Vinícius Armele
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Ontocídio: Por uma Radicalização
Ôntica da Crítica Decolonial nas
Relações Internacionais
Ontocide: For an Ontological
Radicalization of Decolonial Critique in
International Relations
Ontocidio: Por una radicalización
óntica de la crítica decolonial en las
Relaciones Internacionales1
DOI: 10.21530/ci.v20n3.2025.1556
Vinícius Armele
2
Resumo
Este artigo introduz e articula o conceito de ontocídio para
radicalizar o projeto decolonial nas Relações Internacionais (RI).
Definimos ontocídio como a violência fundadora da modernidade
colonial: o processo sistemático de aniquilação de modos de
existência e mundos de vida que desafiam a ontologia liberal-
-colonial-moderna. Argumentamos que o foco predominante na
colonialidade do saber (epistemicídio), ainda que crucial, mantém
um viés ao não confrontar esta dimensão ôntica mais profunda.
Para demonstrar a operacionalidade do conceito, analisamos três
1 Gostaria de registrar meus sinceros agradecimentos aos revisores anônimos.
Seus comentários, oferecidos no verdadeiro espírito de colaboração acadêmica,
foram fundamentais para a evolução do trabalho. Deixo ainda um agradecimento
especial à equipe da Carta Internacional, em particular ao professor Paulo
Chamon, pela compreensão, paciência e apoio essencial durante todo o processo.
A mediação e o incentivo foram decisivos para que eu pudesse retomar e dedicar-me
integralmente à revisão, resultando no aprimoramento final do trabalho.
2 Doutor em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais
da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Professor do
Curso de Relações Internacionais UniLaSalle RJ. (viniciusarmele@gmail.com).
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9550-8453.
Artigo submetido em 09/01/2025 e aprovado em 11/12/2025.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
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Este é um artigo
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ISSN 2526-9038
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eixos canônicos das RI: a negação da coetaneidade de formas políticas outras (o mito de
Westfália), o apagamento da relacionalidade radical do internacional (a “Prisão da Ciência
Política”) e a hierarquização do ser pela matriz colonial. Concluímos que a superação dessas
operações ontocidas exige mais que o pluralismo epistemológico; demanda uma virada
ontológica rumo a uma política da multiplicidade. Esta, fundamentada no reconhecimento da
primazia das relações, tem como horizonte a coexistência de mundos plurais e irredutíveis,
para além da mera inclusão no universo categorial moderno.
Palavras-chave: Ontocídio, Relações Internacionais, Decolonialidade, Virada Ontológica,
Multiplicidade.
Abstract
This article introduces and articulates the concept of ontocide to radicalize the decolonial
project in International Relations (IR). We define ontocide as the founding violence of
colonial modernity: the systematic process of annihilating modes of existence and lifeworlds
that challenge liberal-colonial-modern ontology. We argue that the predominant focus on
the coloniality of knowledge (epistemicide), while crucial, maintains a bias by failing to
confront this deeper ontological dimension. To demonstrate the concept’s operational value,
we analyze three canonical pillars of IR: the denial of coevalness of other political forms (the
Westphalian myth), the erasure of the radical relationality of the international (the ‘Prison
of Political Science’), and the hierarchization of being by the colonial matrix. We conclude
that overcoming these ontocidal operations requires more than epistemological pluralism;
it demands an ontological turn towards a politics of multiplicity. This politics, grounded
on the recognition of the primacy of relationships, aims for the coexistence of plural and
irreducible worlds, moving beyond mere inclusion within the modern categorical universe.
Keywords: Ontocide, International Relations, Decoloniality, Ontological Turn, Multiplicity.
Resumen
Este artículo introduce y articula el concepto de ontocidio para radicalizar el proyecto
decolonial en las Relaciones Internacionales (RRII). Definimos ontocidio como la violencia
fundadora de la modernidad colonial: el proceso sistemático de aniquilación de modos de
existencia y mundos de vida que desafían la ontología liberal-colonial-moderna. Argumentamos
que el enfoque predominante en la colonialidad del saber (epistemicidio), aunque crucial,
mantiene un sesgo al no confrontar esta dimensión óntica más profunda. Para demostrar
la operatividad del concepto, analizamos tres ejes canónicos de las RRII: la negación de la
coetaneidad de otras formas políticas (el mito de Westfalia), el borramiento de la relacionalidad
radical de lo internacional (la “Prisión de la Ciencia Política”) y la jerarquización del ser
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por la matriz colonial. Concluimos que la superación de estas operaciones ontocidas exige
más que el pluralismo epistemológico; demanda un giro ontológico hacia una política de
la multiplicidad. Esta política, fundamentada en una ontología rizomático-relacional, tiene
como horizonte la coexistencia de mundos plurales e irreductibles, más allá de la mera
inclusión en el universo categorial moderno.
Palabras clave: Ontocidio, Relaciones Internacionales, Decolonialidad, Giro Ontológico,
Multiplicidad.
Introdução: para além do epistemicídio
As Relações Internacionais (RI) 3 atravessam uma crise de relevância diante dos
desafios planetários do século XXI (Cudworth e Hobden 2017). Sua incapacidade de
responder a emergências climáticas, ecológicas e civilizatórias (Burke et al. 2016)
decorre não apenas de limites políticos ou teóricos, mas de sua cumplicidade com
os fundamentos modernos/coloniais (Inayatullah e Blaney 2004) que sustentam
tais crises. O foco no Estado e em pressupostos herdados da tradição ocidental
revela uma disciplina imune à realidade do planeta. Diante disso, torna-se
necessário revisitar os tropos conceituais que moldam seu imaginário.
As RI, assim como as ciências sociais em geral, têm sido historicamente
cúmplice do projeto colonial, participando ativamente de um processo de
epistemicídio, ou seja, a destruição de conhecimentos e a subalternização de
cosmovisões não-ocidentais (Fernández 2019; Grosfoguel 2016; Bhambra 2014).
O mainstream hegemônico anglo-americano, em sua configuração moderna, tem
sido historicamente associada à prática de governar o mundo a partir de posições
de poder, servindo muitas vezes como uma ideologia de controle disfarçada de
academia legítima, especialmente no contexto das nações dominantes sobre as
mais vulneráveis. O epistemicídio se manifesta na desqualificação de saberes e
na imposição de uma “história única” narrada como universal, que obscurece
a rica diversidade epistêmica da humanidade (Quijano 2005; Fernández 2019;
Grosfoguel 2016). É fundamental, portanto, ir além da mera constatação dessa
violência epistêmica para explorar suas raízes mais profundas.
