Helena Luiza Matuo Rodrigues; Fernando Romero Wimer
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Entre Rios e Contradições:
As Hidrelétricas Sino-Brasileiras e a
Dependência Energética (2015–2024)
Between Rivers and Contradictions:
Sino-Brazilian Hydropower and
Energy Dependence (2015–2024)
Entre ríos y contradicciones:
La hidroelectricidad chino-brasileña y la
dependencia energética (2015-2024)
DOI: 10.21530/ci.v20n3.2025.1581
Helena Luiza Matuo Rodrigues
1
Fernando Romero Wimer
2
Resumo
Este artigo analisa os investimentos chineses no setor energético
brasileiro sob as lentes da Ecologia Política e da Economia Política
Internacional, a partir de uma abordagem qualitativa baseada
em estudos de caso das usinas de São Manoel, Teles Pires e
Tapajós. O trabalho se fundamenta no levantamento sistemático
e na análise de dados empíricos sobre investimentos chineses no
Brasil, articulados a fontes primárias institucionais e documentais,
como relatórios do CEBC, ANEEL, FIDH, EJAtlas e do Ministério
Público Federal. Investiga-se de que modo megaprojetos sustentados
pelo discurso da transição energética e da cooperação Sul-Sul
1 Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Integração
Latino-Americana (UNILA). (matuohelena@gmail.com). ORCID: https://orcid.
org/0009-0004-8648-0945.
2 Doutor em História e Pós-doutorado em Ciências Humanas e Sociais pela
Universidade de Buenos Aires (UBA). Professor de graduação e pós-graduação
em Relações Internacionais da Universidade Federal da Integração Latino-
Americana (UNILA). (fernandogromero@gmail.com). ORCID: https://orcid.
org/0000-0002-9254-6494.
Artigo submetido em 21/05/2025 e aprovado em 22/12/2025.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
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Este é um artigo
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ISSN 2526-9038
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reproduzem dinâmicas de dependência, despossessão territorial e injustiça ambiental.
Argumenta-se que o greenwashing opera como estratégia geopolítica e retórica legitimadora
desses empreendimentos, enquanto comunidades indígenas e organizações transnacionais
articulam formas de resistência frente à violação de direitos. Sustenta-se, por fim, que a
transição energética conduzida sob a lógica do capitalismo verde aprofunda a mercantilização
da natureza, evidenciando a necessidade de abordagens ancoradas na justiça ambiental e
na soberania dos territórios.
Palavras-Chave: Investimentos chineses, Ecologia política, Justiça ambiental, Greenwashing,
Transição energética.
Abstract
This article examines Chinese investments in Brazil’s energy sector through the lenses
of Political Ecology and International Political Economy, adopting a qualitative approach
based on case studies of the São Manoel, Teles Pires, and Tapajós hydropower projects.
The analysis is grounded in the systematic collection and examination of empirical data
on Chinese investments in Brazil, combined with primary institutional and documentary
sources, including reports from CEBC, ANEEL, FIDH, EJAtlas, and the Federal Public
Prosecutor’s Office. The article investigates how megaprojects framed by the discourse
of green transition and South–South cooperation reproduce dynamics of dependence,
territorial dispossession, and environmental injustice. It argues that greenwashing operates
as a geopolitical and rhetorical strategy that legitimizes these ventures, while Indigenous
communities and transnational organizations mobilize resistance against rights violations.
Finally, it contends that an energy transition conducted under the logic of green capitalism
deepens the commodification of nature, underscoring the need for approaches grounded
in environmental justice and territorial sovereignty.
Keywords: Chinese investments, Political ecology, Environmental justice, Greenwashing,
Energy transition.
Resumen
Este artículo analiza las inversiones chinas en el sector energético brasileño desde las
perspectivas de la Ecología Política y la Economía Política Internacional, a partir de un
enfoque cualitativo basado en estudios de caso de las centrales hidroeléctricas de São
Manoel, Teles Pires y Tapajós. El estudio se fundamenta en el levantamiento sistemático y
el análisis de datos empíricos sobre las inversiones chinas en Brasil, articulados con fuentes
primarias institucionales y documentales, como informes del CEBC, ANEEL, FIDH, EJAtlas
y del Ministerio Público Federal. Se investiga cómo los megaproyectos sustentados en el
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discurso de la transición energética y de la cooperación Sur–Sur reproducen dinámicas de
dependencia, desposesión territorial e injusticia ambiental. Se argumenta que el greenwashing
opera como una estrategia geopolítica y retórica de legitimación de estos emprendimientos,
mientras que comunidades indígenas y organizaciones transnacionales articulan formas de
resistencia frente a la vulneración de derechos. Finalmente, se sostiene que la transición
energética conducida bajo la lógica del capitalismo verde profundiza la mercantilización
de la naturaleza, evidenciando la necesidad de enfoques anclados en la justicia ambiental
y la soberanía de los territorios.
Palabras clave: Inversiones chinas, Ecología política, Justicia ambiental, Greenwashing,
Transición energética.
1) Introdução
Nas últimas décadas, a ascensão da China como potência econômica e política
global tem reconfigurado as dinâmicas do sistema internacional, sobretudo
no âmbito das relações Sul–Sul. Essa reconfiguração não se limita ao campo
diplomático, mas se materializa por meio de intensos fluxos de capitais, tecnologia
e infraestrutura, cujos impactos são particularmente visíveis em países da América
Latina. No Brasil, esse movimento se expressa na crescente presença de empresas
estatais chinesas em setores estratégicos, como o energético, especialmente por
meio da aquisição de ativos de geração, transmissão e distribuição de eletricidade
(Cariello 2023).
A expansão do capital chinês no setor elétrico brasileiro ocorre, em muitos
casos, sob o marco discursivo da transição energética e do desenvolvimento
sustentável, reforçando a narrativa de que essa presença contribuiria para uma
matriz de baixo carbono e alinhada às metas climáticas globais, conforme dados
da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel 2023). Projetos considerados
“limpos” e “verdes”, como grandes empreendimentos hidrelétricos distribuídos por
diferentes regiões do Brasil — com destaque para a região Norte, o Centro-Oeste e
o Sudeste — têm sido associados à intensificação de conflitos socioambientais, à
ausência de consulta livre, prévia e informada a povos indígenas e comunidades
tradicionais e à violação sistemática de direitos territoriais e ambientais (Fédération
Internationale des Droits Humains 2019; Acselrad 2010; Svampa 2019).
Este artigo propõe-se a analisar criticamente os investimentos chineses
no setor energético brasileiro, com ênfase na atuação das estatais chinesas em
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megaprojetos hidrelétricos entre 2015 e 2024. A escolha desse recorte temporal
justifica-se pelo fato de que, a partir de 2015, observa-se uma intensificação
significativa da presença de empresas chinesas no setor elétrico brasileiro:
somente naquele ano, os investimentos diretos da China no Brasil atingiram
US$ 7,9 bilhões, com forte concentração no setor de energia elétrica (Conselho
Empresarial Brasil–China 2024). Esse movimento é marcado por operações
de fusão e aquisição e por novos projetos vinculados ao discurso da transição
energética. Embora algumas iniciativas tenham raízes em anos anteriores, é
nesse período que se consolidam os marcos regulatórios, os acordos bilaterais
e os aportes financeiros que definem o atual perfil da presença chinesa no país.
A análise parte de um referencial teórico que articula a Ecologia Política latino-
americana, os estudos da dependência e as teorias críticas da hegemonia global,
especialmente na formulação de Robert Cox, para quem a hegemonia deve ser
compreendida como uma configuração histórica entre forças sociais, estruturas
materiais e instituições que moldam e estabilizam a ordem mundial, ao mesmo
tempo em que a tornam permeável a disputas e transformações (Cox 2021).
