâmicas institucionais.
Essas strings, elaboradas a partir do julgamento de especialistas e cientistas de
dados, foram traduzidas para o português e aplicadas aos resumos das dissertações
8 Informações públicas disponíveis em: https://tede2.pucsp.br/
9 Disponível em: https://scival.com/sdg
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e teses da PUC-SP10. Para garantir consistência e replicabilidade, desenvolvemos
um algoritmo em Python com funções específicas para cada ODS, responsável
por identificar automaticamente os trabalhos associados a cada objetivo. Foram
realizados testes de validação, com o objetivo de assegurar a robustez e a acurácia
da classificação.
Este estudo replica a metodologia da Elsevier para testar seus limites e
dialogar com as críticas discutidas anteriormente. Para isso, adotamos dois
movimentos complementares. O primeiro consiste na construção de strings de
busca para o ODS 17, relativo a parcerias e meios de implementação, pois sua
exclusão tende a invisibilizar trabalhos sobre cooperação internacional, ajuda
ao desenvolvimento, parcerias multilaterais e governança global, temas centrais
em áreas como Relações Internacionais e Gestão Pública. O segundo movimento
consiste na construção de strings voltadas à desigualdade étnico-racial, tema não
incluído nos indicadores selecionados para o ODS sobre desigualdades (ODS 10)
e, consequentemente, também não incluído nos descritores da Elsevier. O Brasil
reconheceu formalmente essa lacuna ao propor, em 2023, o ODS 18, dedicado
à igualdade étnico-racial11.
Os termos de busca foram construídos de forma exploratória, tendo como
referência as metas oficiais da Agenda 2030 para o ODS 17 (United Nations 2015)
e as dimensões consolidadas pela Câmara Temática para o ODS 18, coordenada
pelo Ministério da Igualdade Racial, com participação do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) (CNODS 2025)12. Os resultados
do mapeamento foram disponibilizados por meio de uma interface pública de
busca, que permite identificar a vinculação de dissertações e teses da PUC-SP
10 Disponíveis em: https://github.com/j3ffsilva/TedeODS/tree/main/expressões_de_busca
11 A inclusão da questão racial na Agenda 2030 ganhou forma concreta no Brasil em setembro de 2023, quando
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na abertura da 78ª Assembleia Geral da ONU, anunciou
a adoção voluntária pelo Brasil de um 18º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável dedicado à igualdade
étnico-racial, com a criação de uma Câmara Temática no âmbito da Comissão Nacional dos ODS (CNODS),
coordenada pelo Ministério da Igualdade Racial e pelo Ministério dos Povos Indígenas (CNODS 2023).
Essa iniciativa responde a uma lacuna também discutida na literatura: apesar da promessa de "não deixar
ninguém para trás", marcadores de raça e etnia foram sistematicamente omitidos dos indicadores práticos
dos ODS (Winkler e Satterthwaite 2017; Lezama 2019; Walker et al. 2023), reforçando invisibilidades que
afetam desproporcionalmente populações negras e indígenas. A proposta de um ODS 18 busca corrigir esse
apagamento, tornando obrigatória a coleta de dados desagregados por raça e etnia e a responsabilização
institucional pelo enfrentamento do racismo estrutural (Oliveira, Oliveira e Mueller 2025).
12 As strings de busca para os ODS17 e 18 estão também disponíveis em: https://github.com/j3ffsilva/TedeODS/
tree/main/expressões_de_busca
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aos ODS. Do ponto de vista técnico, a interface web está integrada a uma API
RESTful, responsável por viabilizar consultas dinâmicas e estruturadas aos
metadados das produções acadêmicas. A metodologia adotada busca, portanto,
não apenas mapear a produção da PUC-SP, mas evidenciar os mecanismos pelos
quais os critérios dos rankings produzem invisibilidades na produção acadêmica.
Embora aplicada aqui a uma instituição específica, a abordagem é transferível a
qualquer universidade, o que a torna um instrumento potencialmente útil tanto
para a gestão institucional quanto para a crítica comparada dos parâmetros de
avaliação adotados pelos rankings internacionais de sustentabilidade.