3 A crítica aqui dirigida incide sobre o núcleo hegemônico anglo-americano das RI, que configura a corrente
dominante do campo. Reconhecemos, contudo, a diversidade epistemológica existente, como evidenciado,
por exemplo, na produção brasileira em RI que se concentra em temas regionais e na política externa nacional
(Novelli 2022).
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Nas últimas décadas, o giro decolonial (Ballestrin 2013) emergiu como
um movimento teórico-político para desafiar esse eurocentrismo, revelando a
modernidade como inseparável da colonialidade (Mignolo 2011; Quijano 2005).
Essa perspectiva critica a pretensão de objetividade e universalidade dos saberes
modernos, expondo como categorias e conceitos das ciências sociais foram
construídos a partir de uma experiência particular europeia e impostos como
padrão universal, hierarquizando povos e culturas (Quijano 2005). A crítica
decolonial tem sido fundamental para denunciar a cumplicidade das RI com o
projeto moderno/colonial, especialmente ao expor o epistemicídio e ao contribuir
para a “descolonização do saber” (Grosfoguel 2016). Contudo, essa crítica pode
apresentar um limite intrínseco: a persistência de uma dependência epistemológica
que mantém o debate no registro do saber. Este artigo argumenta que mesmo
esta crítica poderosa reproduz, em seu nível ontológico, um vício do pensamento
moderno que pretende superar: seu foco predominante na colonialidade do
saber pode inadvertidamente obscurecer a dimensão mais radical e fundante da
violência colonial – sua dimensão ôntica
4
. Ao focar primariamente na hierarquia
e na destruição de conhecimentos (epistemicídio), ela nem sempre aborda com
a mesma profundidade a aniquilação das formas de existência e dos mundos
de vida que subjazem a esses saberes. Como apontado, a sociologia global
multicultural, por exemplo, ao aceitar que novas vozes suplementem verdades
eurocentradas, não as reconstrói fundamentalmente, mantendo a centralidade do
Ocidente (Bhambra 2014). Isso sugere que a crítica à “colonização das perspectivas
cognitivas” e ao “empobrecimento ontológico”, que elege um único modo de
ser como válido (Quijano 2005, 111; Mbembe 2022), precisa ser levada a um
nível mais radical, que vá além da discussão de categorias de conhecimento e
penetre na própria condição do ser.
A modernidade eurocêntrica não apenas silenciou e desqualificou conheci-
mentos, mas também promoveu separações e reducionismos que resultaram na
aniquilação de outras existências (Porto-Gonçalves 2005; Barbosa 2024). Este
artigo sustenta que, além do epistemicídio, há uma violência mais fundamental:
o ontocídio, entendido como o processo sistemático de aniquilação de modos de
existência e mundos de vida que desafiam a ontologia liberal-colonial-moderna.
4 Utilizamos “ôntico” para nos referirmos à esfera do ser, da existência concreta e dos modos de vida. “Ontológico”
refere-se ao nível da reflexão sobre o ser, às estruturas ou premissas que condicionam o que pode ser considerado
existente. A “violência ôntica” (ontocídio) é, portanto, um processo no registro do ser; a “virada ontológica”
é um reposicionamento no registro do pensamento para confrontar essas violências.
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Ao deslocar o foco do saber para o ser, deslocamos também o terreno do debate:
da crítica epistemológica para uma crítica ontológica de caráter político. Enquanto
o epistemicídio questiona “como conhecemos o mundo”, o ontocídio interroga
“quais mundos podem existir”. Essa violência radical fundadora da modernidade
colonial revela as prisões ontoepistemológicas que moldam o imaginário teórico
das RI.
A “invenção do outro” (Castro-Gómez 2005) foi central nesse processo,
ao construir o colonizado como o “outro da razão”, cuja suposta barbárie
justificava o exercício disciplinar e a imposição de um padrão civilizatório que
negava especificidades histórico-culturais. Em nome da razão, do universalismo
excludente e de um progresso unilinear, a modernidade sacrificou indígenas,
escravizou africanos e oprimiu mulheres e crianças, destruindo inúmeros mundos
de vida (Castro-Gómez 2005). Para criar sentido em si mesma, precisou sempre
expurgar seus Outros e Outros Lugares” (Fonseca 2023, 286). O ontocídio,
assim, representa um empobrecimento ontológico universal: a eleição de um
único modo de ser como válido, sobrepondo a ontologia moderna/colonial/
capitalista às demais ontologias das sociedades não capitalistas.
Este artigo sustenta que o conceito de ontocídio radicaliza a crítica decolonial
em Relações Internacionais, ao revelar que o campo, em suas bases epistemológicas
e mitos fundadores, perpetua não apenas a inferiorização de conhecimentos, mas
sobretudo a aniquilação de mundos de vida e formas de ser incompatíveis com
o paradigma ocidental moderno. As prisões ontoepistemológicas do imaginário
internacional, fundadas em mitos como Westfália e na modernidade colonial,
impõem uma ontologia estatista rígida que reduz a coexistência à mera copresença
de entidades pré-constituídas. Ao evidenciar a violência ôntica, o ontocídio
aprofunda a crítica à desumanização e ao empobrecimento ontológico que
estruturam a história e a teoria das RI.
O artigo tem dois objetivos principais: (1) formular e articular o conceito
de ontocídio para o campo das RI, deslocando a crítica decolonial do registro
epistêmico para o ôntico; e (2) demonstrar sua utilidade analítica ao examinar três
eixos centrais do núcleo canônico da disciplina. Para desenvolver o argumento,
recorremos a uma estratégia de articulação teórico-conceitual de reformulação
teórica crítica das RI que se inicia a partir da política do colonialismo, ao invés
da política da crise que centraliza os modos de subjetividade ocidentais como
o único quadro de referência para pensar a política e a história, buscando,
assim, confrontar o legado colonial (Souza 2022), fundamentada em um diálogo
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transdisciplinar (1) a sociologia histórica crítica, que desnaturaliza os mitos
fundadores da disciplina; (2) o pensamento decolonial e pós-colonial, que fornece
o diagnóstico da violência colonial e o conceito-chave de ontocídio; e (3) a
sociologia relacional e as abordagens relacionais em RI. Esta última nos permite
conceber a realidade social como primordialmente constituída por relações e
processos, oferecendo uma lente para criticar o substancialismo das RI e apontar
para o horizonte relacional necessário à superação do ontocídio.