Busca-se compreender como a expansão chinesa não apenas reproduz padrões
históricos de subordinação do Brasil como economia semiperiférica3 e exportadora
de recursos estratégicos, mas também insere novas camadas de complexidade ao
processo, na medida em que mobiliza uma retórica de parceria e desenvolvimento
mútuo que mascara as assimetrias materiais e epistemológicas envolvidas.
Adicionalmente, o estudo se debruça sobre as formas de resistência territorial
emergentes nesses contextos de conflito. Essas resistências — protagonizadas
por povos indígenas, comunidades ribeirinhas, movimentos socioambientais e
redes de solidariedade transnacional — não apenas denunciam as violações em
curso, mas também propõem alternativas contra-hegemônicas de organização
social e política, fundadas na justiça ambiental, no direito à autodeterminação dos
povos e na valorização do pluriverso de saberes (Svampa 2019; Escobar 1995).
Do ponto de vista metodológico, o artigo adota uma abordagem qualitativa
baseada em estudos de caso das usinas de São Manoel, Teles Pires e Tapajós.
A pesquisa fundamenta-se no levantamento, sistematização e análise de dados
empíricos sobre investimentos chineses no setor energético brasileiro, articulados
3 O conceito de “economia semiperiférica”, oriundo da teoria do sistema-mundo de Wallerstein (1974), designa
países que ocupam uma posição intermediária entre o centro capitalista e a periferia dependente. No caso
do Brasil, essa condição combina dependência estrutural — como a exportação de commodities — com certa
industrialização e inserção nos mercados globais. Embora permita relativa autonomia, essa posição também
os torna vulneráveis a formas sutis de dominação, como a financeirização e a subordinação tecnológica.
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a fontes primárias institucionais e documentais, como relatórios do Conselho
Empresarial Brasil–China, da Agência Nacional de Energia Elétrica, da Fédération
Internationale des Droits Humains, do Environmental Justice Atlas e do Ministério
Público Federal. O referencial teórico é mobilizado como instrumento analítico
para a interpretação crítica dos dados empíricos, e não como metodologia de
pesquisa em si.
Nesse sentido, a análise busca iluminar as disputas em curso não apenas no
campo econômico ou energético, mas também no plano simbólico e civilizacional.
O artigo está estruturado em seis seções, incluindo esta introdução. A segunda
seção apresenta o marco teórico que sustenta a análise. A terceira seção examina
a atuação chinesa no setor elétrico brasileiro. A quarta seção problematiza os
impactos territoriais, sociais e ambientais desses empreendimentos. A quinta seção
analisa o uso do greenwashing4 nos investimentos chineses em energia. Por fim, as
considerações finais apresentam as conclusões e perspectivas analíticas do estudo.
2) Hegemonia, dependência e Ecologia Política
Esta pesquisa se ancora em uma abordagem crítica multidimensional,
articulando os elementos teóricos da Ecologia Política latino-americana, a Economia
Política Internacional e os estudos sobre hegemonia, dependência e resistência
territorial. O objetivo é compreender os efeitos dos investimentos chineses no setor
energético brasileiro à luz das dinâmicas globais de poder, das transformações na
ordem internacional e da persistência de conflitos socioambientais invisibilizados
por narrativas desenvolvimentistas e sustentáveis.
Robert Cox (2021) fornece as bases teóricas para uma análise crítica da
hegemonia no sistema internacional. Para o autor, a hegemonia não se sustenta
apenas em estruturas materiais, mas se estabelece por meio da articulação entre
forças sociais, instituições e ideias, formando uma configuração histórica que molda
e estabiliza a ordem mundial. Ao destacar a historicidade e a mutabilidade das
estruturas de poder, Cox permite compreender que os investimentos estrangeiros
— como os chineses no Brasil — não operam de forma neutra, mas expressam
4 O termo “greenwashing” refere-se à prática de empresas ou governos promoverem discursos e imagens de
sustentabilidade ambiental sem que suas ações concretas correspondam efetivamente a esses compromissos.
No contexto dos investimentos chineses no setor energético brasileiro, o greenwashing pode ocorrer quando
megaprojetos com impactos socioambientais significativos são apresentados como contribuições à transição
energética e ao desenvolvimento sustentável, mascarando contradições estruturais e interesses geoeconômicos.
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disputas entre projetos de ordem mundial, incluindo formas de dominação
consentida, coerção e resistência.
A partir de uma leitura materialista dialética da Economia Política Internacional
e a Geopolítica contemporânea, Romero Wimer (2024) interpreta a ascensão da
China como parte de um processo de transição hegemônica, marcado por disputas
entre potências e reconfiguração das relações centro-periferia. Sua análise parte de
uma concepção de imperialismo que ultrapassa os moldes clássicos, destacando
as dimensões objetivas — como o desenvolvimento das forças produtivas e a
expansão de capitais — e subjetivas — como a capacidade de difusão ideológica e
construção de consenso — da dominação interestatal. A China, ao mesmo tempo em
que se afirmar como potência emergente, reproduz mecanismos típicos do capital
imperialista, especialmente ao consolidar o controle sobre recursos estratégicos em
países periféricos. No Brasil, essa lógica se manifesta – entre outros aspectos – na
aquisição de ativos no setor elétrico, na exportação de tecnologias e na articulação
com elites nacionais para garantir acesso privilegiado a territórios e insumos.
David Harvey (2004), por sua vez, contribui com o conceito de ajuste espacial
do capital (spatial fix), mostrando como o capital busca resolver suas crises por
meio da expansão territorial. No caso brasileiro, a presença de empresas estatais
chinesas em áreas estratégicas como a Amazônia representa uma tentativa de
fixação do capital por meio de megaprojetos energéticos. Esses empreendimentos
do gigante oriental são promovidos como sustentáveis, mas reforçam relações
assimétricas de dependência e acumulação por espoliação.
No campo da Ecologia Política latino-americana, Maristella Svampa (2019) propõe
o conceito de neoextrativismo, entendido como a intensificação da exploração de
recursos naturais sob novos discursos legitimadores — como os de inclusão social
ou sustentabilidade. Segundo a autora, trata-se de uma nova forma de dependência
que, ao invés de romper com a lógica colonial, a atualiza. O giro ecoterritorial surge,
nesse contexto, como um movimento de resistência protagonizado por comunidades
tradicionais, que se contrapõem às formas hegemônicas de desenvolvimento e
reivindicam a autodeterminação e a justiça ambiental.
Henri Acselrad (2010) complementa essa leitura ao formular a noção de
justiça ambiental seletiva, que descreve como os impactos negativos de grandes
empreendimentos são direcionados a populações vulneráveis — sobretudo
indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais — sistematicamente excluídas
dos processos decisórios. Tais territórios se transformam em zonas de sacrifício,
legitimadas por discursos técnicos e políticas centralizadas.
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A crítica à colonialidade do saber é aprofundada por Arturo Escobar (1995),
que propõe o conceito de pluriverso como contraponto ao universalismo ocidental
do desenvolvimento. Para Escobar, os discursos de modernização ignoram os
múltiplos modos de vida e conhecimentos dos povos locais, promovendo uma
homogeneização epistemológica que apaga as alternativas socioterritoriais.
Assim, o marco teórico aqui mobilizado permite analisar os investimentos
chineses no setor energético brasileiro como parte de uma disputa global por
poder, recursos e legitimidade. Mais que fluxos econômicos, esses investimentos
expressam formas de dominação, resistência e reconfiguração das periferias
dentro da ordem capitalista contemporânea. Ao mesmo tempo, a articulação entre
hegemonia, dependência e ecologia política permite evidenciar que os projetos
energéticos não operam apenas no plano técnico, mas incidem diretamente
sobre os territórios, os modos de vida e os horizontes civilizatórios em disputa.
