
Entre Rios e Contradições: As Hidrelétricas Sino-Brasileiras e a Dependência Energética (2015–2024)
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1581, 2025
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megaprojetos hidrelétricos entre 2015 e 2024. A escolha desse recorte temporal
justifica-se pelo fato de que, a partir de 2015, observa-se uma intensificação
significativa da presença de empresas chinesas no setor elétrico brasileiro:
somente naquele ano, os investimentos diretos da China no Brasil atingiram
US$ 7,9 bilhões, com forte concentração no setor de energia elétrica (Conselho
Empresarial Brasil–China 2024). Esse movimento é marcado por operações
de fusão e aquisição e por novos projetos vinculados ao discurso da transição
energética. Embora algumas iniciativas tenham raízes em anos anteriores, é
nesse período que se consolidam os marcos regulatórios, os acordos bilaterais
e os aportes financeiros que definem o atual perfil da presença chinesa no país.
A análise parte de um referencial teórico que articula a Ecologia Política latino-
americana, os estudos da dependência e as teorias críticas da hegemonia global,
especialmente na formulação de Robert Cox, para quem a hegemonia deve ser
compreendida como uma configuração histórica entre forças sociais, estruturas
materiais e instituições que moldam e estabilizam a ordem mundial, ao mesmo
tempo em que a tornam permeável a disputas e transformações (Cox 2021).
Busca-se compreender como a expansão chinesa não apenas reproduz padrões
históricos de subordinação do Brasil como economia semiperiférica3 e exportadora
de recursos estratégicos, mas também insere novas camadas de complexidade ao
processo, na medida em que mobiliza uma retórica de parceria e desenvolvimento
mútuo que mascara as assimetrias materiais e epistemológicas envolvidas.
Adicionalmente, o estudo se debruça sobre as formas de resistência territorial
emergentes nesses contextos de conflito. Essas resistências — protagonizadas
por povos indígenas, comunidades ribeirinhas, movimentos socioambientais e
redes de solidariedade transnacional — não apenas denunciam as violações em
curso, mas também propõem alternativas contra-hegemônicas de organização
social e política, fundadas na justiça ambiental, no direito à autodeterminação dos
povos e na valorização do pluriverso de saberes (Svampa 2019; Escobar 1995).
Do ponto de vista metodológico, o artigo adota uma abordagem qualitativa
baseada em estudos de caso das usinas de São Manoel, Teles Pires e Tapajós.
A pesquisa fundamenta-se no levantamento, sistematização e análise de dados
empíricos sobre investimentos chineses no setor energético brasileiro, articulados
3 O conceito de “economia semiperiférica”, oriundo da teoria do sistema-mundo de Wallerstein (1974), designa
países que ocupam uma posição intermediária entre o centro capitalista e a periferia dependente. No caso
do Brasil, essa condição combina dependência estrutural — como a exportação de commodities — com certa
industrialização e inserção nos mercados globais. Embora permita relativa autonomia, essa posição também
os torna vulneráveis a formas sutis de dominação, como a financeirização e a subordinação tecnológica.