
Elisa Lobo Pereira; Allana Camini Moreira de Souza
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 21, n. 1, e1611, 2026
19-26
Quadro 1 — Interação entre compromissos internacionais e
condicionantes domésticos no caso brasileiro
Dimensão analítica Evidências no caso brasileiro Jogos de dois níveis
Engajamento
internacional (Nível 1)
Ratificação da CNUDM e da MARPOL;
participação ativa nas negociações do
Tratado Global sobre Plásticos; defesa de
acordo flexível e juridicamente vinculante
Indica compromisso formal do
Brasil com o regime internacional
e atuação ativa nas arenas
multilaterais
Estratégia negociadora
no nível internacional
Defesa de flexibilidade, transição justa
e atenção às capacidades nacionais;
proposta de fundo internacional e Aliança
de Catadores
Uso estratégico das limitações
domésticas para ampliar margem de
barganha no nível I
Arcabouço
normativo doméstico
(alinhamentos)
PNRS; vedação ao descarte em
corpos d’água; Lei nº 15.088/2025;
PLs nº 2524/2022 e nº 258/2024; Lei de
Incentivo à Reciclagem
Demonstra alinhamento formal
entre compromissos internacionais
e legislação interna
Capacidade de
implementação
(contradições)
Baixa taxa de reciclagem (1,28%);
ineficiência da gestão de resíduos;
destinação inadequada em lixões e aterros
Evidencia dificuldades de
transposição do nível I para o
nível II
Preferências e
coalizões domésticas
(Nível II)
Dependência de plásticos descartáveis;
pressão da indústria petroquímica,
agronegócio e setor de descartáveis
Coalizões com poder de veto
restringem compromissos mais
ambiciosos
Conflitos entre
discurso e prática
Brasil como 8° maior poluidor plástico
global; despejo de 1,3 milhão de
toneladas/ano no oceano
Revela desalinhamento entre
compromissos assumidos e
resultados efetivos
Decisões domésticas
contraditórias
Permissão para importação de resíduos
plásticos, vista como retrocesso
Exemplo concreto de prevalência
de interesses domésticos sobre
objetivos ambientais de longo-prazo
Win-set brasileiro Arcabouço legal robusto, porém
implementação parcial e tensionada
Win-set restrito: compromissos
internacionais são internalizados de
forma seletiva
Resultado da interação
entre níveis
Alinhamento normativo coexistindo com
baixa efetividade prática
Confirma a lógica dos jogos de dois
níveis no caso brasileiro
Fonte: elaborado pelas autoras, 2026.
O Quadro 1 oferece uma síntese interpretativa do percurso analítico
desenvolvido ao longo do artigo, ao evidenciar que a resposta brasileira à poluição
marinha por plásticos é marcada por uma combinação de convergência normativa
e baixa efetividade prática. De um lado, o quadro mostra que o Brasil apresenta
relevante engajamento internacional no nível I, expresso pela ratificação da
CNUDM e da MARPOL, pela participação ativa nas negociações do Tratado
Global sobre Plásticos e pela defesa de propostas como a transição justa, o fundo
internacional e a inclusão dos catadores no debate multilateral.