3) Investimentos chineses no Brasil no setor energético
A ascensão econômica da China entre 1980 e 2010, marcada por taxas médias
de crescimento próximas a 10% ao ano, foi acompanhada por um processo de
internacionalização que reconfigurou a divisão internacional da produção e
ampliou sua projeção política em instituições multilaterais e negociações bilaterais
(Cintra e Pinto 2017; Romero Wimer 2024). Esse movimento não ocorreu de forma
espontânea, mas foi sustentado por estratégias estatais deliberadas voltadas à
expansão externa do capital chinês.
Como argumenta Naughton (2021), essa internacionalização esteve ancorada
em políticas governamentais conhecidas como go out, que combinaram abertura
seletiva, apoio financeiro de bancos de desenvolvimento e busca por recursos
estratégicos no exterior, com destaque para o setor energético. A energia passou
a ocupar posição central na estratégia de internacionalização chinesa, tanto por
razões de segurança energética quanto pela necessidade de sustentar o ritmo de
industrialização doméstica e a expansão de cadeias produtivas globais lideradas
por empresas estatais e privadas chinesas.
Nesse contexto, o setor energético respondeu de forma relativamente estável
por cerca de 15% a 20% do investimento direto externo (IDE) chinês no período
recente, consolidando-se como um eixo estrutural da internacionalização do capital
chinês. Dados oficiais do Ministério do Comércio da China (Ministry of Commerce
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of the People’s Republic of China), do Escritório Nacional de Estatísticas da China
(National Bureau of Statistics of China) e da Conferência das Nações Unidas sobre
Comércio e Desenvolvimento (United Nations Conference on Trade and Development)
indicam que, desde 2010, a participação da energia no total do IDE chinês manteve-se
elevada, mesmo em contextos de retração global (UNCTAD 2024).
Gráfico 1: IED da China no mundo (2010–2024), participação do setor energético
0%
2%
4%
6%
8%
10%
12%
14%
16%
18%
20%
0
50
100
150
200
250
2010 2013 2016 2018 2020 2022 2023 2024
IED total da China (US$ bi) IED em energia (US$ bi)
% Energia no total
Fonte: Elaboração própria a partir de MOFCOM (2024), NBS (2024) e UNCTAD (2024).
O Gráfico 1 evidencia que, a partir de 2010, o setor energético passou a
representar aproximadamente 16% do IDE total chinês, atingindo 19% em 2013
e 17% em 2016, período correspondente ao auge do ciclo expansivo. Mesmo em
anos de desaceleração, como 2018 e 2020, a participação do setor permaneceu
próxima a 16%, confirmando sua centralidade na estratégia global chinesa. Essa
resiliência reflete tanto imperativos de segurança energética quanto a continuidade
de projetos associados à transição energética e à expansão de infraestrutura
elétrica em países periféricos (Naughton 2021; Gallagher e Irwin 2015).
Entre 2018 e 2024, observam-se oscilações nos fluxos globais de IDE chinês
explicadas por fatores internos e externos. Após o pico de 2016, quando os
investimentos alcançaram US$ 196,1 bilhões, o governo chinês adotou medidas de
controle da saída de capitais, reduzindo o ritmo de expansão externa. A pandemia
de covid-19 aprofundou essa tendência, embora o setor energético tenha continuado
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a absorver aportes expressivos. Em 2024, verifica-se uma recuperação parcial dos
investimentos em energia, indicando que a retração observada nos anos anteriores foi
conjuntural e não alterou a prioridade estrutural atribuída ao setor (UNCTAD 2024).
Na América Latina, bases independentes de monitoramento dos investimentos
chineses indicam que o Brasil consolidou-se como o principal destino do
investimento direto chinês entre 2005 e 2024. Nesse período, energia e mineração
concentraram mais da metade dos aportes regionais, evidenciando que os
recursos naturais permanecem no núcleo da estratégia chinesa para a região.
Esse padrão reforça a inserção latino-americana — e brasileira em particular —
como fornecedora de insumos estratégicos, em consonância com uma lógica de
especialização primário-exportadora e de dependência estrutural (Svampa 2019).
A concentração dos investimentos chineses em setores intensivos em recursos
naturais, como energia e mineração, revela que, apesar da retórica de cooperação
Sul–Sul e desenvolvimento sustentável, a inserção chinesa na América Latina
tende a reproduzir assimetrias históricas nas cadeias globais de valor. No caso
brasileiro, essa dinâmica cria condições favoráveis à ampliação da infraestrutura
energética, mas também aprofunda vulnerabilidades associadas à dependência
tecnológica, à financeirização de ativos estratégicos e à intensificação de conflitos
socioambientais, temas que serão aprofundados nas seções seguintes.
Gráfico 2 – IED chinesa na América Latina por setor (2005–2024)
Fonte: Elaboração própria a partir de Monitor of Chinese OFDI in Latin America and the Caribbean (Dussel Peters
2023) e Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL 2016).
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O Gráfico 2 evidencia a evolução setorial do investimento direto externo
(IED) chinês na América Latina entre 2005 e 2024. Observa-se que o total regional
apresentou crescimento significativo até meados da década de 2010, seguido por
oscilações e retrações nos anos posteriores. Apesar dessas variações, a composição
setorial manteve-se relativamente estável ao longo do período analisado: a
energia respondeu, em média, por cerca de metade dos aportes, enquanto a
mineração concentrou parcela expressiva dos investimentos, confirmando que
os fluxos chineses na região permanecem estruturalmente ancorados em setores
intensivos em recursos naturais. Manufatura, infraestrutura e serviços, embora
tenham registrado alguma expansão pontual, mantiveram participação marginal
no conjunto do IED chinês.
Como argumenta Naughton (2021), a América Latina consolidou-se como
um destino privilegiado para investimentos chineses voltados à garantia de
insumos estratégicos, refletindo prioridades associadas à segurança energética e ao
abastecimento de matérias-primas. Esse padrão contrasta com a atuação chinesa em
outras regiões, nas quais há maior peso relativo de investimentos em manufatura
e infraestrutura logística. Nesse sentido, a inserção latino-americana reforça uma
posição periférica nas cadeias globais de valor, marcada pela especialização em
atividades primário-exportadoras (Svampa 2019).
Em termos analíticos, esse padrão revela duas dimensões centrais. Primeiro,
embora a China diversifique globalmente seus investimentos, na América Latina
mantém um perfil concentrado em energia e mineração, reproduzindo assimetrias
históricas e reforçando a dependência regional em setores de baixo conteúdo
tecnológico (Gallagher e Irwin 2015). Segundo, essa configuração não decorre
exclusivamente da estratégia chinesa, mas também da ausência de políticas
regionais capazes de condicionar a entrada de capital externo à geração de ganhos
tecnológicos e industriais locais, conforme já apontado em análises estruturais
sobre a inserção latino-americana na economia global (CEPAL 2016).
No caso brasileiro, a inserção do capital chinês no setor energético foi
viabilizada pela dinâmica política interna e pela convergência entre projetos de
desenvolvimento estatal e estratégias de abertura ao investimento estrangeiro.
A partir de 2003, o governo Luiz Inácio Lula da Silva reposicionou a infraestrutura
energética como eixo da política de crescimento, fortalecendo o papel do Estado
por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da
Petrobras e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de
Minas e Energia. O lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC),
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em 2007, consolidou o modelo de megaprojetos hidrelétricos na Amazônia e no
Centro-Oeste, criando condições institucionais e territoriais que, posteriormente,
favoreceriam a entrada de empresas chinesas no setor (Almeida 2018; Fearnside
2016).