O artigo está organizado em quatro seções, além desta introdução e da
conclusão. Na primeira, desenvolvemos a definição conceitual de ontocídio,
situando-o em relação ao epistemicídio e às críticas decoloniais nas RI. Na
segunda, examinamos como a lógica ontocida opera na construção do mito de
Westfália. A terceira seção aborda a “Prisão da Ciência Política”, como dispositivo
ontoepistemológico que apaga a relacionalidade radical do internacional, cuja crítica
será radicalizada à luz das pesquisas históricas sobre as origens racializadas da
disciplina (Vitalis, 2015). A quarta seção analisa a matriz colonial da modernidade e
sua função na hierarquização do ser. Por fim, nas considerações finais, retomamos
a contribuição do conceito de ontocídio para o campo, enfatizando seu potencial
de ampliar as críticas decoloniais por meio de uma virada ontológica.
Concluímos que a superação das prisões ontoepistemológicas exige mais
que a pluralização epistemológica: demanda uma virada ontológica orientada
para uma política da multiplicidade. Essa política, baseada em uma ontologia
relacional, transcende a mera inclusão ou coexistência, ativando processos de
devir e contaminação mútua que desestabilizam distinções ontológicas fixas do
projeto moderno/colonial. Ela contribui para uma mudança do foco da crise para
o colonialismo, como sugere Nathália Souza (2022) e que nos permite confrontar
os tropos temporais ocidentais da modernidade, pensar a política para além da
ontologia schmittiana de confronto num domínio anárquico, sustentar um ethos
anticolonial e antirracista e trabalhar com epistemologias decoloniais que desafiem
os posicionamentos de sujeitos brancos e as práticas de conhecimento racistas.
Não se trata de um antídoto externo, mas de uma prática interna de liberação
reconstrutiva do campo de imanência, na qual a multiplicidade pode se expressar.
O ontocídio: a violência ôntica colonial
O ontocídio constitui uma dimensão fundamental, ainda que subestimada, da
violência colonial. Argumentamos que o ontocídio — definido como a aniquilação
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sistemática de modos de existência e de mundos de vida que desafiam a ontologia
liberal-colonial-moderna — representa não apenas uma forma de violência
paralela ao epistemicídio, mas sua condição de possibilidade sócio-histórica e
base mais profunda da dominação colonial.
A crítica decolonial tem sido crucial para desvendar as estruturas de
poder e saber forjadas pela expansão europeia. Quijano (2005), ao introduzir a
colonialidade do poder”, revelou o padrão global de dominação eurocentrado
que classifica a população mundial pela ideia de raça, um eixo fundamental
do poder capitalista colonial/moderno. A “colonialidade do saber”, por sua
vez, descreve como os saberes são regidos por uma hierarquia de prestígio que
privilegia a razão cartesiana, criando dualismos que organizam o mundo em
categorias hierárquicas (Segato 2021). Para Quijano, o eurocentrismo é um modo
distorcido de produzir sentido. Mignolo (2005; 2011), por sua vez, concebe a
colonialidade” como o “lado obscuro” e constitutivo da modernidade, afirmando
que “não existe modernidade sem colonialidade”. A conquista das Américas é,
assim, o momento inaugural tanto da modernidade quanto da organização colonial
do mundo, dando início à “constituição colonial dos saberes, das linguagens,
da memória e do imaginário”.
Apesar da profundidade dessas análises, as ciências sociais têm historicamente
reproduzido um imaginário eurocêntrico que projeta uma Europa autogerada,
ignorando a interação colonial como dimensão constitutiva da modernidade
(Lander 2005). Conceitos como o de epistemicídio — cunhado por Boaventura
de Sousa Santos (2018) e aprofundado por Sueli Carneiro (2005) — descrevem o
processo sistemático de destruição, desqualificação e invisibilização de cosmovisões
e saberes outros que não se alinham à lógica eurocêntrica (Fernández 2019).
Trata-se de um “sequestro da razão” pela negação da racionalidade do Outro ou
pela assimilação cultural imposta (Carneiro 2005). As ciências sociais ocidentais,
desde suas origens, silenciaram e inferiorizaram conhecimentos produzidos
por corpos políticos não-ocidentais, não-masculinos, não-heterossexuais e não-
brancos (Lima 2023).
A violência ontológica inerente à colonialidade tem sido objeto de análise
crescente nas RI. Cristina Rojas argumenta que a colonialidade opera por meio de
“lógicas coloniais do internacional” que se fundamentam em divisões ontológicas
modernas — entre natureza e cultura, modernos e não modernos — e que
eliminam mundos de vida inteiros, declarando-os alternativas não críveis” (Rojas
2016, 2). Para Rojas, o projeto universal da modernidade colonial não apenas
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hierarquiza saberes, mas “desvaloriza e mina modos de ser e suas conexões”,
apagando assim a possibilidade de um “pluriverso” de mundos relacionais (Rojas
2016, 2). Nesse sentido, a crítica de Rojas avança na direção de uma “política
relacional para o pluriverso”, que reconhece a coexistência de múltiplas ontologias
e desafia a ideia de um mundo unívoco governado pela razão moderna.
Nosso conceito de ontocídio radicaliza essa perspectiva, nomeando
explicitamente o processo ativo de aniquilação e indo além da identificação
de “lógicas” de invisibilização. Se Rojas foca nas “lógicas” que tornam esses
mundos invisíveis ou não críveis, nós enfatizamos os mecanismos materiais,
afetivos, discursivos e institucionais que efetivamente os destroem. Em outras
palavras, o ontocídio não é apenas uma “condição de negação ontológica”, mas
um processo histórico de aniquilação que opera através da convergência entre
deslegitimação epistêmica, despossessão material e dissolução afetiva e das
práticas reprodutivas sociais.
Nosso conceito de ontocídio dialoga e avança em relação a estudos que
abordam a violência ontológica nas RI. Trabalhos como os de Mignolo (2011) e
Quijano (2005) já haviam denunciado a “colonialidade do ser” e a negação de
alternativas ontológicas. No entanto, ao cunhar e operacionalizar o conceito de
ontocídio, buscamos oferecer uma ferramenta analítica mais precisa para capturar
a intensidade, a irreversibilidade e a convergência das dimensões que levam à
destruição efetiva de mundos. Diferentemente do epistemicídio — que se concentra
na destruição de saberes —, o ontocídio interroga: quais mundos podem existir?
E como são sistematicamente aniquilados pelas estruturas ontoepistemológicas
da modernidade colonial?