Apresentação e análise dos resultados
Entre 2017 e 2021, a PUC-SP produziu 4.956 dissertações e teses. Deste
total, 3.861 — ou 78% do corpus — não foram classificadas como vinculadas a
nenhum dos 16 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável contemplados pela
metodologia da Elsevier. Esse dado, por si só, antecipa o principal achado desta
análise: a maior parte da produção acadêmica da universidade permanece invisível
aos instrumentos utilizados pelos rankings internacionais de sustentabilidade.
Figura 1. Cobertura de classificação ODS – Elsevier (n=4.956)
Fonte: Elaboração própria.
Entre os 1.095 trabalhos classificados, a distribuição por ODS revela padrões
que refletem as áreas mais consolidadas da universidade. O ODS 16 (Paz, Justiça
e Instituições Eficazes) concentra 33,3% dos trabalhos relacionados, indicando a
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força do campo jurídico. O ODS 4 (Educação de Qualidade) aparece em segundo
lugar, com 23,7%, seguido do ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), com 15,6%. Completam
os destaques o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis, 11,4%) e o ODS 8
(Trabalho Decente e Crescimento Econômico, 10,7%). Em menor escala, aparecem
o ODS 5 (Igualdade de Gênero, 7,9%), o ODS 10 (Redução das Desigualdades,
4,7%) e o ODS 1 (Erradicação da Pobreza, 4,5%).
Figura 2. Distribuição dos 1.095 trabalhos classificados por ODS – Elsevier (n=1.095)
Fonte: Elaboração própria.
O resultado é consistente com a identidade institucional da PUC-SP, marcada
pela centralidade das áreas de direito, educação e saúde. A presença de agendas
ligadas à equidade e à justiça social — ainda que em menor volume — indica que
a universidade produz conhecimento relevante em dimensões frequentemente
sub-representadas nos rankings internacionais, que tendem a favorecer instituições
com produção concentrada nas ciências exatas e tecnológicas.
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Mais relevante do que essa distribuição, porém, é o que ela não mostra.
Os resultados descritos acima dizem respeito apenas ao que a metodologia da
Elsevier é capaz de capturar. A ausência de classificação para 78% dos trabalhos
admite à primeira vista a interpretação de que a produção acadêmica da PUC-SP
teria baixa relevância para os debates sobre sustentabilidade e impacto social.
O teste exploratório com as strings do ODS 17 e do ODS 18 aponta, contudo,
que o problema reside na invisibilidade gerada pelos próprios instrumentos de
mensuração e na definição do que conta como relevante para a sustentabilidade.
Essa limitação não é exclusiva da metodologia aqui replicada: ao comparar
diferentes abordagens bibliométricas de mapeamento dos ODS aplicadas a uma
mesma base, Armitage, Lorenz e Mikki (2020) encontraram sobreposição inferior
a 25% entre os conjuntos identificados e estimaram que cerca de 20% das
publicações em Ciências Sociais podem escapar a esse tipo de mapeamento.
A string construída para o ODS 17, contemplando termos como cooperação
internacional, governança global, multilateralismo, transferência de tecnologia
e ajuda ao desenvolvimento, identificou 25 trabalhos no corpus. O número é
modesto, mas não indica baixa produção sobre esses temas. Ele revela, sobretudo,
a dificuldade de operacionalizar bibliometricamente um objetivo cujos temas são
intrinsecamente relacionais e institucionais, resistindo à captura por palavras-
chave isoladas, o que em parte explica, mas não justifica, sua exclusão da
taxonomia da Elsevier. Os termos que mais frequentemente geraram matches
incluem variações de “comércio internacional”, “cooperação internacional”,
“governança global” e “sistema financeiro internacional”. Já a string construída
para o ODS 18, com termos como racismo, racismo estrutural, discriminação racial,
população negra, quilombola, ações afirmativas, negritude e interseccionalidade,
identificou 157 trabalhos, ou 3,2% do corpus total, sem nenhuma sobreposição
com os identificados pela string do ODS 17. Esse resultado coloca o ODS 18 na
4ª posição entre todos os objetivos mapeados.
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Figura 3. Distribuição por ODS – Elsevier e Desigualdade Racial (ODS 18)
Fonte: elaboração própria.