Durante o segundo mandato de Lula (2007–2010) e o primeiro governo Dilma
Rousseff (2011–2014), aprofundou-se a cooperação energética sino-brasileira
por meio de acordos bilaterais e mecanismos institucionais, como a Comissão
Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN). Esse
processo favoreceu a entrada de empresas estatais chinesas, como State Grid e
China Three Gorges, em consórcios com companhias brasileiras do setor elétrico,
consolidando a presença chinesa em segmentos estratégicos da geração e da
transmissão de energia (CEPAL 2016; CEBC 2020).
A partir de 2012, a Agência Nacional de Energia Elétrica estruturou uma política
de concessões e leilões que ampliou a participação de investidores estrangeiros,
sobretudo no segmento de transmissão. Esse movimento culminou, em meados
da década de 2010, na aquisição de ativos estratégicos por empresas chinesas,
incluindo grandes usinas hidrelétricas e redes de transmissão, reforçando o
controle estrangeiro sobre infraestruturas críticas do sistema elétrico brasileiro
(ANEEL 2023; Garcia 2020; CEBC 2024). O ciclo de expansão foi interrompido
a partir de 2016, em razão da crise política e fiscal, mas a presença chinesa já
se encontrava consolidada, sustentada por um arcabouço regulatório favorável
e por processos de liberalização subsequentes.
Tabela 1: Evolução dos IED chineses no Brasil, 2007–2024
Ano Nº de projetos Valor do IED
(US$ bi) Observações
2007 5 1,6 Entrada inicial em energia elétrica
2010 11 5,9 Expansão com foco em petróleo e hidro
2013 18 7,1 Consolidação da State Grid e CTG
2015 21 7,9 Pico do ciclo expansivo (hidrelétrica + petróleo)
2016 22 8,3 Máximo da série; fusões e aquisições
2018 20 8 Estabilidade em valores elevados
2019 17 3,1 Início da retração (crise + política)
continua...
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Ano Nº de projetos Valor do IED
(US$ bi) Observações
2020 14 1,9 Pandemia reduz fluxos, foco renováveis
2021 15 1,3 Menor patamar da série
2022 16 1,5 Ligeira recuperação
2023 29 1,73 Retomada com diversificação em solar e eólica
2024 39 4,18 Crescimento expressivo; setor elétrico lidera
(34% dos aportes, US$ 1,43 bi)
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Conselho Empresarial Brasil–China (CEBC 2024), Ministry of
Commerce of the People’s Republic of China (MOFCOM 2024) e National Bureau of Statistics of China (NBS 2024).
A Tabela 1 evidencia os ciclos de entrada do investimento direto externo (IED)
chinês no Brasil entre 2007 e 2024. O período de expansão acelerada entre 2010
e 2016, quando os investimentos passaram de cerca de US$ 2 bilhões para mais
de US$ 8 bilhões, não pode ser explicado apenas pelo dinamismo da economia
chinesa. Esse movimento coincide com políticas domésticas voltadas à expansão
da infraestrutura, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os
leilões de energia conduzidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica, que
estruturaram uma abertura regulatória favorável à entrada de capitais externos no
setor elétrico (Garcia 2020; CEBC 2020). Esse arranjo institucional criou condições
para a aquisição de ativos estratégicos por empresas estatais chinesas, como
State Grid e China Three Gorges, reforçando uma lógica de dependência na qual
o Brasil viabiliza a entrada do capital, enquanto o controle das infraestruturas
permanece majoritariamente em mãos estrangeiras (Aguilera 2021).
Entre 2017 e 2018, a relativa estabilidade dos fluxos sugere a consolidação
da presença chinesa no setor energético brasileiro, mas também evidencia a
ausência de estratégias nacionais capazes de condicionar esses investimentos à
geração de ganhos tecnológicos locais ou ao fortalecimento da indústria doméstica.
O biênio 2019–2021 expõe, de forma mais clara, a vulnerabilidade estrutural desse
modelo: os fluxos de capital retraem-se em função de fatores internos, como a
crise política e a incerteza regulatória, e externos, como as tensões comerciais
entre China e Estados Unidos, demonstrando que o Brasil não controla o ritmo
nem a direção dos investimentos que recebe (Gallagher e Myers 2020).
A retomada observada em 2023, com 29 projetos registrados e maior peso
relativo de investimentos em fontes renováveis, introduziu uma narrativa de
continuação.
Helena Luiza Matuo Rodrigues; Fernando Romero Wimer
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1581, 2025
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diversificação do portfólio chinês no país (CEBC 2024). Em 2024, esse movimento
ganhou maior densidade: 39 projetos somaram US$ 4,18 bilhões, com o setor
elétrico respondendo por aproximadamente 34% dos aportes (US$ 1,43 bilhão),
confirmando a centralidade da energia na estratégia chinesa de inserção produtiva
no Brasil e indicando que a recuperação dos fluxos não foi meramente conjuntural,
mas estruturalmente ancorada nesse setor (CEBC 2024).
Assim, a Tabela 1 confirma que os fluxos de IED chinês no Brasil não seguem
uma trajetória linear, mas revelam ciclos marcados pela combinação entre decisões
domésticas de abertura regulatória e fatores globais que escapam ao controle
do Estado brasileiro. Mais do que oscilações conjunturais, os dados apontam
para a persistência de um padrão estrutural de dependência, no qual o Brasil se
mantém como receptor de capitais e fornecedor de recursos estratégicos, enquanto
a China consolida ganhos em autonomia energética e controle tecnológico.
O Gráfico 3 reforça essa leitura ao apresentar a composição setorial dos
investimentos chineses no Brasil entre 2007 e 2024. No acumulado do período,
aproximadamente 45% dos aportes destinaram-se ao setor de eletricidade e
30% à extração de petróleo, enquanto manufatura, mineração, infraestrutura,
agricultura e outros setores apresentaram participação residual. Essa concentração
setorial confirma que a presença chinesa no país permanece fortemente orientada
para setores estratégicos intensivos em recursos naturais, reforçando assimetrias
produtivas e limitando os efeitos multiplicadores sobre a estrutura industrial
brasileira (CEBC 2024)
Gráfico 3: Divisão dos investimentos chineses no Brasil
por grupo de atividade econômica, 2007–2024
Fonte: Elaboração própria sobre a base de CEBC (2024).
Entre Rios e Contradições: As Hidrelétricas Sino-Brasileiras e a Dependência Energética (2015–2024)
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1581, 2025
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Essa concentração confirma a centralidade da energia e dos recursos naturais
na estratégia chinesa de inserção produtiva no Brasil, reforçando a leitura de
que o objetivo não se limita ao retorno econômico de curto prazo, mas envolve
o controle de ativos críticos e de longo prazo, como infraestruturas energéticas
e cadeias estratégicas de fornecimento (Aguilera 2021; Garcia 2020). Ainda
que haja sinais recentes de diversificação para segmentos como energia solar,
eólica e alguns ramos da manufatura, a lógica estrutural permanece ancorada
no domínio das cadeias de energia e de recursos estratégicos, em consonância
com a agenda chinesa de segurança energética e transição verde.
No que se refere às modalidades de ingresso, o Gráfico 4 evidencia duas
fases distintas. No período acumulado entre 2007 e 2022, predominavam os
projetos greenfield (49%) e as operações de fusões e aquisições (M&A), que
responderam por 42% dos investimentos, enquanto as joint ventures apresentavam
participação residual (9%). Esse padrão combinava a aquisição de ativos já
existentes com a instalação seletiva de novos empreendimentos, sobretudo em
geração e transmissão de energia.