A crítica decolonial enfatizou o epistemicídio — a hierarquização e destruição
de saberes — como núcleo da violência colonial. Contudo, esse enfoque obscurece
sua dimensão mais radical: a aniquilação de modos de existência. O ontocídio
nomeia justamente essa violência ôntica, que interroga não apenas como
conhecemos o mundo, mas quais mundos podem existir. Nesse sentido, o ontocídio
emerge como um conceito-chave não apenas para descrever, mas para nomear
e denunciar a violência fundadora que estrutura a disciplina das RI. Enquanto a
crítica de Rojas nos convida a imaginar um “pluriverso”, nossa proposta busca
primeiro diagnosticar o processo sistemático de extermínio ôntico que impede
sua realização. A superação do ontocídio, como argumentaremos, exige uma
virada ontológica relacional que vá além da mera pluralização epistemológica
— um horizonte que coincide, em última instância, com a aspiração por um
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internacional pluriversal. Para tanto, é necessário esclarecer de maneira mais
precisa o alcance e os mecanismos deste conceito.
Neste artigo, entendemos o ontocídio como um processo histórico e estrutural
que desarticula e inviabiliza modos de existência ao negar-lhes legitimidade
ontológica, retirar-lhes condições materiais de reprodução e interromper a
continuidade de suas práticas sociais e culturais. Diferentemente do epistemicídio
— que se refere à destruição de saberes — o ontocídio diz respeito à eliminação de
mundos, isto é, de formas de ser, viver e habitar que não se conformam à ontologia
moderna-colonial. Três dimensões articulam esse processo: (i) a deslegitimação
ontológica, por meio de discursos e narrativas que tornam determinados modos
de vida ininteligíveis ou “não existentes”; (ii) a despossessão material, afetiva
e institucional, mediante práticas jurídicas, econômicas e políticas que privam
coletividades de seus meios de reprodução social; e (iii) a dissolução das práticas
reprodutivas, quando políticas ou ações impedem a transmissão intergeracional
de línguas, cosmologias, rituais e formas de sociabilidade. Quanto maior a
convergência entre essas dimensões e sua irreversibilidade, mais intenso e completo
é o processo ontocida. Desse modo, o ontocídio atinge a destruição das próprias
condições de possibilidade do ser e a reprodução social de ontologias incompatíveis
com a lógica moderno/colonial.
O ontocídio emerge como um conceito-chave para nomear a aniquilação
sistemática de outras existências, de seus mundos, agenciamentos e relações
(Barbosa 2024). Ele vai além da destruição do conhecimento (epistemicídio)
para abordar a destruição do próprio ser e das ontologias que não se encaixam
na lógica capitalista-liberal-colonial-moderna. Essa lógica destruidora encontra
sua raiz em uma doença civilizatória mais profunda: a cosmofobia. Nos termos
de Antônio Bispo dos Santos (2023, 9), a cosmofobia é “o medo, é uma doença
que não tem cura, apenas imunidade”. Trata-se do pavor ao cosmos relacional
e politeísta, à natureza como ente vivo e compartilhante, e da consequente
compulsão por dominar, sintetizar e mercantilizar todas as formas de vida.
A cosmofobia, germinada no monoteísmo eurocristão, gera uma ontologia da
separação que nega a pertença cósmica e elege um único modo de ser — o
do humano colonial, sintético, desenvolvedor — como válido. O ontocídio é,
assim, a expressão histórica e sistemática da cosmofobia: é o processo pelo qual
o medo do diverso se converte na aniquilação material e simbólica de mundos
que insistem em existir de modo relacional, orgânico e politeísta.
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Seu ato fundacional reside na negação radical da coetaneidade e da plena
existência do Outro. Ao rotular territórios como “vazios” e povos como “selvagens”
ou “primitivos”, inicia-se um processo de soterramento, invisibilização e
inferiorização de ontologias e epistemologias preexistentes (Lima 2023). Essa
negação do ser leva a um empobrecimento ontológico, que ocorre quando um
único modo de ser (o do capital, do Estado moderno, da mercadoria) é eleito
como válido, combatendo e eliminando o “Outro” a todo custo (Mbembe 2022).
A imposição da ontologia do capital sobre as ontologias inerentes às sociedades
não-capitalistas constitui um deslocamento na subjetividade social, onde a
negação da “Palavra” aos corpos subalternizados implica a negação de seu ser
(Souza 2021). Em essência, o ontocídio é o processo de sobrepor uma ontologia
(a hegemonia da modernidade colonial/capitalista) a outras, destruindo os mundos
de vida — as relações com a terra, os ritos, as socialidades não-capitalistas —
que lhes são inerentes. Trata-se da guerra movida contra a multiplicidade do
real para impor um Uno totalizante.
A distinção crucial entre epistemicídio e ontocídio reside na profundidade da
violência e numa relação de condicionalidade, conforme argumenta Grosfoguel
(2016). O ontocídio é a condição de possibilidade sócio-histórica do epistemicídio.
A premissa cartesiana “penso, logo existo” tem sua condição estrutural no “extermino,
logo existo” (o ontocídio), que, por sua vez, é a mediação entre o “conquisto,
logo existo” e o racismo/sexismo epistêmico. A negação da humanidade plena
do Outro — o cerne do ontocídio — é o que permite a posterior desqualificação
e aniquilação de seu conhecimento. Como aponta Maldonado-Torres (2007), a
“diferença colonial ontológica” (o outro não é) precede e fundamenta a “diferença
colonial epistêmica” (o outro não pensa). O epistemicídio é a estratégia discursiva
e acadêmica que justifica, post facto, a violência ôntica já em curso. Para que um
saber possa ser aniquilado, o ser que o produz precisa antes ter sua existência
fundamentalmente questionada ou destruída.
Esta conceitualização do ontocídio encontra ressonância em autores que
exploram a violência na dimensão do ser. Com seus conceitos de necropolítica (o
poder que dita quem pode viver e quem deve morrer) e alterocídio (a constituição
do Outro como objeto intrinsecamente ameaçador a ser destruído), Achille Mbembe
(2017; 2022) descreve a expressão máxima do ontocídio: a gestão da morte como
instrumento de produção ontológica, criando “mortos-vivos” e zonas de não-ser.
