Diego Pautasso; Tiago Soares Nogara; Carlos Renato Ungaretti; Ana Maria Prestes Rabelo
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 16, n. 2, e1122, 2021
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As três dimensões da guerra
comercial entre China e EUA
The three dimensions of the trade
war between China and the USA
Las tres dimensiones de la guerra
comercial entre China y EEUU
DOI: 10.21530/ci.v16n2.2021.1122
Diego Pautasso
1
Tiago Soares Nogara
2
Carlos Renato Ungaretti
3
Ana Maria Prestes Rabelo
4
Resumo
O artigo argumenta que a Guerra Comercial entre EUA e China
engloba três dimensões: num nível mais superficial, representa
o recrudescimento do protecionismo estadunidense voltado à
base eleitoral de Trump e à consequente barganha em relação à
China para diminuir os déficits comerciais; no nível intermediário,
a disputa pela liderança de importantes segmentos tecnológicos-
produtivos; e no nível mais profundo, a própria contenda
pela liderança do sistema internacional. Consequentemente,
1 Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). Professor do Colégio Militar de Porto Alegre. Rio Grande do Sul, Brasil.
(dgpautasso@gmail.com). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2393-1903.
2 Doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP). Mestre
em Relações Internacionas pela Universidade de Brasília (UnB).
(tiagosnogara@gmail.com). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1560-8150.
3 Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais
(PPGEEI), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
(renato.ungaretti94@gmail.com). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1599-2941.
4 Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Assessora Técnica na Câmara dos Deputados. Brasília, Distrito Federal, Brasil.
(anamprestes@gmail.com). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0521-035X.
Artigo submetido em 21/09/2020 e aprovado em 25/04/2021.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
ISSN 2526-9038
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As três dimensões da guerra comercial entre China e EUA
Rev. Carta Inter., Belo Horizonte, v. 16, n. 2, e1122, 2021
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demonstramos que a disputa tecnológica sino-estadunidense no setor da infraestrutura
5G da empresa chinesa Huawei reflete uma competição mais abrangente pela própria
liderança do sistema internacional.
Palavras-chave: Guerra Comercial; Estados Unidos; China; Hegemonia; 5G.
Abstract
The article argues that the US-China Trade War encompasses three dimensions: on a superficial
level, it represents the resurgence of US protectionism aimed at Trump’s electoral base and
the consequent bargain in relation to China to reduce trade deficits; at the intermediate level,
the dispute for the leadership of important technological-productive segments; and at the
deepest level, the contention for the leadership of the international system. Consequently,
we demonstrate that the dispute in the 5G infrastructure sector of the Chinese company
Huawei reflects a deepest competition for the leadership of the international system.
Keywords: Trade War; United States of America; China; Hegemony; 5G.
Resumen
El artículo sostiene que la Guerra Comercial entre Estados Unidos y China abarca tres
dimensiones: en un nivel más superficial, representa el resurgimiento del proteccionismo
estadounidense dirigido a la base electoral de Trump y el consecuente pacto en relación
con China para reducir los déficits comerciales; en el nivel intermedio, la disputa por el
liderazgo de importantes segmentos tecnológico-productivos; y en el nivel más profundo, la
misma contienda por el liderazgo del sistema internacional. En consecuencia, demostramos
que la disputa tecnológica chino-estadounidense en el sector de infraestructura 5G de la
empresa china Huawei refleja una competencia por el liderazgo del sistema internacional.
Palabras clave: Guerra comercial; Estados Unidos; China; Hegemonía; 5G.
Introdução
A Guerra Comercial entre EUA e China engloba três dimensões. Num nível
mais superficial, representa o recrudescimento do protecionismo estadunidense
voltado à base eleitoral de Trump e à consequente barganha em relação à
China para diminuir os déficits comerciais. Contudo, pretendemos argumentar,
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neste artigo, que esse tensionamento bilateral encerra disputas mais profundas:
no nível intermediário, pela liderança de importantes segmentos tecnológicos-
produtivos e, no nível mais profundo, pela liderança do sistema internacional.
O problema de pesquisa em questão é, pois, compreender como as disputas
tarifárias obscurecem a rivalidade sino-americana e, com efeito, a liderança
técnico-produtiva e sistêmica em jogo. Para lançar luz sobre essa problemática,
buscamos enfatizar a questão do padrão tecnológico 5G e da empresa chinesa
líder no setor, a Huawei, como referente empírico.
Nesse sentido, situamos as contradições no seio das relações sino-
estadunidenses como parte de uma complexa transição sistêmica. Trata-se de
uma premissa teórica ancorada na obra de Arrighi e Silver (2001), que indica o
acirramento das competições interestatais e interempresariais nas conjunturas de
reorganização das bases técnico-produtivas globais. Desde a década de 1970, as
reorganizações geoeconômica e geopolítica têm envolvido processos complexos
e entrelaçados, tais como a reação neoconservadora e neoliberal, a emergência
de novos paradigmas produtivos, o final da Guerra Fria, a projeção de poder dos
EUA e, com a virada para o século XXI, a crescente multipolarização. Está cada
vez mais perceptível a intensificação da competição político-econômica entre
os países mais poderosos, com a redução da capacidade arbitral (unilateral) dos
EUA, a rápida fragmentação do sistema mundial, falência e esvaziamento de
organismos multilaterais, a volta da luta pelas supremacias regionais e, como
efeito, o aumento do grau de incerteza no mundo (Fiori 2007). Nesse sentido,
a pandemia parece ter precipitado tanto inovações quanto tendências disruptivas,
acelerando dinâmicas sistêmicas e recrudescendo as contradições entre EUA
e China.