A partir de 2023, contudo, observa-se uma mudança significativa na estratégia
de ingresso. Os projetos greenfield passaram a responder pela ampla maioria
dos empreendimentos e do capital investido, enquanto as operações de M&A
recuaram de forma expressiva e as joint ventures praticamente desapareceram. Em
2024, essa tendência se consolidou, com predomínio de novos empreendimentos
voltados à energia renovável e à infraestrutura elétrica, indicando uma estratégia
orientada à ampliação da autonomia operacional das empresas chinesas e à
redução da dependência de parceiros locais (CEBC 2024).
Essa inflexão revela um deslocamento da lógica centrada na aquisição de
ativos existentes para uma estratégia de moldagem direta da expansão setorial
brasileira. Em termos críticos, trata-se de um perfil híbrido: concentrado em
setores estratégicos e crescentemente orientado a projetos greenfield, o que reforça
a natureza geoeconômica da presença chinesa no país, associando rentabilidade
econômica ao controle direto de infraestruturas críticas (Aguilera 2021).
Helena Luiza Matuo Rodrigues; Fernando Romero Wimer
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1581, 2025
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Gráfico 4: Modalidades de ingresso dos investimentos chineses no Brasil:
comparação entre 2007–2022 e 2023–2024
Fonte: Elaboração própria sobre a base de CEBC (2024).
As Tabelas 2 e 3 reforçam essa leitura ao evidenciar a centralidade estrutural
do petróleo e das hidrelétricas no portfólio chinês no setor energético brasileiro,
que juntos concentram a maior parcela dos aportes entre 2011 e 2024. No recorte
empresarial, destacam-se as estatais State Grid e China Three Gorges, o que
confirma que os investimentos não se restringem a participações financeiras, mas
envolvem o controle direto de ativos estratégicos, como linhas de transmissão,
usinas hidrelétricas e campos energéticos relevantes (Garcia 2020; CEBC 2024).
Esse padrão pode ser interpretado à luz da contribuição de David Harvey
(2004; 2015), para quem a expansão territorial do capital e a incorporação de
novos espaços produtivos operam como mecanismos de reorganização espacial
voltados à absorção de excedentes. Nesse sentido, o Brasil converte-se em
espaço privilegiado para a fixação do capital em setores intensivos em recursos
naturais, reforçando sua condição dependente e ampliando as zonas de sacrifício
socioambiental associadas a grandes empreendimentos energéticos (Svampa
2019; Escobar 1995; Acselrad 2010).
Embora se observe expansão recente em fontes renováveis, como projetos
solares e eólicos, os efeitos multiplicadores sobre a indústria nacional permanecem
limitados, em razão da elevada dependência de equipamentos importados e
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da frágil articulação com cadeias produtivas domésticas. No plano político-
regulatório, intensificaram-se debates sobre salvaguardas para infraestruturas
críticas, envolvendo órgãos de controle e regulação do setor elétrico, o que reflete
a tensão permanente entre a atração de capitais externos e a preservação da
autonomia tecnológica e geopolítica do país.
Assim, a dependência excessiva de investimentos estrangeiros —
particularmente quando concentrados em uma única origem — tende a aprofundar
assimetrias estruturais e a limitar as margens de soberania econômica e política
do Brasil. Para evitar que a cooperação se converta em dependência estrutural,
torna-se necessário vincular os investimentos externos a mecanismos efetivos de
transferência tecnológica, estímulo à indústria nacional, exigências regulatórias
e salvaguardas socioambientais. Somente sob essas condições os fluxos de
investimento direto externo poderão alinhar-se a um projeto de desenvolvimento
efetivamente sustentável (Svampa 2019).
Tabela 2: Investimento Direto Externo da China no setor elétrico brasileiro,
por principais empresas (2011–2024)
Empresa Valor dos investimentos (US$ bi) Participação no total
State Grid 30,1 42,00%
CNOOC 12,5 17,40%
Sinopec 9,6 13,40%
Three Gorges 8,8 12,30%
Demais 10,5 14,90%
Total 71,5 100,00%
Fonte: Elaboração própria a partir de Garcia (2020) e Conselho Empresarial Brasil–China (CEBC 2024).
Tabela 3: Investimento Direto Externo da China no setor elétrico brasileiro,
por subsetor (2011–2024)
Subsetor Valor dos investimentos (US$ bi) Participação
Petróleo 27,3 38,20%
Hidrelétricas 13,8 19,30%
Linhas transmissão 10,5 14,70%
continua...
Helena Luiza Matuo Rodrigues; Fernando Romero Wimer
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Subsetor Valor dos investimentos (US$ bi) Participação
Termoelétricas 2,1 2,90%
Eólica 5,3 7,40%
Solar 4,2 5,90%
Não especificado 8,3 11,60%
Total 71,5 100%
Fonte: Elaboração própria a partir de Garcia (2020), Conselho Empresarial Brasil–China (CEBC 2024), Agência
Nacional de Energia Elétrica (ANEEL 2023) e Empresa de Pesquisa Energética (EPE 2023).
4) Impactos Socioambientais e Resistências aos Investimentos
Chineses no Brasil
Os investimentos chineses no setor energético brasileiro evidenciam
contradições profundas entre a ampliação da infraestrutura e a reprodução de
impactos socioambientais historicamente associados a grandes projetos energéticos.
Embora esses empreendimentos sejam frequentemente apresentados como
vetores de desenvolvimento e de transição energética, seus efeitos territoriais
revelam padrões persistentes de degradação ambiental, violação de direitos e
aprofundamento de desigualdades estruturais.
A dependência tecnológica constitui um dos eixos centrais dessa problemática.
A forte presença de equipamentos importados, especialmente nos segmentos de
transmissão de energia e de redes inteligentes, limita a autonomia tecnológica
do Brasil e reforça assimetrias produtivas e políticas. Essa dependência reduz
os efeitos multiplicadores dos investimentos sobre a indústria nacional e amplia
a vulnerabilidade do país diante de decisões externas relacionadas às cadeias
estratégicas de fornecimento (Garcia 2020; CEBC 2024).
A construção de grandes empreendimentos energéticos também tem sido
associada a impactos socioambientais significativos. Projetos hidrelétricos de
grande porte, embora frequentemente justificados pelo argumento do interesse
nacional e da segurança energética, tendem a concentrar seus benefícios em
grandes consumidores industriais e em centros urbanos, enquanto seus custos
ambientais e sociais recaem de forma desproporcional sobre povos indígenas,
comunidades ribeirinhas e populações tradicionais. Esse padrão se manifesta de
continuação.
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forma clara em empreendimentos como São Manoel e Teles Pires, localizados
na região amazônica, marcados por conflitos territoriais, degradação ambiental
e ausência de consulta livre, prévia e informada.
A inclusão do Complexo Tapajós em programas federais de planejamento
energético ilustra a contradição entre a retórica da sustentabilidade e a continuidade
de práticas extrativistas. Mesmo quando enquadrados no discurso da “energia limpa”
ou da “transição verde”, esses projetos reproduzem uma lógica de despossessão
territorial e injustiça ambiental, priorizando megaprojetos em detrimento dos
direitos e modos de vida das populações afetadas (Acselrad 2010; Svampa 2019).
Essas dinâmicas podem ser interpretadas à luz do conceito de “geografia
do conflito”, formulado por Acselrad (2010), segundo o qual os riscos e danos
ambientais são sistematicamente deslocados para territórios ocupados por grupos
socialmente vulnerabilizados. Nesse contexto, o discurso desenvolvimentista atua
como instrumento de legitimação de processos de exclusão e de aprofundamento
das assimetrias de poder entre investidores, Estado e comunidades locais.