Seu conceito de “empobrecimento ontológico” descreve precisamente o prejuízo
universal de eleger um único modo de ser como válido. De modo similar, a crítica
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de Denise Ferreira da Silva (2019) demonstra como a violência racial é uma
violência ontoepistemológica. Ela opera através dos pilares da modernidade — a
separabilidade, a determinabilidade e a sequencialidade — para produzir o “outro
racial” como um objeto no mundo, um ser cuja existência pode ser totalmente
explicada, controlada e negada por forças externas. Estes pilares constituem o
“Mundo Ordenado” que justifica a violência contra o sujeito racial subalterno.
Essas perspectivas convergem para a compreensão de que a violência colonial
não se limita à supressão de ideias, mas atinge a própria capacidade de existência
e organização do real, forjando uma hegemonia que se tornou o “senso comum
da sociedade moderna” (Lander 2005, 8). Portanto, o ontocídio surge como um
conceito-chave para nomear a violência que estrutura a modernidade. Ao fazê-
lo, ele radicaliza a crítica decolonial, deslocando-a do terreno epistêmico para o
terreno ôntico onde a batalha pela existência — e não apenas pela representação
— verdadeiramente se trava. As Relações Internacionais, ao naturalizarem o
sistema interestatal moderno, são cúmplices deste projeto, tornando-se não
apenas um campo de estudo, mas um objeto de crítica ontológica fundamental.
O eixo Westfaliano: ontocídio e a negação da coetaneidade
A disciplina das RI baseou-se no “axioma de Westfália” como mito fundador,
instituindo uma ontologia estatista que reduz a coexistência à mera existência
simultânea de Estados soberanos. Esta seção demonstra como esse eixo opera
como um dispositivo ontocida, apagando outras configurações políticas válidas.
Através da lente da sociologia histórica crítica e do conceito de negação da
coetaneidade (Fabian 2014), analisamos como essa narrativa performa uma
violência dupla: apaga a existência de outras configurações políticas válidas e
impõe o Estado-nação como a única forma de realidade política inteligível.
A teoria das RI tem sido historicamente assombrada por uma crise ontológica
fundamental, carecendo de uma tradição teórica robusta para conceber o
“internacional” como um campo próprio (Wight 1960). Neste vácuo, o mito
de Westfália emerge como um axioma fundador que preenche essa lacuna com
uma narrativa poderosa, porém redutora: a de um sistema de Estados soberanos
interagindo em anarquia. Contudo, essa narrativa convencional da Paz de Westfália
(1648) como origem da soberania moderna e do sistema interestatal tem sido
desmontada por estudos críticos (de Carvalho, Leira, & Hobson 2011; Teschke
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2020; Bartelson 2023). Eles mostram que 1648 não instituiu a soberania moderna,
mas reafirmou ordens políticas feudais e dinásticas. A demarcação territorial e
o reconhecimento internacional, pilares do sistema moderno, eram inexistentes
em 1648. A origem westfaliana das RI é, assim, uma produção mitológica crucial
para uma identidade disciplinar eurocêntrica.
Este mito performa uma negação ontológica ativa. Enquanto a Europa
negociava em Münster e Osnabrück, formas políticas complexas e não-estatais
— que desafiavam radicalmente o modelo de soberania territorial exclusiva —
coexistiam globalmente. Dois exemplos são elucidativos: (i) a Confederação
Iroquesa (Haudenosaunee), um sofisticado sistema de convivência e co-governo
pré-colombiano baseado em princípios de deliberação coletiva e soberania relacional
e distribuída (Cuéltar-Barandiarán 2013); e (ii) o conceito islâmico de ummah,
que encarnava uma noção de ecumenismo político transcendendo laços étnico-
territoriais restritos (Zafer 2020). O mito westfaliano enquanto “Big Bang”,
ao elevar o Estado-nação europeu como ápice do desenvolvimento, apagou a
legitimidade dessas formas políticas plurais e coevas, relegando-as ao passado
ou à marginalidade. Tal operação é ontocida, pois elimina a possibilidade de
reconhecer outras organizações do político.
Correções historiográficas fundamentam essa crítica. Teschke (2020) argumenta
que 1648 representou a culminação do Estado absolutista dinástico, não o
nascimento do sistema moderno, consolidando uma ontologia política pré-
capitalista que a disciplina posterior naturalizou. Hobson (2012) desvela os
fundamentos discursivos dessa imposição, demonstrando como a soberania foi
sempre construída por um discurso eurocêntrico e inigualitário, dependente de
hierarquias racializadas. Por fim, Bhambra (2014; 2007; Bhambra e Holmwood
2021) fornece a metanarrativa conectiva: a “modernidade” é um constructo que,
ao se basear na premissa da ruptura e da diferença, silencia ativamente suas
interconexões coloniais constitutivas. Sua proposta de “sociologias conectadas”
visa superar esse ontocídio epistêmico, entendendo a formação do sistema
internacional como uma rede de histórias interdependentes. Juntos, esses autores
revelam como a fundação do sistema interestatal foi simultaneamente um ato
de violência material e de constituição epistemológica colonial.
O mecanismo intelectual que permite essa operação é a “negação da
coetaneidade” (denial of coevalness) (Fabian 2014), tecnologia ontocida que traduz
sistematicamente a diferença espacial em diferença temporal. O “alocronismo”
posiciona os “Outros” em um tempo distante, negando sua contemporaneidade
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e simultaneidade – a recusa em aceitar que o observador e o observado existem
no mesmo “presente vívido”. Sua presença empírica transforma-se em “ausência
teórica” (Fabian 2014, 173). Na fundação do sistema interestatal, essa tecnologia
foi essencial para produzir uma hierarquia ontológica global. Ao classificar povos
não-europeus como “pré-modernos”, “selvagens” ou “bárbaros”, legitimou a
conquista, a assimilação forçada e o extermínio como atos de “modernização”
e “progresso”. A disciplina das RI internalizou esses dispositivos, trancando o
futuro político no modelo do Estado-nação e impedindo um diálogo genuinamente
coetâneo com outras tradições.
Portanto, a negação da coetaneidade não é um mero viés epistêmico, mas
uma tecnologia ontoepistemológica com consequências ônticas. Ao traduzir a
diferença espacial em diferença temporal (“eles são diferentes” em “eles são
do passado”), legitima práticas materiais de ontocídio: a conquista torna-se
“ocupação de terra nullius”; a supressão de sistemas políticos, “modernização”
ou “pacificação”; a assimilação forçada torna-se “civilização”. O mito de Westfália
opera, assim, como um dispositivo ontocida duplo: apaga outras formas políticas
do campo do inteligível (epistemicídio) e abre espaço para sua erradicação
material e afetiva (ontocídio). A “Paz” de 1648 consolida-se, portanto, como
um marco de uma violência fundadora que estrutura o imaginário internacional
sobre a aniquilação de mundos políticos alternativos.