O resultado é expressivo, evidenciando simultaneamente a presença consistente
desse tema na produção acadêmica da PUC-SP e sua completa invisibilidade na
metodologia da Elsevier, que não contempla a dimensão racial nos descritores
do ODS 10 (Redução das Desigualdades). Trabalhos como Trajetórias de jovens
negros egressos do ensino superior e desigualdade social, Igualdade e cotas raciais
e Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo e o Processo de escolarização
de mulheres negras na Primeira República — produzidos respectivamente nas
áreas de sociologia, direito e educação — ilustram a diversidade disciplinar dessa
produção e a relevância social dos temas abordados. O fato de que pesquisas
sobre cotas raciais, desigualdade educacional e história da população negra
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brasileira não sejam captadas por nenhum ODS não reflete ausência de impacto
social, reflete uma lacuna na própria arquitetura dos indicadores.
Tomados em conjunto, os dois movimentos complementares identificaram
182 trabalhos adicionais — 25 relacionados ao ODS 17 e 157 à desigualdade
racial, sem sobreposição entre os dois conjuntos. Mais relevante do que o número
absoluto, porém, é o que a verificação cruzada com a classificação original da
Elsevier revela: dos 182 trabalhos, ao menos 119 não haviam sido classificados
por nenhum dos 16 ODS contemplados pela referida metodologia, ou seja, eram
invisíveis para os rankings antes da aplicação das strings complementares. A
distribuição temática dos 157 trabalhos identificados pela string da desigualdade
racial aprofunda esse argumento. A maior parte concentra-se em duas grandes
áreas: literatura e cultura afro-brasileira (32,5%) e educação e relações raciais
(29,9%), seguidas por direito e políticas públicas (14%). Essa distribuição revela
que a invisibilidade racial na taxonomia da Elsevier afeta transversalmente
áreas centrais da missão de uma universidade com perfil social e humanístico
como a PUC-SP. Pesquisas sobre cotas raciais, implementação da Lei 10.639/03,
identidade de jovens negros no ensino superior, racismo institucional e literatura
afro-brasileira tratam de questões com alta relevância social e forte ancoragem
na realidade brasileira, e são invisíveis a uma taxonomia construída a partir de
negociações intergovernamentais que não incorporaram a dimensão étnico-racial
como elemento de uma agenda de sustentabilidade.
O caso do ODS 17 evidencia um problema de natureza distinta, mas igualmente
estrutural. A dificuldade de operacionalizar bibliometricamente um objetivo
centrado em parcerias e meios de implementação não é uma limitação técnica
menor — ela exclui sistematicamente um campo inteiro de pesquisa. Dos 25
trabalhos identificados, os temas predominantes incluem comércio internacional,
cooperação Sul-Sul, governança global e regulação financeira internacional:
agendas centrais em programas como Relações Internacionais e Gestão Pública,
e com clara relevância para os debates sobre desenvolvimento sustentável. A
decisão da Elsevier de associar o ODS 17 exclusivamente à dimensão institucional
reflete uma interpretação específica do objetivo que, transposta para os rankings,
apaga contribuições relevantes de áreas como Relações Internacionais.
Esses achados nos permitem reafirmar com base empírica o argumento
central do artigo. O problema dos rankings acadêmicos de sustentabilidade é
que as escolhas que orientam esses instrumentos produzem invisibilidades que
tendem a apagar justamente as agendas de pesquisa mais vinculadas a contextos
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locais, a realidades do Sul Global e a questões que não foram incorporadas ao
consenso normativo da Agenda 2030. O resultado, no plano dos rankings, é uma
imagem distorcida da produção acadêmica universitária, que não reflete ausência
de impacto social, mas ausência de encaixe em uma taxonomia construída sem
considerar realidades como a brasileira.
Considerações finais
Retomando a questão de pesquisa formulada na introdução, este artigo analisou
como os rankings internacionais de sustentabilidade aplicados às universidades,
ao adotarem os ODS como referência estruturante de impacto social, tendem
a produzir invisibilidades sistemáticas na produção acadêmica universitária.
A análise da produção da PUC-SP entre 2017 e 2021 permitiu demonstrar esse
problema empiricamente, a partir de duas dimensões complementares.
A primeira dimensão diz respeito ao que a metodologia da Elsevier captura.