A resistência a esses empreendimentos tem se intensificado ao longo
da última década. Povos indígenas, comunidades ribeirinhas e movimentos
socioambientais têm se mobilizado local e nacionalmente para contestar a expansão
de megaprojetos associados ao capital chinês. Na Amazônia brasileira, o povo
Munduruku desempenha papel central nessas mobilizações, especialmente em
oposição a projetos hidrelétricos nos rios Teles Pires e Tapajós, denunciando
violações de direitos territoriais, danos ambientais e a inexistência de processos
adequados de consulta.
A Usina Hidrelétrica São Manoel, localizada no rio Teles Pires, na divisa entre
Mato Grosso e Pará, exemplifica essas tensões. O empreendimento é controlado
pela China Three Gorges Corporation, por meio de sua subsidiária no Brasil, e tem
sido alvo de ações e recomendações do Ministério Público Federal, que apontam
violações ao direito à consulta livre, prévia e informada de povos indígenas e
impactos irreversíveis sobre o rio e os ecossistemas associados (MPF 2019; EJAtlas
2023). Situação semelhante é observada na Usina Hidrelétrica Teles Pires, onde
a participação do capital chinês em infraestruturas associadas à transmissão de
energia tem sido acompanhada por denúncias de destruição de sítios sagrados,
contaminação ambiental e conflitos territoriais, documentados por organizações
da sociedade civil e órgãos de controle (CEBC 2020; ISA 2022).
Esses casos revelam que a resistência aos investimentos chineses no setor
energético brasileiro se estrutura em torno de três eixos principais: conflitos
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socioambientais decorrentes da degradação ecológica; disputas territoriais
envolvendo terras indígenas e tradicionais; e questionamentos mais amplos
sobre os modelos de desenvolvimento e governança energética. Movimentos
como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) têm desempenhado
papel relevante na articulação dessas críticas em âmbito nacional, defendendo
a energia como um direito coletivo e propondo alternativas baseadas na justiça
social e ambiental.
Em síntese, a expansão dos investimentos chineses no setor energético
brasileiro não pode ser compreendida apenas a partir de seus efeitos econômicos
imediatos. Ela se insere em disputas mais amplas sobre território, soberania
e desenvolvimento, nas quais a ampliação da infraestrutura convive com a
intensificação de conflitos socioambientais e com a reprodução de padrões de
dependência. Esses elementos reforçam a necessidade de marcos regulatórios que
priorizem a autonomia tecnológica, a proteção dos direitos territoriais e a justiça
ambiental como pilares de um projeto energético verdadeiramente sustentável.
Gráfico 5: Setores de Conflitos do investimento chinês
na América Latina (2020-2023)
Fonte: Elaboração própria a partir de Environmental Justice Atlas (EJAtlas 2023) e Fédération Internationale des
Droits Humains (FIDH 2019).
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Gráfico 6: Percentual de casos envolvendo empresas chinesas
por cada tipo de força social subalterna na América Latina
Fonte: Elaboração própria a partir de Environmental Justice Atlas (EJAtlas 2023) e Fédération Internationale des
Droits Humains (FIDH 2019).
A análise complementar do Gráfico 6 evidencia os principais atores sociais
em resistência aos investimentos chineses no setor energético. As comunidades
indígenas lideram os conflitos registrados, seguidas por sindicatos de trabalhadores
e organizações não governamentais ambientalistas. Esses dados confirmam que os
megaprojetos associados ao capital chinês frequentemente colidem com direitos
territoriais e ambientais, como no caso emblemático do Complexo Tapajós, no
Pará, onde o povo Munduruku denuncia a ausência de consulta livre, prévia e
informada (EJAtlas 2023).
Além dos conflitos socioambientais, a dependência tecnológica aprofunda as
assimetrias estruturais associadas à inserção chinesa no setor energético brasileiro.
A forte presença de equipamentos importados, especialmente nos segmentos de
geração, transmissão e redes inteligentes, limita a autonomia decisória do país e
consolida relações assimétricas de longo prazo. Nesse sentido, os investimentos
diretos chineses em infraestrutura energética não apenas garantem o controle
de ativos estratégicos, mas também funcionam como mecanismo de abertura e
consolidação de mercados externos para a indústria chinesa de equipamentos
elétricos. Empresas estatais chinesas que passam a controlar ativos energéticos
em países latino-americanos tendem a adquirir equipamentos de fornecedores
chineses, frequentemente pertencentes ao mesmo conglomerado empresarial,
reforçando vínculos produtivos intraestatais.
Helena Luiza Matuo Rodrigues; Fernando Romero Wimer
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Trata-se, portanto, de uma estratégia de internacionalização produtiva que
utiliza o investimento em infraestrutura como instrumento para assegurar o
escoamento externo da produção industrial chinesa. Essa lógica reforça um
modelo de inserção subordinada, no qual a América Latina permanece integrada
às cadeias globais de valor como fornecedora de recursos naturais e consumidora
de tecnologia importada, perpetuando padrões estruturais de dependência na
ordem internacional, conforme apontado pela Economia Política Internacional
crítica.
A persistência desse ciclo — no qual os investimentos geram empregos e
ampliam a infraestrutura, mas aprofundam conflitos territoriais e dependência
tecnológica — evidencia a necessidade de novos marcos regulatórios. Políticas que
assegurem a consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas, promovam
a transferência tecnológica, estabeleçam percentuais mínimos de conteúdo nacional
nas compras de equipamentos e reforcem salvaguardas socioambientais são
fundamentais para romper com a lógica extrativista subordinada e orientar
os investimentos externos para um projeto de desenvolvimento efetivamente
sustentável.
5) Ecologia Política: Justiça Ambiental Seletiva e Greenwashing
no Investimento Energético Sino-Brasileiro
As estratégias de expansão do setor energético no Brasil, especialmente na
Amazônia, evidenciam como o discurso da sustentabilidade tem sido mobilizado
para legitimar projetos de grande impacto socioambiental. No centro desse
processo está o fenômeno do greenwashing, por meio do qual megaprojetos
energéticos e infraestruturais são apresentados como pilares da transição
verde, enquanto reproduzem dinâmicas de despossessão territorial, violação
de direitos e aprofundamento das desigualdades socioambientais. No caso dos
investimentos chineses, essa retórica articula-se à narrativa da cooperação
Sul–Sul e do desenvolvimento sustentável, funcionando como dispositivo político
e econômico de legitimação da expansão de infraestruturas estratégicas.
O Complexo Hidrelétrico do Tapajós constitui um caso emblemático dessas
contradições. Conforme documentado pelo Environmental Justice Atlas, os projetos
planejados para a bacia do rio Tapajós incidem diretamente sobre territórios
tradicionais do povo Munduruku, sem que tenham sido assegurados processos
Entre Rios e Contradições: As Hidrelétricas Sino-Brasileiras e a Dependência Energética (2015–2024)
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adequados de consulta livre, prévia e informada, conforme estabelecido pela
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. A resistência organizada
dos Munduruku resultou na suspensão do licenciamento da Usina Hidrelétrica
São Luiz do Tapajós, mas o caso permanece como referência central dos conflitos
entre mega-infraestrutura energética, povos indígenas e conservação ambiental
(EJAtlas 2023). Ainda que o empreendimento não tenha sido implementado, o
território segue inserido em estratégias de planejamento energético e logístico,
com envolvimento indireto de empresas chinesas, sobretudo nos segmentos de
transmissão e integração regional.
Situação semelhante é observada em empreendimentos com participação
direta do capital chinês, como as usinas hidrelétricas de São Manoel e Teles Pires.