A Prisão da Ciência Política: ontocídio e o apagamento da
relacionalidade
Se o eixo Westfaliano realiza um ontocídio histórico, a “Prisão da Ciência
Política” (Rosenberg 2016) performa um ontocídio disciplinar. A dependência
das RI de uma ontologia política centrada no Estado e definida pela negação
(anarquia) não é um acidente teórico. É um ato de apagamento ontoepistemológico
que reduz o “internacional” a um espaço residual de interação entre unidades
pré-constituídas, invisibilizando sua natureza constitutivamente relacional e
processual. Essa ontologia substancialista, ao eleger o Estado como a única
unidade de realidade política plena, inviabiliza a inteligibilidade – e portanto
a possibilidade de existência legítima – de formas de organização política não-
estatais, de fluxos transnacionais e de ecologias políticas complexas que desafiam
a “lógica de composição” (Odysseos 2007). A crítica de Blaney e Tickner (2017) é
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fundamental aqui: a verdadeira prisão é a da modernidade colonial. A ontologia
da Ciência Política importada pelas RI é ela mesma um produto e um operador
da colonialidade, pois fornece o quadro categorial que naturaliza a superioridade
do Estado-nação europeu e marginaliza outras configurações do político como
“pré-modernas” ou “informais”. A pesquisa de Vitalis (2015) corrobora isso,
mostrando que as RI nasceram menos da questão da anarquia e mais da gestão de
hierarquias raciais e coloniais. Portanto, a “Prisão” é ontocida porque seu arcabouço
conceitual, ao apagar a relacionalidade radical, deslegitima ontologicamente
uma miríade de mundos relacionais (indígenas, diaspóricos, ecológicos) que
não se encaixam em seu molde, contribuindo para sua despossessão material e
dissolução afetiva.
Rosenberg (2016) oferece o diagnóstico mais agudo dessa condição ao
argumentar que, ao contrário de outras ciências sociais que possuem um objeto
positivo próprio, as RI foram confinadas a um “espaço residual”. Sua crítica central
é que a disciplina define seu objeto por negação — o internacional como ausência
de governo central —, uma definição emprestada da Ciência Política que impede
as RI de gerarem suas próprias “grandes ideias”. Em resposta, Rosenberg propõe
fundar a disciplina em um fato ontológico positivo: a multiplicidade societal.
Esta seria o fundamento próprio das RI: o fato elementar de que a existência
humana está distribuída por inúmeras sociedades que coexistem e interagem
(Rosenberg 2016; Kurki e Rosenberg 2020; Corry 2022).
A ontologia que sustenta esta prisão não é inocente; ela é intrinsecamente
ontocida. Ao elevar o Estado à categoria de unidade básica e natural da análise,
a disciplina participa no apagamento de outras formas de organização política e
social. Essa exclusão disciplinar pode ser lida como uma modalidade específica
de ontocídio, entendido aqui como o processo sistêmico que inviabiliza formas
alternativas de existência política e social, desarticulando mundos possíveis em
favor de uma ontologia estatista e colonial. A ontologia subjacente é incapaz
de ver processos relacionais de constituição mútua. Ela só consegue enxergar
unidades pré-constituídas e atomísticas (os Estados) que então se relacionam
externamente. Isto reduz a compreensão da coexistência à “mera copresença de
entidades pré-constituídas” (Odysseos, 2007, xxvii), desconsiderando as interações
complexas e o papel constitutivo da alteridade. Esta visão é sustentada por
narrativas profundamente ontocida, como é o caso da “teoria da modernização”.
Como aponta Zarakol (2023), essa teoria postula uma teleologia onde as sociedades
ocidentais são líderes e outras devem seguir. Isto define quais atores “contam”
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e quais podem ser “negligenciados”, relegando o “não-Ocidente a um gueto
atrasado”. A diferença espacial é traduzida em diferença temporal, criando uma
escala hierárquica de desenvolvimento.
Em resposta à crítica “Prisão da Ciência Política”, Justin Rosenberg propõe
uma reorientação radical, na qual a “multiplicidade” surge como a solução
para essa prisão. Rosenberg propõe que as RI se fundamentem em um fato
elementar e positivo sobre o mundo humano: a existência não é unitária, mas
múltipla (Rosenberg 2016). Ela está distribuída em inúmeras sociedades que
interagem. Ele argumenta que o objeto próprio das RI não é a anarquia, mas a
“multiplicidade societal” – o fato elementar de que a existência humana está
distribuída por inúmeras sociedades que coexistem e interagem. Esta condição
seria o fundamento ontológico positivo para a disciplina.
Em sua análise sobre o Desenvolvimento Desigual e Combinado (U&CD),
Rosenberg (2013) aprofunda as bases filosóficas da multiplicidade (Rosenberg
2013). Ele argumenta que a teoria dialética tradicional se baseia em uma premissa
de tripla não-identidade: 1) Nenhum objeto é idêntico a outro (A ≠ B); 2)
Nenhum objeto é idêntico a si mesmo ao longo do tempo (devido à mudança
constante); e 3) Nenhum conceito corresponde perfeitamente ao seu objeto
real. No entanto, a teoria social clássica, mesmo a dialética, opera de forma
“internalista”, ou seja, tende a conceituar a sociedade no singular, como se ela
fosse uma entidade autocontida. Para superar isso, o U&CD introduz tacitamente
uma quarta premissa de não-identidade: a multiplicidade quantitativa ou numérica
(Rosenberg 2013). Mesmo que duas instâncias de algo fossem completamente
idênticas, elas ainda não seriam uma à outra. Essa coexistência numérica
(A ≠ A, mesmo que A = A em qualidades) gera um espaço intersocietal de
interação que possui causalidade própria e que o internalismo não consegue
captar. De acordo com o autor, será essa quarta premissa o que transforma o
U&CD de uma teoria sobre o capitalismo tardio em uma teoria social geral com
implicações para o internacional. É a multiplicidade numérica que dá origem
à “chicotada da necessidade externa”, um mecanismo causal irredutivelmente
internacional (Rosenberg 2021; Rosenberg et al. 2022, 293).