Dos 4.956 trabalhos analisados, apenas 1.095 — ou 22,1% do corpus — foram
classificados como vinculados a algum ODS. Esse resultado levanta questões
sobre a adequação dos instrumentos de mensuração, pois não é razoável supor
que 78% da produção acadêmica de uma universidade com forte perfil social e
humanístico seja irrelevante para os debates sobre sustentabilidade e impacto
social.
A segunda dimensão diz respeito ao que essa metodologia deliberadamente
exclui. A construção de strings complementares para o ODS 17 e para o ODS 18,
relativo à questão étnico-racial, revelou que agendas de pesquisa inteiras — sobre
cooperação internacional, governança global, racismo estrutural, cotas raciais e
história da população negra — permanecem completamente invisíveis para os
rankings. No caso da desigualdade racial, 157 trabalhos foram identificados com
strings relativamente simples, evidenciando que a omissão não é uma limitação
técnica, mas uma escolha com consequências políticas e institucionais. Essa
invisibilidade revela tensões presentes no próprio processo de negociação dos
ODS, no qual demandas do Sul Global por objetivos específicos, como a igualdade
étnico-racial, não foram incorporadas à Agenda 2030.
Esses achados têm implicações para diversos atores. Para os criadores dos
rankings, os resultados apontam para a necessidade de maior transparência e
pluralismo metodológico. Isso envolve tornar as escolhas que orientam a construção
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das strings de busca públicas e revisáveis, incorporar perspectivas do Sul Global
na definição dos descritores e reconhecer que a ausência de classificação não
equivale à ausência de impacto. Para as universidades brasileiras, tendo em
vista que os rankings de sustentabilidade se consolidaram como fato social com
impacto real sobre reputação, financiamento e cooperação internacional, a questão
é como se engajar com esses instrumentos de modo a preservar pensamento
crítico e produção de conhecimento relevante para a sociedade na qual estão
inseridas. A metodologia desenvolvida neste estudo oferece uma contribuição
para essa reflexão: ao aplicar as próprias strings da Elsevier ao repositório
institucional e construir strings complementares para as lacunas identificadas,
as universidades podem produzir um diagnóstico preciso do que os rankings
enxergam e do que sistematicamente invisibilizam em sua produção, base para
um engajamento crítico com esses instrumentos sem renunciar a temas relevantes
para sua identidade acadêmica.
Esse debate é especialmente relevante no contexto da pós-graduação brasileira,
no momento em que as instituições de ensino superior e a própria CAPES discutem
critérios de avaliação de impacto social como elemento central da avaliação
dos programas de pós-graduação. É fundamental dimensionar o impacto social
da produção acadêmica, afinal, a produção de conhecimento da universidade
precisa estar em diálogo com a sociedade. A questão é como desenvolver formas
de mensurar e avaliar esse impacto que consigam enxergar uma pluralidade de
temas, campos e especificidades de países do Sul Global que não são capturados
pelos instrumentos dominantes da agenda global. As diretrizes recentes da CAPES
incorporam esse tensionamento, pois ao mesmo tempo em que incluem os ODS
como referência para a avaliação de impacto dos programas de pós-graduação,
reafirmam outras formas de avaliação, como os casos de impacto, a extensão
universitária e a popularização da ciência (CAPES 2025).
Por fim, este estudo aponta para uma agenda de pesquisa em aberto. Em
primeiro lugar, resta investigar outras invisibilidades além das aqui documentadas.
Este foi um exercício exploratório a partir de dois elementos relativamente
modestos: um objetivo já existente formalmente na Agenda 2030, o ODS 17, e
outro reconhecido formalmente pelo Brasil, o ODS 18. Há, no entanto, inúmeras
outras perspectivas invisibilizadas que merecem atenção — como as demandas
por um ODS 19 dedicado à cultura, à arte e à comunicação, ou por um ODS 20
voltado aos direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, entre outras
possibilidades de temas não cobertos pelos instrumentos dominantes. Em segundo
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lugar, resta investigar em que medida as invisibilidades aqui documentadas para
a PUC-SP — e eventualmente essas outras perspectivas — se reproduzem em
outras universidades brasileiras e do Sul Global, o que transformaria os achados
deste estudo de um caso institucional em evidência de um padrão estrutural.
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