Esses projetos foram associados a conflitos territoriais, impactos ambientais
irreversíveis e violações de direitos indígenas, conforme apontado por relatórios
de organizações internacionais de direitos humanos. A Fédération Internationale
des Droits Humains destacou a fragilidade das salvaguardas socioambientais em
projetos energéticos com financiamento chinês, bem como a dissonância entre a
retórica climática adotada por empresas e Estados e as práticas observadas nos
territórios afetados (FIDH 2019). A classificação desses empreendimentos como
energia limpa” opera, assim, como mecanismo de ocultamento dos conflitos,
despolitizando disputas territoriais e naturalizando processos de espoliação.
Nesse mesmo território, a proposta da Ferrogrão — ferrovia planejada
para ligar o norte do Mato Grosso ao porto de Miritituba, no Pará — reforça a
articulação estrutural entre infraestrutura logística, expansão do agronegócio
e aprofundamento dos conflitos socioambientais na bacia do Tapajós. Embora
não se trate de um projeto energético stricto sensu, a Ferrogrão integra o mesmo
complexo de racionalidades que sustenta a expansão hidrelétrica e a ocupação
intensiva do território. A ferrovia é frequentemente justificada sob o argumento
de eficiência logística e redução de emissões no transporte de grãos, incorporando
uma retórica de sustentabilidade que oculta seus efeitos territoriais cumulativos.
Do ponto de vista da Ecologia Política, trata-se de um exemplo de greenwashing
infraestrutural, no qual projetos logísticos são apresentados como ambientalmente
racionais, enquanto reforçam processos de desmatamento indireto, fragmentação
territorial e exclusão política das populações afetadas. A sobreposição espacial
entre o traçado da Ferrogrão, áreas de influência de hidrelétricas e territórios
indígenas evidencia que a transição energética e a modernização logística operam
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de forma integrada, reproduzindo a lógica neoextrativista e aprofundando a
justiça ambiental seletiva na região amazônica (Svampa 2019; Acselrad 2010;
EJAtlas 2023).
Do ponto de vista da Ecologia Política latino-americana, esses casos ilustram
o que Acselrad (2010) define como justiça ambiental seletiva: os benefícios
da expansão energética e infraestrutural concentram-se em grandes centros
consumidores e em agentes econômicos dominantes, enquanto os custos sociais e
ambientais recaem de forma desproporcional sobre povos indígenas, comunidades
ribeirinhas e populações tradicionais. A incorporação desses projetos ao vocabulário
da transição energética e do desenvolvimento sustentável não representa uma
ruptura com o modelo primário-exportador, mas sua atualização, conforme
analisado por Svampa (2019) no debate sobre o neoextrativismo.
A resistência a esse modelo tem se configurado como forma de contra-
hegemonia territorial. Povos indígenas, movimentos socioambientais e redes de
solidariedade transnacional contestam a imposição de megaprojetos energéticos
e logísticos e reivindicam alternativas baseadas na autodeterminação, na justiça
ambiental e no reconhecimento da pluralidade de modos de vida. Essas lutas
dialogam com a crítica de Escobar (1995) ao universalismo do desenvolvimento,
ao afirmar a existência de múltiplos horizontes civilizatórios e de um pluriverso
de práticas e saberes que desafiam a lógica hegemônica do progresso.
Assim, a análise dos investimentos energéticos e infraestruturais sino-brasileiros
sob a perspectiva da Ecologia Política evidencia que o greenwashing não constitui
apenas uma estratégia discursiva, mas um dispositivo estrutural de poder. Ao
associar megaprojetos a narrativas de sustentabilidade e transição verde, esse
discurso contribui para a reprodução de injustiças socioambientais e para o
silenciamento de territórios em conflito. A superação dessas contradições exige
a construção de modelos energéticos e logísticos pautados na justiça ambiental,
na participação efetiva das populações afetadas e na soberania dos territórios.
A tabela a seguir reúne exemplos de empreendimentos hidrelétricos e
ativos adquiridos entre 2020 e 2024 com participação de empresas chinesas,
destacando os impactos ambientais e sociais associados, bem como destacando
controvérsias sobre a ausência ou não verificação de certificações socioambientais
independentes.
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Tabela 4: Hidrelétricas com Participação Chinesa e Ausência de Certificação
Ambiental: Conflitos e Resistências Locais
Projeto I
Empreendimento
Empresa
chinesa
envolvida
Status (2024)
Principais
impactos
reportados
Comunidades
afetadas
(segundo
fontes)
Consulta
prévia
(OIT 169)
Certificação
socioambiental
independente*
UHE São Manoel
(MT/PA, Brasil)
China Three
Gorges (CTG
Brasil)
Operação
Alteração de
impactos sobre
ictiofauna;
destruição de
sítios sagrados;
conflitos em torno
de TI Munduruku
Munduruku,
Kayabi, Apiaká
Não
(denúncias
de ausência/
insuficiência)
Não verificada
UHE Teles Pires
(MT/PA, Brasil)
China Three
Gorges (via
CTG Brasil,
participação
societária)**
Operação
Alteração de
vazões; impactos
culturais (sítios
sagrados);
contestações sobre
licenc1iamentos
complementares
Munduruku,
Apiaká, Kayabi
Não
(denúncias
recorrentes)
Não verificada
Complexo Tapajós
– UHE São
Luiz do Tapajós
(PA, Brasil)
State Grid***
(associada a
infraestrutura
elétrica na
região)
Licenciamento
suspenso/arqui-
vado desde
2016; obra não
iniciada
Ameaça a TI
Sawré Muybu;
perda de habitats;
riscos a modos de
vida
Povo
Munduruku
(aldeias
do médio
Tapajós)
Não
(denúncias
de ausência
de consulta
adequada)
Não aplicável
(sem obra /
não verificada)
Ilha Solteira &
Jupiá (SP/MS,
Brasil) – ativos
adquiridos
China Three
Gorges (CTG
Brasil)
Operação
(ativos
existentes)
Efeitos
cumulativos de
grandes barragens;
mudanças no
uso do território
ribeirinho
Ribeirinhos;
comunidades
locais
Não se
aplica (ativos
antigos;
aquisições)
Não verificada
Fontes: Elaboração própria a partir de Environmental Justice Atlas (EJAtlas 2023) e Fédération Internationale des
Droits Humains (FIDH 2019).
* Certificação socioambiental independente” refere-se a selos/verificações por padrões reconhecidos (p.ex., IFC
Performance Standards auditados por terceira parte, IHA Hydropower Sustainability Standard, verificações de créditos
de carbono com salvaguardas robustas). Quando não há registro público auditável, marcamos “não verificada”
em vez de “não recebeu.
** Participação societária/operacional reportada em fontes setoriais; a CTG consolidou presença no eixo Teles
Pires–Tapajós via aquisições/participações.
*** A State Grid não era a proponente da UHE São Luiz do Tapajós; sua relevância é pelo papel em transmissão e
integração elétrica na Amazônia, o que liga grandes usinas à malha nacional — por isso a incluímos como “envolvida”
na infraestrutura energética associada (coerente com o argumento do texto sobre controle de ativos críticos).
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O greenwashing corporativo emerge como um dos pilares centrais da
engrenagem que sustenta a expansão do investimento energético sino-brasileiro.
Empresas estatais chinesas, como a China Three Gorges e a State Grid, investem
de forma sistemática em narrativas de responsabilidade socioambiental,
apresentando sua atuação como contribuição decisiva para a consolidação de
uma matriz energética renovável no Brasil. Contudo, essa retórica colide com
práticas recorrentes associadas à aceleração de licenciamentos, à flexibilização de
salvaguardas socioambientais e à violação de direitos territoriais, especialmente
em contextos marcados por assimetrias de poder.