Para operacionalizar essa ontologia, Rosenberg (Kurki e Rosenberg 2020;
Rosenberg 2025) identifica cinco consequências genéricas da multiplicidade
societal: 1) Coexistência de múltiplas sociedades no mesmo tempo histórico; 2)
Diferença entre suas características e trajetórias; 3) Interação resultante dessa
coexistência e diferença; 4) Combinação de elementos através da interação,
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criando formas sociais híbridas; e 5) Mudança Histórica Dialética não-linear,
moldada pela interação entre determinações internas e externas. Esse arcabouço,
para Rosenberg, permitiria às RI estudar “o internacional de tudo”, libertando-se
da prisão epistemológica.
A proposta de Rosenberg, contudo, enfrenta uma crítica fundamental: sua
possível cumplicidade com a ontologia colonial que pretende superar. Críticos
argumentam que a verdadeira prisão é a da modernidade colonial (Blaney
e Tickner 2017). Eles sustentam que a “multiplicidade societal” permanece
fundamentada em uma “ontologia do desenvolvimento”, categoria hierarquiza
o mundo e é constitutiva da violência colonial contra ontologias alternativas.
Essa crítica encontra eco em Denise Ferreira da Silva (2019), para quem os
pilares ontoepistemológicos da modernidade (separabilidade, determinabilidade,
sequencialidade) produzem um “Mundo Ordenado”. Ao partir de “sociedades”
como unidades discretas e determináveis, a proposta de Rosenberg operaria
dentro desses mesmos pressupostos, arriscando descrever uma pluralidade já
capturada pela lógica ordenadora colonial.
A pesquisa histórica de Robert Vitalis (2015) corrobora e radicaliza essa
objeção. Ao demonstrar que as RI nasceram da gestão de hierarquias raciais
e coloniais – e não de uma investigação filosófica sobre a “multiplicidade” –,
Vitalis expõe as raízes colonialistas do próprio campo. A “multiplicidade” que
Rosenberg busca positivar foi, desde a origem, o objeto a ser hierarquizado
e dominado. Ignorar essa genealogia, portanto, corre o risco de naturalizar a
multiplicidade dentro do mesmo arcabouço ordenador que a disciplina foi criada
para operar. Dessa forma, a “Prisão da Ciência Política” revela-se um sintoma de
um deslocamento que evita confrontar a “Prisão da Colonialidade”. A solução
da multiplicidade societal, sem uma ruptura com essa história, permanece
insuficiente para uma liberação ontoepistemológica.
Outro eixo de debate gira em torno da própria definição de “sociedade”. Críticos
como Waever (2024) apontam que, sem uma definição clara, a “multiplicidade
estrita” (de sociedades) pode dissolver-se em uma “multiplicidade confusa” (de
qualquer coisa). Em resposta, Rosenberg (2025, 15) oferece uma definição que
busca integrar teoria social e internacional: uma sociedade é uma “formação social
que existe simultaneamente como uma subdivisão geopolítica do mundo humano”.
Esta definição, ao enfatizar a demarcação política, busca ser transhistórica —
aplicando-se desde bandos de caçadores-coletores até Estados-nação.
Paralelamente, autores como Kurki e Corry argumentam pela necessidade
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de expandir o conceito de multiplicidade para além do “societal”. Kurki defende
uma teorização focada na “vulnerabilidade em relações de multiplicidade de
múltiplos tipos: societal, humana e mais que humana” (Kurki e Rosenberg
2020, 7). Corry (2022), por sua vez, propõe estender a noção de “societal” para
incluir o “metabolismo” com a natureza, permitindo uma análise ecológica do
internacional. Para Kurki, a multiplicidade é um recurso crítico que não pode ser
contido nas RI ou no nível humano, sob o risco de nos levar de volta à ideia de
“um mundo”. Estas propostas revelam a tensão entre conceber a multiplicidade
como uma ontologia profunda transhistórica ou como uma epistemologia profunda
sensível à contingência histórica na construção dessas entidades e relações
(Corry 2022).
Em última análise, a “Prisão da Ciência Política” revela-se como uma estrutura
ontoepistemológica ontocida. A tentativa de Rosenberg de escapar através da
“multiplicidade societal” é um avanço crucial ao positivar o internacional e
diagnosticar corretamente o problema da identidade negativa. No entanto, ao
manter a “sociedade” como unidade e não romper radicalmente com a “ontologia
do desenvolvimento”, a sua proposta não desmantela sozinha as estruturas
ontocidas. Há o risco de reduzir a coexistência à mera copresença da multiplicidade
de sociedades individualizadas, perpetuando uma visão em que as unidades
primeiro são, depois se relacionam. Portanto, a libertação definitiva exige mais
que uma redefinição do objeto disciplinar. Exige uma revolução ontológica que
vá além da multiplicidade societal, abraçando uma ontologia da relação, do
processo e do devir que seja verdadeiramente pluriversal e capaz de ouvir os
múltiplos mundos que a ontologia do desenvolvimento historicamente silenciou.
A “Prisão” não é apenas epistêmica; é ontocida porque seu arcabouço conceitual
inviabiliza a inteligibilidade — e, portanto, a possibilidade de existência legítima
— de mundos relacionais que desafiam o modelo estatista e colonial.
A matriz colonial: ontocídio e a hierarquização do Ser
Para além de suas expressões históricas (Westfália) e disciplinares (Prisão
da Ciência Política), o ontocídio tem seu núcleo gerador na colonialidade
do poder (Quijano 2005). Enquanto os eixos anteriores manifestam a lógica
ontocida, a colonialidade é sua substância: o mecanismo fundante que, através
da racialização, produz a hierarquização do ser que justifica a destruição de
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mundos. A colonialidade opera a racialização como tecnologia ontocida primordial,
criando categorias de “não-ser” ou de “ser inferior” para legitimar a exploração,
a dominação e a aniquilação.
A colonialidade, como padrão de poder persistente que emerge do colonialismo,
desde a constituição da América e do capitalismo eurocentrado, estrutura o
mundo moderno/colonial classificando a população global pela ideia de raça
(Quijano 2005; Mignolo 2011; Segato 2021). Nesse processo, a racialização opera
como tecnologia ontocida primordial, criando a categoria do “não-ser” ou do
“ser inferior”, justificando assim a exploração, a dominação e a destruição de
mundos. Frantz Fanon (2020) expõe visceralmente essa negação: o colonizado
é obrigado a abrir mão de seu mundo para se aproximar o máximo possível do
universal colonial (ser branco, falar francês), sob pena de não ser reconhecido
como humano. A violência colonial se manifesta na retirada de humanidade do
colonizado, arrancando o seu mundo de viver.
