
Ontocídio: Por uma Radicalização Ôntica da Crítica Decolonial nas Relações Internacionais
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 20, n. 3, e1556, 2025
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mundos. A colonialidade opera a racialização como tecnologia ontocida primordial,
criando categorias de “não-ser” ou de “ser inferior” para legitimar a exploração,
a dominação e a aniquilação.
A colonialidade, como padrão de poder persistente que emerge do colonialismo,
desde a constituição da América e do capitalismo eurocentrado, estrutura o
mundo moderno/colonial classificando a população global pela ideia de raça
(Quijano 2005; Mignolo 2011; Segato 2021). Nesse processo, a racialização opera
como tecnologia ontocida primordial, criando a categoria do “não-ser” ou do
“ser inferior”, justificando assim a exploração, a dominação e a destruição de
mundos. Frantz Fanon (2020) expõe visceralmente essa negação: o colonizado
é obrigado a abrir mão de seu mundo para se aproximar o máximo possível do
universal colonial (ser branco, falar francês), sob pena de não ser reconhecido
como humano. A violência colonial se manifesta na retirada de humanidade do
colonizado, arrancando o seu mundo de viver.
Esta violência racial é sustentada por um arcabouço ontoepistemológico
específico. Denise Ferreira da Silva (2019) descreve a “lógica da obliteração”
do “Mundo Ordenado” colonial: o conhecimento racial toma a branquidade/
europeísmo como a medida universal e incontestável da humanidade, realizando
uma inversão causal crucial. Os efeitos da expropriação colonial violenta (conquista,
escravidão) são “transubstanciados” em defeitos naturais e morais inerentes aos
corpos e mentes racializados. A desvantagem econômica resultante da expropriação
colonial é, assim, transformada em um “déficit natural, isto é, racial” (2019, 169).
Dessa forma, a violência fundadora é obliterada e re-significada como a causa
da condição subalterna, e não sua consequência, construindo a “negridade”
como um “objeto sem valor”, o outro do Sujeito branco autodeterminado. Esta
obliteração é indispensável para sustentar a ficção do sujeito moderno autônomo,
cujo privilégio se ergue sobre aquela expropriação original.
A colonialidade, ao naturalizar a superioridade europeia, justifica a aniquilação
ou civilização imposta como os únicos destinos possíveis para os outros. Como
destaca Coronil (1997), a divisão internacional do trabalho deve ser entendida
também como uma “divisão global da natureza”. O extrativismo capitalista
moderno, ao transformar a natureza em mera mercadoria e fonte de recursos
a serem explorados, destrói as ontologias dos povos que mantêm uma relação
intrínseca com a terra. Exemplos incluem a negação dos direitos coletivos de
uso da terra transmitidos por linhagens em sociedades africanas, substituídos
pela lógica individualista da propriedade privada. Essa imposição da “ontologia