A Usina Hidrelétrica São Manoel, localizada no rio Teles Pires, constitui um
caso emblemático dessa dissonância entre discurso e prática. O empreendimento,
associado à atuação da China Three Gorges no Brasil, foi amplamente promovido
como “energia limpa”, mas esteve envolvido na destruição de sítios sagrados,
no alagamento de áreas de pesca e na interrupção de práticas rituais de povos
indígenas como os Munduruku, Apiaká e Kayabi, sem que tenham sido garantidos
processos adequados de consulta livre, prévia e informada. Denúncias apresentadas
ao Ministério Público Federal e registros do Environmental Justice Atlas apontam
para impactos irreversíveis sobre o rio Teles Pires e para a sistemática exclusão
das comunidades afetadas dos processos decisórios (MPF 2014; EJAtlas 2023).
De forma semelhante, a Usina Hidrelétrica Teles Pires, implantada no mesmo
curso d’água e integrada ao sistema de transmissão operado pela State Grid,
também foi alvo de denúncias por violações de direitos indígenas e danos
socioambientais persistentes. Esses empreendimentos integram o conjunto de
barragens concebidas no âmbito do chamado complexo Teles Pires–Tapajós,
planejado para atender à demanda energética de polos industriais do Centro-
Sul do país, reforçando um modelo de desenvolvimento que privilegia grandes
consumidores e setores exportadores em detrimento das populações locais.
A consolidação da presença chinesa no setor elétrico brasileiro não se limitou
à implantação de novos empreendimentos. A incorporação de ativos estratégicos
já existentes, como as usinas de Ilha Solteira e Jupiá, adquiridas pela China
Three Gorges no contexto de privatizações parciais do setor elétrico, ampliou o
controle estrangeiro sobre segmentos críticos da matriz hidrelétrica nacional. Essas
operações reforçaram a posição da empresa como uma das principais geradoras
privadas do país, evidenciando que os investimentos chineses envolvem não
apenas aportes financeiros, mas o controle direto de infraestruturas estratégicas
de longo prazo (CEBC 2020).
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Essas dinâmicas podem ser compreendidas à luz do conceito de justiça
ambiental seletiva, formulado por Acselrad, segundo o qual riscos e danos
ambientais são distribuídos de forma desigual, recaindo sistematicamente sobre
populações social e etnicamente vulneráveis. No contexto das relações sino-
brasileiras, essa seletividade manifesta-se no deslocamento de comunidades
ribeirinhas, na invasão de terras indígenas e na degradação de ecossistemas
amazônicos, enquanto os benefícios da expansão energética concentram-se em
grandes centros urbanos e setores industriais.
A retórica da cooperação “ganha-ganha” e da transição energética, ao ocultar
esses impactos, converte o desenvolvimento verde em mais uma etapa do ciclo de
acumulação por espoliação. O vocabulário da sustentabilidade passa a funcionar
como instrumento de legitimação de práticas extrativistas, reafirmando padrões
históricos de dependência e desigualdade, conforme destacado pela Ecologia
Política latino-americana (Acselrad 2010; Svampa 2019).
Ao mesmo tempo, a consolidação do controle estrangeiro sobre infraestruturas
críticas aprofunda a dependência tecnológica e regulatória. A flexibilização de
normas ambientais e o esvaziamento dos mecanismos participativos transformam
audiências públicas e processos de licenciamento em procedimentos formais,
incapazes de assegurar a efetiva participação das populações afetadas. O “interesse
nacional” é mobilizado como argumento legitimador da exclusão política,
reproduzindo um padrão persistente de injustiça ambiental seletiva.
Frente a esse cenário, a resistência local assume caráter contra-hegemônico.
Povos indígenas, como os Munduruku, articulam-se com organizações de direitos
humanos e movimentos sociais para denunciar violações, acionar o Judiciário e
internacionalizar suas demandas. O Movimento dos Atingidos por Barragens atua
de forma articulada na denúncia de remoções forçadas, da mercantilização da
energia e da subordinação dos territórios a projetos que priorizam a acumulação
de capital. Essas resistências não se limitam a protestos pontuais, mas questionam
de forma estrutural quem define o que é “sustentável” e em benefício de quem
se constrói a transição energética.
A Ecologia Política evidencia, assim, que a transição energética não constitui
um processo técnico neutro, mas um campo de disputas. Casos como São Manoel,
Teles Pires e Tapajós revelam como o discurso da sustentabilidade pode ser
instrumentalizado para reproduzir relações neocoloniais, nas quais o Sul Global
fornece recursos e absorve impactos, enquanto os benefícios econômicos e
tecnológicos são apropriados por grandes potências e corporações transnacionais.
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O greenwashing emerge, nesse contexto, como elemento central do capitalismo
verde, mercantilizando a natureza sem alterar as estruturas de poder que sustentam
a desigualdade socioambiental.
Considerações finais
As evidências analisadas ao longo do artigo indicam que os investimentos
chineses no setor energético brasileiro, embora frequentemente apresentados
sob o discurso da transição verde e da cooperação Sul–Sul, têm reproduzido
práticas estruturais de despossessão territorial, desigualdade socioambiental e
invisibilização de saberes e modos de vida locais. Longe de constituírem uma
ruptura com padrões históricos de inserção dependente, esses investimentos
se articulam a uma lógica de expansão do capital que reafirma assimetrias
materiais, políticas e epistemológicas, ao mesmo tempo em que projeta a China
como potência com interesses globais consolidados.
O recurso ao greenwashing opera, nesse contexto, como estratégia central de
legitimação. Ao associar megaprojetos energéticos e infraestruturais a narrativas
de sustentabilidade e combate às mudanças climáticas, esvazia-se o conteúdo
político da transição energética e obscurecem-se os impactos territoriais concretos
sobre povos indígenas, comunidades ribeirinhas e populações tradicionais.
A retórica da sustentabilidade, quando dissociada de salvaguardas socioambientais
efetivas e de mecanismos reais de participação, reforça formas contemporâneas
de colonialidade do poder e do saber, convertendo a transição energética em
mais uma etapa do ciclo extrativista.
Superar esse padrão exige mais do que ajustes tecnocráticos, métricas de
carbono ou certificações ambientais. Implica reconhecer que não há sustentabilidade
possível sem justiça ambiental e sem soberania dos territórios. Isso pressupõe a
responsabilização de agentes públicos e privados — sejam empresas chinesas,
brasileiras ou de outras origens — por violações documentadas, bem como
o fortalecimento de instrumentos institucionais que garantam a participação
efetiva das comunidades afetadas nos processos decisórios, especialmente no
licenciamento ambiental e no planejamento energético.
As resistências territoriais analisadas, protagonizadas por povos indígenas
como os Munduruku, por movimentos sociais como o Movimento dos Atingidos
por Barragens e por redes transnacionais de solidariedade, revelam que os
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conflitos associados aos megaprojetos energéticos não se limitam à disputa
por compensações ou mitigação de impactos. Trata-se de uma contestação
mais profunda ao modelo hegemônico de desenvolvimento, que questiona a
mercantilização da natureza, a concentração de poder decisório e a exclusão
sistemática de racionalidades não hegemônicas.
Nesse sentido, a justiça ambiental não pode ser tratada como um elemento
acessório ou corretivo, mas como condição fundante de qualquer projeto energético
socialmente legítimo. A legitimidade futura da cooperação sino-brasileira no setor
energético dependerá, portanto, de sua capacidade de enfrentar essas contradições
estruturais, abandonar práticas extrativistas travestidas de sustentabilidade
e incorporar múltiplas racionalidades na construção de modelos energéticos
orientados pela vida, pela equidade e pela autodeterminação dos povos. As
vozes que emergem dos territórios afetados não apenas denunciam os limites
do modelo vigente, mas também apontam caminhos possíveis para a construção
de futuros energéticos mais justos, plurais e democraticamente sustentáveis.
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