
Acácio Augusto; João Paulo Duarte; Tadeu Maciel
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 17, n. 2, e1207, 2022
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de 2006, a organização relatou os trabalhos desenvolvidos pelo programa La
Passage, por meio do qual a Cruz Vermelha francesa presta serviços de assistência
psicopedagógica a jovens de 16 a 26 anos em distritos nos arredores de Paris em
que as condições cotidianas são descritas como uma “encruzilhada de sofrimento
psíquico e precariedade social”. Dirigido pelo intuito de “reintegrar tais pessoas
ao campo social e profissional” de forma a recolocá-los “de volta aos trilhos
sem recorrer ao sistema”, o programa foi anunciado como um “dispositivo
cujo objetivo é estimular os jovens na busca por emprego e reintegração”,
sendo, dessa maneira, mais um mecanismo a ser ativado “em resposta à crise
nas banlieues”. Para além dos meios repressivos utilizados pelo Estado, trata-
se, pois, de uma articulação capilar do poder, aquém e além da soberania, na
qual outros procedimentos, tecnologias, discursos e dispositivos operam e se
manifestam de forma a compor o governo da vida. Ou, em outros termos, uma
articulação do poder que se volta à mitigação e à gestão de misérias em meio a
agrupamentos populacionais que devem ser objetos constantes da segurança,
em um programa que também busca extrair utilidade, mesmo que precária, de
tais corpos, avaliados como excedentes demográficos a serem preferencialmente
controlados ou mantidos em “zonas de espera”.
Portanto, procura-se capturar e/ou pacificar a revolta ao se agenciar práticas
que estendem o raio de alcance da cidadania para então impor uma dignificação
calculada, programada e seletiva de determinadas vidas. Chega-se, assim, à
combinação estratégica de táticas de repressão com táticas de inclusão regulada
e diferenciada. E, como efeito, o produto da atividade dita não governamental
que investe sobre corpos tidos como em condição de vulnerabilidade, cria modos,
pelo fomento da resiliência, para se evitar que eles ativem resistências e animem
revoltas. Corpos que por estarem expostos a situações violentas, degradantes, de
ostracismo, inatividade e racismo, necessitam de ações que se desdobrem em novas
dinâmicas de assujeitamento e em devidos enquadramentos de funcionalidade
econômica e controle político. Por isso, são expostos não somente a dispositivos
coercitivos, mas, ao mesmo tempo, a ações que geram positividades na medida
em que investem na instrução, educação e medicalização, na participação,
inclusão e ocupação desses corpos.
Essa abordagem da Cruz Vermelha pode ser também percebida em alguns de
seus engajamentos ativados em resposta aos acontecimentos de revolta ocorridos
na Grécia, entre 2008 e 2009, especialmente em Atenas. Nesses acontecimentos,
de maneira semelhante ao que havia ocorrido na França, em 2005, grandes
protestos e manifestações políticas emergiram após o assassinato de um jovem