Esta violência racial é sustentada por um arcabouço ontoepistemológico
específico. Denise Ferreira da Silva (2019) descreve a “lógica da obliteração”
do “Mundo Ordenado” colonial: o conhecimento racial toma a branquidade/
europeísmo como a medida universal e incontestável da humanidade, realizando
uma inversão causal crucial. Os efeitos da expropriação colonial violenta (conquista,
escravidão) são “transubstanciados” em defeitos naturais e morais inerentes aos
corpos e mentes racializados. A desvantagem econômica resultante da expropriação
colonial é, assim, transformada em um “déficit natural, isto é, racial” (2019, 169).
Dessa forma, a violência fundadora é obliterada e re-significada como a causa
da condição subalterna, e não sua consequência, construindo a “negridade”
como um “objeto sem valor”, o outro do Sujeito branco autodeterminado. Esta
obliteração é indispensável para sustentar a ficção do sujeito moderno autônomo,
cujo privilégio se ergue sobre aquela expropriação original.
A colonialidade, ao naturalizar a superioridade europeia, justifica a aniquilação
ou civilização imposta como os únicos destinos possíveis para os outros. Como
destaca Coronil (1997), a divisão internacional do trabalho deve ser entendida
também como uma “divisão global da natureza”. O extrativismo capitalista
moderno, ao transformar a natureza em mera mercadoria e fonte de recursos
a serem explorados, destrói as ontologias dos povos que mantêm uma relação
intrínseca com a terra. Exemplos incluem a negação dos direitos coletivos de
uso da terra transmitidos por linhagens em sociedades africanas, substituídos
pela lógica individualista da propriedade privada. Essa imposição da “ontologia
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do capital” sobre outras ontologias inerentes às sociedades não-capitalistas leva
à destruição de mundos relacionais humano-não-humanos, onde a natureza é
coisificada e subjugada, refletindo a mesma lógica de desumanização aplicada
aos povos colonizados.
Coronil (2005) observa a “intenção de homogeneizar” recursos naturais,
patrimônio e seres humanos como “distintas formas de capital”, reduzindo-os a
elementos equivalentes em um portfólio. Essa “transmaterialização” da riqueza
em formas cada vez mais abstratas e fragmentadas (como os derivativos) facilita o
controle e a acumulação global, desvinculada de territórios e fronteiras, mas com
consequências práticas devastadoras para a vida em suas diversas expressões. O
extrativismo, enquanto transformação da natureza em recurso, revela-se assim
como expressão econômica da cosmofobia. Nos termos de Bispo dos Santos
(2023), a compulsão por “sintetizar o orgânico”, de transformar a natureza viva
e relacional em “matéria-prima” mercantilizável, é um ato de ontocídio movido
pelo medo do cosmos. A hierarquização colonial do ser, portanto, não se restringe
aos humanos: estende-se a toda a teia da vida, que é reordenada numa escala de
valor que nega sua agência cósmica e sua condição primordial de compartilhante.
A “dívida impagável” de que fala Ferreira da Silva (2019) é, nesse sentido, também
uma dívida cósmica: uma violência que nega o compartilhamento e impõe a
lógica do valor abstrato sobre a trama concreta da vida.
Em suma, o extrativismo é um exemplo palpável de como a matriz colonial,
por meio da racialização, atua como uma tecnologia ontocida. A prática demonstra
como a desumanização do Outro e a hierarquização do ser e do tempo são
utilizadas para justificar a apropriação de terras, a exploração de corpos e a
eliminação de mundos de vida que desafiam a ontologia liberal-colonial-moderna.
A negação da coetaneidade (Eixo 1) e o apagamento da relacionalidade (Eixo
2) são, em última instância, operações a serviço desta hierarquização colonial
do ser (Eixo 3). As Relações Internacionais, ao não confrontarem radicalmente
esta matriz, tornam-se cúmplices do ontocídio.
Considerações finais
Este artigo buscou demonstrar que a incapacidade das RI em responder
aos desafios planetários do século XXI está enraizada em suas prisões
ontoepistemológicas constitutivas, que naturalizam a violência ontológica do
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projeto moderno/colonial. Para tal, articulamos o conceito de ontocídio – o processo
sistemático de aniquilação de modos de existência e mundos de vida – como
ferramenta para radicalizar a crítica decolonial. Através da análise de três eixos
canônicos, revelamos como a disciplina é cúmplice ativa de uma hierarquização
global do ser: o mito de Westfália nega a coetaneidade e legitimou a erradicação
de formas políticas outras; a Prisão da Ciência Política apaga a relacionalidade
constitutiva, inviabilizando a inteligibilidade de mundos relacionais não-estatais;
e a matriz colonial funda e sustenta essa hierarquização através da racialização
do ser. Juntos, esses eixos formam um arcabouço ontoepistemológico ontocida.
A diagnose do ontocídio, contudo, exige a indicação de um horizonte de
superação. Concluímos que a mera pluralização epistemológica é insuficiente.
É necessária uma virada ontológica que desloque as bases do pensamento
internacional. Tal virada exige, como primeiro passo, a “renúncia” ao alocronismo
(Fabian 2014) e a adoção de uma “radical contemporaneidade” que reconheça
todos os povos como co-sujeitos da história (Fabian 1991). Isto implica abandonar
a ontologia substancialista das entidades pré-constituídas (o Estado, o Sujeito) e
abraçar uma ontologia relacional que reconheça a primazia dos processos, dos
fluxos e das multiplicidades. Isso implica reimaginar o “internacional” não como
um sistema de unidades, mas como um campo de imanência onde múltiplos
agenciamentos – humanos e não-humanos, estatais e não-estatais – coexistem
e se co-constituem. O programa de pesquisa decorrente desta virada teria como
tarefa central uma cartografia ética desses agenciamentos, comprometida com
a desestratificação das hierarquias coloniais de ser.
Reconhecemos que o conceito de ontocídio, aqui desenvolvido em sua
dimensão crítica, ainda exige maior precisão para se diferenciar de noções
próximas (genocídio, etnocídio) e aprofundar a identificação de seus mecanismos,
escalas e formas de manifestação. Caminhos futuros incluem a construção de
uma tipologia mais refinada e a aplicação do conceito a estudos de caso empíricos
que detalhem suas operações materiais e discursivas. O gesto final deste artigo
é, portanto, um convite a pensar as RI a partir do ontocídio: como um campo
cuja libertação depende do abandono do Eu soberano do Estado e da abertura
ética e epistemológica ao devir-outro, à relacionalidade radical e à coexistência
de mundos plurais.
Vinícius Armele
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